1 de jun. de 2007

Xemelizando o Sistema

A diversidade de "conteúdo" na rede depende da diversidade de "sistemas"
Facilitando a Colaboração


Por Vitoriamario

Se queremos que as pessoas colaborem, e construam uma internet livre, é preciso que as tecnologias se desenvolvam nesse sentido. A natureza da internet pode ser descentralizada e anárquica, mas o uso que as pessoas fazem dela depende do desenvolvimento de tecnologias que possibilitem este uso. Estamos falando aqui tanto de software, como de infra-estrutura física, de hardware e de telecomunicações.

Mas pensar uma internet mantida colaborativamente não é simples. Ainda não existe a cultura de uso da responsabilidade compartilhada na internet. Projetos como a wikipedia ou wikimapia são excessões e normalmente mantidos por "geeks".

Como tornar a prática colaborativa no ambiente digital algo natural? Com formação? Escolas na internet? Talvez tudo isso, mas uma coisa acima de tudo: familiaridade com os sistemas.

Sistemas são metáforas. Cada pessoa tem a sua. Sistemas devem ser múltiplos. Múltiplas maneiras de organizar informações, idéias e dados. Isso sempre foi assim. Cada povo organizou seu calendário de uma maneira, seu idioma, sua sociedade. Cada grupo usa seus linguajares
característicos, organiza as coisas de determinada maneira.

A única maneira de as pessoas colaborarem de forma natural e orgânica é a tecnologia se tornar transparente. As pessoas usam o telefone com tanta desenvoltura para se comunicar hoje em dia porque ninguém pára para pensar que está usando um telefone quando está falando com alguém: está pensando apenas na conversa.

Se investirmos em uma tecnologia que privilegie o controle e a centralização da produção, não há milagre que faça que as pessoas se comportem de maneira diferente em relação a ela. Se na tela da minha TV Digital aparecer apenas as opções "assistir canais" e "fazer compras" não adianta me vir falar de outras possibilidades.

As escolhas pelos caminhos de desenvolvimento devem ser coerentes com a cultura de uso que se espera que nasça. É preciso que se multipliquem possibilidades de metáforas para as pessoas interagirem com a máquina.

Nunca se chegará ao sistema perfeito, que torna a colaboração entre as pessoas e a organização de ideias compartilhadas algo tão natural quanto pensar e conversar. Isso porque as pessoas são diferentes: pensam e conversam de maneiras diferentes. Por isso é necessário que se criem
muitos sistemas. Quanto mais melhor.

Contudo esses sistemas podem conversar entre si. A essência das mensagens trocadas internamente dentro dos diversos sitemas são sempre semelhantes. Se todos os sistemas tiverem suporte a um protocolo comum, eles facilmente conversarão. E cada pessoa poderá usar o que mais lhe agrada, e estar conectada com toda a rede, como deve ser.

Isso não significa que todos devem falar a mesma língua, ou que os sistemas tenham que ser todos semelhantes. Isso significa que os sistemas devem ser inteligentes. Por mais específico e único que um sistema possa ser, é possível que ele troque informaçoes com outras plataformas.

Um exemplo realmente muito simples disso hoje em dia é o RSS, que permite a troca de informações entre sites. Usado normalmente para alimentadores de notícias e de blogs, a potencialidade desse tipo de protocolo ainda é pouco explorada.


Compartilhamento consciente

Compartilhar não é um ato passivo de 'deixar levar', mas um ação positiva de 'tornar disponível'.

Desenvolver um software é uma coisa. Desenvolver um software e documentá-lo bem é outra coisa. E, se pensarmos bem, só esta segunda pode ser considerada desenvolvimento de software livre.

Para que alguém possa se apropriar de um código e colaborar, é preciso que haja documentação acessível e bem organizada. Se não houver, o software fica necessiaramente ligado a pessoa que primeiro o desenvolveu, e o fato de o código ser aberto não dá grandes possibilidades de evolução espontânea e caótica.

O mesmo acontece com cultura e conhecimento. Apenas fazer upload desordenado de milhões de coisas não necessariamente enriquece o repertório do videomaker que procura uma música para seu vídeo. É preciso uma cultura de uso de publicação de forma organizada.

As interfaces de compartilhamento devem tornar a classificação algo natural e orgânico. Isto pode ser a colocação de tags, ou qualquer outra maneira de indexação que venha a surgir.


Software Livre e o desenvolvimento de Softwares

Recorrentemente citamos o fim da divisão "emissor vs receptor" quando falamos em tecnologias digitais para comunidação.

No entanto nos esquecemos que, quando falamos de software livre, estamos falando a mesma coisa. Estamos falando do fim da distinção entre usuário e desenvolvedor. Tanto no sentido de que o usuário é um participante ativo no desenvolivmento do software, na medida em que ele faz parte da comunidade e colabora de alguma maneira, como também estamos falando da possibilidade de qualquer pessoa se apropriar de códigos alheios e passar a ser o desenvolvedor de seu próprio software.

Com código e documentação abertos este cenário é uma realidade.

É preciso que incentivemos:

. desenvolvimento de software livre - sempre bem documentado
. desenvolvimento de protocolos de comunidação que podem servir como
base de troca de dados entre sistemas
. infra-estrutura física e de software que permita a descentralização,
assim como as redes mesh extinguem a necessidade de uma grande antena
central

Wiki na rede

A versão beta do documento "Diversidade e Cultura Digital" já está esperando modificações.

Para editá-la, basta se cadastrar, com endereço eletrônico e senha, no campo indicado na própria wiki. Quem tiver dúvidas de como utilizar a ferramenta, pode escrever para biancasantana@gmail.com

"Questões e sugestões metodológicas"

O Orlando propôs discutir o método da oficina na lista .

Participemos!

Inventar a gratuidade

Texto anônimo, ou de qualquer um, ou de um coletivo existente em local incerto e não sabido (mas existente). Circulou na lista de discussão Submidialogia.

A gratuidade, em suas múltiplas concepções, caracteriza bem um novo horizonte. Ela qualifica, sob o conceito de interesse geral ou sob o nome de BEM COMUM, o que pertence a todos, ou aquilo de que todos fazem uso. Nesse sentido, a gratuidade é constitutiva da comunidade política planetária. Mais ainda, ela é constitutiva de toda comunidade política, enquanto essa última nasce de uma tomada comum de recursos. Mas a gratuidade excede igualmente o comum ou o humano. É a gratuidade das coisas sem donos que, por mais distantes que estejam (estrelas ou cometas), passam a constituir também nossos recursos os mais necessários
(luz do sol). É em nome desse horizonte comum, dessas gratuidades, que numerosas lutas sociais e políticas aparecem hoje, usando mesmo desse outro sentido da gratuidade que encontramos na língua inglesa, free, significando assim que a tomada comum das determinações é também o momento da autodeterminação política.


A Gratuidade do Interesse Geral

A gratuidade do interesse geral, repousando sobre a redistribuição fiscal e recolocando Deus ou os deuses para a Comunidade, se inscreve – revista e aménagée pela escolástica medieval – na continuidade da idéia romana de gratuidade. No direito romano, aquilo que chamamos hoje de recursos naturais são então gratuitos e sagrados, e gratuitos porque sagrados, excedendo o humano em sua natureza ou em sua dimensão, esse último sendo um simples usuário, um usufrutador e não um proprietário da natureza. O mesmo vale para o domino publico e os serviços públicos do Estado, dos quais podemos nos beneficiar, posto que pertencem legalmente à comunidade nacional, mas que enfrentam finalmente uma gestão direta
pelos usuários. A partir disso, o domínio, assim como o serviço público, são privatizados pela potência pública que define a produtividade segundo os interesses (notadamente eleitorais) daqueles que a geram ou daqueles que estão em posição de desvia-lo em seu beneficio. Hariou foi o primeiro jurista a associar gratuidade e serviço publico. Segundo o Doyen de Toulouse, o serviço que está a cargo do interesse público deve ser organizado sobre um modo comunista e seu financiamento assegurado pela comunidade. Assim, a gestão do bem comum se ajusta ao interesse geral. "Os recursos são colocados em comum para que os serviços sejam tornados igualmente e gratuitamente a todos. Daí vem o caráter não lucrativo dos serviços públicos" (Hauriou). Mas por que um serviço, a principio não lucrativo, alimentado de recursos coletivos, é
transformado hoje em serviço lucrativo? Declara-se as vezes que a gratuidade tem efeitos perversos sobre um consumidor que, não sabendo o preço da gratuidade publica, ou se beneficiando sem esforço, nao respeita os bens culturais que ele comprou (como se os impostos não fossem suficientemente altos, fosse necessário pagar em dobro). E ainda – para pegar o exemplo dos transportes públicos urbanos - não bastasse pagá-los na roleta, é preciso também que o dinheiro levantado sirva a controlar o usuário. As pesquisas do grupo NADA mostram que, de fato, as receitas comerciais (constituídas das contas, mas também de outras fontes como publicidade, as locações dos espaços aos comerciantes de jornais, buffets e comércios diversos) são minoritários face aos financiamentos públicos, e que elas justificam, contudo, custosos dispositivos de controle e uma custosa bilheteria ( billeterie) sem falar da lucrativa e não contratual poluição publicitária imposta em todas as estações de metrô e ônibus. Uma prefeitura que gera o domínio publico comunal se apropria e privatiza a gestão desse domínio. Ela transforma o recurso coletivo em máquina produtiva submetida a imperativos de rendimento ou de retorno de investimento. Dessa maneira, ela desvia progressivamente as finalidades coletivas dos recursos comuns. Não basta que os recursos naturais e imateriais, presentes, passados e futuros sejam colocados em comum. É necessário também que essa tomada comum abstrata seja suportada pelo debate publico (rompendo a subordinação da sociedade ao Estado, tornando-se proprietários dos recursos comuns, regule também seu uso, em vez dos lugares dos "comunistas".

A Gratuidade do Bem Comum


Encaixotados na Res Publica, os bens comuns pertencem e são constituídos e regulamentados por sua potência pública. As Res Communis são então menos comuns se relacionadas a seu/sua ( maître – nota da tradução: aqui eu não sei se se refere à prefeitura ou ao dono), ao Estado que decide e dispõe delas, com ou sem mandato dos comunistas. Mas o encaixotamento das Res Communis na Res Publica pode igualmente adotar uma outra forma
com o federalismo ou o socialismo cooperativo, onde todos os consumidores são organizados em cooperativas de consumo, organizando cooperativas de "segundo nível" (Charles Gide) o processo de produção e distribuição. Nesse contexto, as coisas comuns servem de assento a uma vida comum federativa e cooperativa.

No código civil francês, as coisas comuns (eventualmente integradas ao domínio publico) se manifestam através de diversos status: os bens comunais (art. 542 cód. civil), as coisas comuns corporais (cód. civil 714), as coisas comuns incorporadas. Os bens comunais são aqueles
à propriedade e aos produtos dos quais os habitantes de uma ou diversas comunidades tem direito adquirido. Esses bens comunais representam, na França, algo como 60 mil quilômetros quadrados, eles são propriedade coletiva da comuna e não propriedade comunal. E é provavelmente pensando nos bens comunais que a Câmara Criminal da Corte de Cassação declarou que "a subtração por um dos comunistas de uma coisa comum constitui um roubo" (27/02/1836).
As coisas comuns são também elementos naturais como o ar, as praias ou as paisagens hoje (verses) ao domínio publico. Muitos desses recursos, que estavam há muito tempo não contados ( non comptes) estão hoje integrados nos cálculos econômicos: a produção da natureza foi avaliada em 55 milhões de dólares por ano por um grupo de cientistas do Instituto de Economia Ecológica da Universidade de Maryland, em 1997. E os planetas – como o fundo dos mares – durante muito tempo inscritos fora do direito comercial, poderiam, contudo, entrar nessa conta (soma). Associações industriais lutam para modificar o direito do céu, pensando já poderem explorar os recursos dos planetas do entorno. Da mesma forma, no direito prospectivo aparecem distintos tendendo a invalidar a generalidade da noção de bem comum genético, privatizado em suas particularidades produtivas (parece que podemos considerar que o material genético não seja uma coisa comum senão na medida em que ele concerne a um conjunto da espécie – revista de pesquisa jurídica, direito prospectivo, no 16, p.u. Marseille). Bens comunais, recursos
naturais, as coisas comuns são também incorporadas, culturais,
informacionais (idéias e palavras e notas musicais etc). Essas coisas fora do comercio não podem, ou não poderiam até pouco tempo atrás – ser vendidas: "No caso dos dados ( donnes) comuns (idéias, descobertas cientificas, palavras) cada um tendo um direito sobre os mesmos dados, ninguém pode impedir o acesso do outro. Ninguém tem reciprocamente necessidade de uma autorização para utiliza-los" (Isabelle Moine, 1997, p.364). Entre os bens imateriais, poderíamos imaginar que a moeda, coisa incorporada, cultural e informacional, considerada hoje ainda como um bem comercial, retorna à categoria das coisas fora do comercio, como a linguagem e as notas musicais... Sabemos que a propriedade intelectual representa 80% do valor das 500 primeiras empresas do Standard & Room`s Com Stock. A gratuidade está, contudo, inscrita nas práticas de consumo e de produção imaterial. Enquanto o copyright está fundado sobre a proteção do autor e se apresenta como um direito privado a propósito dos
bens que não tem valor senão para circular e serem apreciados, o copyleft está fundado sobre a liberdade dos usuários. A tarefa do Napster, e mais amplamente o desenvolvimento do peer to peer, tendem a provar que o copyright (malmene) os bens imateriais que (defiait) dois dos princípios fundamentais da política econômica: a raridade e o controle. Os dados numéricos são copiáveis ao infinito a custo quase zero. O produtor não (maîtrise) o usa dos dados que ele difunde e não pode impedir sua disseminação: a economia dos bens imateriais retorna por natureza da gratuidade no sentido forte (bens sem dono/maître) ou frágeis (cooperatividade). É necessário distinguir o dom da informação ou seu estabelecimento em um circuito de cooperação, de sua gratuidade. O doador endereça seu don de maneira () e cria eventualmente uma duvida, uma dependência, uma reciprocidade daquele que recebe. A gratuidade é uma disponibilizarão anônima ou de qualquer um. Em uma gratuidade anônima, os indivíduos são intercambiáveis. A circulação de bens ou de signos não é efetuada de uns contra os outros. Não há emissores nem receptores. A informação anônima, por exemplo, um agregado, um fundo
comum, um bem que todo mundo pode ter porque ele está acessível a todos. Seu principio não é o compartilhamento, nem a comunidade de informação, a troca de informação entre pessoas que se conhecem, mas a disponibilizarão sem espera de retorno e na indiferença face ao receptor. A informação anônima é produzida, difundida, coletada ou (ramassée) por não importa quem. Se se produzem encontros entre emissores e receptores, eles são breves e sem dia seguinte, sem
identidade nem reconhecimento, sem ( enjeu) nem projeto. As informações entram em conjunções temporárias induzindo a reagrupamentos aleatórios e provisórios, de emissores e de receptores em contextos de movimento. Em uma gratuidade qualquer, os indivíduos não são intercambiáveis: são não importa quem ou o que, mas eles são eles mesmos, plenamente singulares.
Há emissores concretos e receptores concretos (charnels). Os reagrupamentos se efetuam sobre modos intensivos e de afinidade, e não estatísticas ou aleatoriedade. O autor qualquer rompe com a ausência de qualidade do anonimato: ele se manifesta como potência.

30 de mai. de 2007

Análise, questões e propostas sobre diversidade cultural e o meio digital

Por Fernando S. Trevisan

Faz algum tempo já que a Bianca Santana fez o convite para que eu escrevesse algo e colaborasse com o Diversidade Digital. O convite foi reforçado no Barcamp que aconteceu em Florianópolis, nos dias 19 e 20/maio, quando eu critiquei o "extremo academicismo" dos artigos que havia lido.

Portanto, no intuito de ser justo e de colaborar com algo realmente original, resolvi ler com atenção redobrada o documento que - aparentemente - foi o marco zero deste blog/movimento, bem como os textos já publicados pelos outros colaboradores. Creio que existe algo para adicionar, portanto...

- Crítica à proposta inicial

O DD já inicia com um documento que é uma contradição em termos. Produto de um único acadêmico e ativista político, cita projetos sem nem "linká-los" (como é apontado muito apropriadamente nos comentários); anuncia que busca novas propostas, sendo que volta a bater na velha tecla das iniciativas governamentais e da pesquisa puramente acadêmica para garantia da diversidade. O que salva é que ele é a abertura e o chamado para colaboração, ainda que filtrada por uma "curadoria"... do mesmo autor do documento inicial!

Outro problema claro é que o documento procura inserir diversas bandeiras em uma discussão já cheia de coisas a debater. O que a liberação de freqüências hoje utilizadas pelas TVs - que só deve ocorrer totalmente daqui a uns 5 anos, se não mais - tem exatamente a ver com a diversidade cultural, neste momento? Se queremos aproveitar um seminário que vai acontecer AGORA e apresentar propostas relevantes e concretas, creio ser importante focar no que é possível já.

- A discussão se desenvolve

Os dois artigos imediatamente posteriores, de Cláudio Prado, já começam a dar pistas de outros problemas com a proposta inicial de Amadeu, ainda que de forma dispersa. A ascensão do digital descentraliza, é a realização de uma globalização e "internacionalização" há muito anunciada - e isso pode reforçar e renovar as diversas culturas, desde que elas tenham meios para marcar presença - e Prado enumera o que é necessário, mas cai no mesmo erro de Amadeu, defendendo "rádios e tvs locais e autônomas conectadas em rede".

Ora, a infra-estrutura utilizada para web - desde que garantida a neutralidade da rede - pode e deve ser apropriada para essa presença televisiva e radiofônica, realizando a convergência e a migração de um meio apenas receptivo (a tv e rádio tradicionais) para um meio interativo (a internet, seja em conteúdo de vídeo, som, texto ou multimídia). A diferença é mais que econômica, é de formação, educação e... preservação da diversidade!

Não faltou também quem falasse em "liberdade demais" assim como outros têm medo dos monopólios privados que podem censurar ou restringir o uso de seus serviços. Ana Brambilla, como sempre, faz excelente contraponto, em defesa da liberdade e da colaboração. Marcos Dantas aponta que a tecnologia é meio e ferramenta, não necessariamente criadora de cultura - embora, atualmente, ela também seja isso.

- Das discussões, as questões... e as propostas!

Muitas questões surgem quando paramos para pensar na proposta de diversidade cultural (e digital). A principal, para mim, é: como sustentar? Paulo Lima e Oona Castro vão além da resposta básica "vamos pedir ao papai governo, ele tem que dar a mesada" e apontam soluções: financiamento e subsídios (e aqui o governo pode ajudar, como já vem fazendo) além do "open business".

Não se propõe aqui que a cultura deva ser sempre lucrativa - pois aí correríamos, novamente, o risco de perder a diversidade. A questão é como ir além do apoio governamental ou do uso de serviços privados - que podem esbarrar na ideologia ou no mercantilismo - e permitir que comunidades auto-sustentem sua representação cultural, utilizando meios digitais.

Abandonar as antigas técnicas de transmissão de conteúdo, que não têm interatividade e colaboração, é essencial. As novas gerações - as quais cabe a manutenção de tudo que estamos propondo/criando - não lidam bem com conteúdos impostos, acostumando-se desde cedo com tecnologias interativas.

Assim, faz-se necessário para a preservação digital da cultura, que exista acesso universal a computadores e banda; que isso não seja sustentado apenas por iniciativas governamentais nem apenas por iniciativas privadas, mas que existam meios (Parcerias Público-Privada? Financiamentos? Isenções de impostos?) para que as próprias comunidades sustentem seu acesso, seus equipamentos e também os meios de produção cultural.

É necessário também apropriar-se dos meios já existentes - e aqui cito especificamente os serviços, públicos ou privados - para disseminar essa cultura, ou corremos o risco de novos guetos, agora virtuais.

Mas de nada adianta dar as ferramentas e ter o desejo de apropriar-se do que já existe, se não houver o treinamento para que as comunidades utilizem isso. E aí a iniciativa privada pode ter grande interesse, pois pessoas capacitadas para lidar com tecnologia, web e serviços on-line estão em falta e serão cada vez mais necessárias.

Assim, temos na realidade - e como sempre - no digital a reprodução do real: precisamos de dinheiro, mas de onde? O dinheiro deve ser usado para ferramentas e capacitação - mas como? É o que se discute e se tenta há anos em movimentos sociais, de alfabetização e de políticas de saneamento, entre outros.

A grande diferença do digital é que ele é atrativo, interativo, relativamente barato, automaticamente reciclável (não falando de equipamentos, aqui, mas sim de conhecimentos) e ainda por cima de interesse aos grupos privados. Por que não aproveitar e investir, fazendo com que o digital reflita para o real e aponte soluções a estes outros problemas?

Espero que as críticas tenham sido construtivas e as questões e propostas, úteis...

29 de mai. de 2007

Bibliotecas, museus e arquivos: fontes inesgotáveis de registro da diversidade humana

Por Lídia Cavalcante

Tenho acompanhado e pesquisado sobre as discussões relativas à geração de um patrimônio digital nacional e internacional, por parte de instituições como universidades, bibliotecas, museus e arquivos. Não se trata apenas de mais um modismo do mundo tecnológico contemporâneo. É uma realidade mundial, podemos dizer. Mas, o que significa dizer “uma realidade mundial”? É possível gerar um patrimônio nacional em meio digital? Como ficam as tradicionais bibliotecas, museus e arquivos em meio a essas discussões?
O percurso iniciado pelas discussões e estudos sobre memória e patrimônio digital está apenas começando. Há um logo caminho a percorrer e a explorar. Não se trata de discutir a superioridade de nações ou economias dominantes tecnologicamente, mas de aprofundar o discurso sobre preservação, salvaguarda e acesso. Este tema representa um rico campo de pesquisa a explorar, sob diferentes aspectos: político, histórico, econômico, cultural, educativo ou tecnológico, por exemplo.
Diante de uma tal diversidade de estudos é fundamental destacar a importância do debate político, que envolve questões relativas às práticas e ações voltadas para a emergência da criação de coleções patrimoniais em meio digital. As instituições culturais de memória, de modo geral, se vêem envolvidas em um processo de mobilização global que conduz a diferentes contextos. No campo cultural e tecnológico são estimuladas a desenvolver projetos e programas de digitalização de suas coleções. Entretanto, no plano financeiro, se vêem às voltas com a falta de recursos e de políticas de investimentos que tornem viáveis tais projetos. Assim, confrontam um duplo desafio: gerir um patrimônio tradicional e um patrimônio digital em meio à falta de recursos financeiros, humanos e tecnológicos.
Nesse quesito (ou em mais um quesito), as desvantagens econômica e tecnológica das nações em desenvolvimento serão facilmente perceptíveis. Fato que se pode observar pelo índice de crescimento das coleções patrimoniais digitalizadas em países como a França, os Estados Unidos, o Canadá e a Inglaterra. Não é difícil compreender a concentração do crescimento das bibliotecas digitais na Europa e na América do Norte, bem como o uso da Internet, que permite fluxos de informação cada vez mais dinâmicos e modernos.
Bibliotecas, museus e arquivos, historicamente, são considerados setores tradicionais, cuja inovação não parecer ser “a ordem do dia” das áreas políticas e econômicas no Brasil. Paradoxalmente, o setor informacional tem sido o mais sensível ao desenvolvimento tecnológico, necessitando de inovações e investimentos constantes. Assim, uma política de desenvolvimento de coleções digitais, para assumir de modo competente o papel de difusão cultural e transmissão do saber, necessita de processos de evolução tecnológica constantes e de esforços governamentais e institucionais para gerar projetos de interesse comum no que tange à preservação, salvaguarda, acesso e democratização da memória e do patrimônio coletivo. Fato que requer esforços de cooperação e harmonização de objetivos, para favorecer a troca de experiências, a força política e a obtenção de recursos. Não consigo imaginar um universo de cultura digital sem democratizar saberes e acesso à informação e, menos ainda, sem a presença de bibliotecas, museus e arquivos, fontes inesgotáveis de registro da diversidade humana.

27 de mai. de 2007

Por Yara Guasque

A criação atual em arte e tecnologia e a formação de um público específico no Brasil nos faz focar o paralelismo existente entre as bases de produção material ¾ que fazem emergir a situação econômica-social e o histórico da industrialização do país ¾ e as resoluções estéticas ditadas pela necessidade de se voltar às massas excluídas da cidadania, que adquiriram recentemente o estatuto de consumidores em potencial e que passam a induzir a criação de novos formatos artísticos.

Frente à nossa dificuldade de país periférico de acesso a bens culturais, junto aos limitados recursos e as precárias condições de experimentação, as estratégias adotadas da cultura digital refletem mais o marketing das corporações do que uma real modificação das estruturas de acesso.

Com a globalização o processo de terceirização que acabou por incluir a Zona Franca de Manaus como parte da produção das câmeras videográficas, por exemplo, não representa positivamente a pretensa transferência tecnológica (GUASQUE ARAUJO, GUADAGNINI, FACHINELLO). Como nos colocam LUGO; SAMPSON e LOSSADA (2006), o modelo aplicado com a privatização da indústria de telecomunicações na América Latina trouxe uma entrada significativa de capital para os setores de mídia, telecomunicações e computação e propiciou um rápido crescimento, embora não tenha beneficiado a inovação da produção tecnológica local. Mesmo as novíssimas indústrias de games, que atuam nos países em desenvolvimento, pouco refletem as raízes da cultura local por estarem atreladas à uma produção voltada a atender o perfil cultural do consumidor norte-americano.

Então como falar em diversidade?

A questão colocada é se as massas excluídas da cidadania, que adquiriram recentemente o estatuto de consumidores em potencial, ditarão ou assimilarão os novos formatos e se ainda é pertinente a diferenciação entre alta e baixa cultura.

GUASQUE ARAUJO, Yara R.; GUADAGNINI, Silvia; FACHINELLO, Sandra Reis. "Parâmetros para o entendimento das mídias emergentes e a formação de um público especializado no Brasil". Texto ainda não publicado.
LUGO, Jairo; SAMPSON, Tony; LOSSADA, Merlyn. "Novas indústrias culturais da América Latina ainda jogam velhos jogos Da República de Bananas a Donkey Kong". In: BARRETO, Ricardo; PERISSINOTO, Paula. (Orgs). FILE: festival Internacional de Linguagem Eletrônica. São Paulo: FILE, 2006, p. 164- 179.

26 de mai. de 2007

Cultura de massa e cultura de rede

Por Daniela Silva

Nossos rostos não aparecem nas capas de revista. Não nos reconhecemos no sotaque dos locutores de rádio, nem na lourice meiga dos atores de tevê. A música que consumimos pouco tem a ver com aquela que fazemos. Nunca fomos parecidos com as ilustrações das cartilhas da escola. Nossa língua não freqüenta os livros, os palcos, os plenários. Somos constantemente treinados a acreditar que o conhecimento efetivo é aquele que se distancia da sabedoria popular.

Isso porque é difícil combinar diversidade com cultura de massa. Para priorizar a opinião - e o lucro - de poucos, é preciso estabelecer com os outros muitos um status de dominação. A cultura, quando distribuída em ritmo industrial, vira uma versão empobrecida da realidade, dissemina estereótipos e carrega as relações sociais de estagnação e desigualdade.

Mas se a cultura de massa é aquela que tem pouco ou nada a ver conosco, a cultura da rede somos nós. A rede nos oferece um potencial inédito de propagar pensamento livre e criatividade. A comunicação passa a se dar de maneira essencialmente horizontal e o conhecimento se constrói colaborativamente. A diversidade cultural deixa de ser uma entidade exterior às pessoas e se torna, finalmente, um produto da expressão coletiva.

Para que esse potencial se concretize, é preciso transformar a rede em um espaço de todos. Para que a rede reflita a diversidade, é preciso promover o acesso, a liberdade, o respeito às diferenças. E resgatar a idéia de que as pessoas, todas elas, têm o que dizer.

25 de mai. de 2007

Não queremos internet nas escolas!

Por Nelson Pretto

Calma. A frase do título é apenas a metade de uma idéia um pouco maior. De fato, não queremos a internet nas escolas, mas sim, as escolas na internet. Percebe a diferença? Essa nossa frase virou o lema do nosso grupo de pesquisa Educação, Comunicação e Tecnologias (http://www.gec.faced.ufba.br) desde o final do século passado. Parece que em tempo de web 2.0 não custa resgatá-la. E o incrível é que, a web tem pouco mais de 15 anos e, desde o começo já diziamos: tem que ter espaço para que todos possam se colocar na rede. Tem que cair na rede. A diversidade de culturas, povos, jeitos de ser, pensar e agir precisam estar representadas e se constituirem a essência da internet. Sempre acreditamos que a relação da educação com a cultura, com a ciência e a tecnologia são fundamentais mas ainda estamos frente a poucas transformações no próprio sistema educacional. Mas, felizmente, tem muita coisa acontecendo na busca de transformação dessa realidade, e muitas delas estão sendo implantadas e conduzidas por professores e professoras atuantes e animados, lutando contra todas as faltas de condições e apoios conhecidos. Para nós, para viabilizar essas ações precisamos intensificar a apropriação das TIC enquanto elementos de cultura e não apenas como aparatos tecnológicos que ilustram ou facilitam os processos educacionais. Esses equipamentos, e todos os sistemas a eles associados, são constituidores de culturas e, exatamente por isso, demandam olharmos a educação numa perspectiva plural, que demanda novos vetores de desenvolvimento. Ou seja, temos que afastar a idéia de que educação, cultura, ciência e tecnologia podem ser pensados enquanto mecanismos de transmissão de informações. Isso implica, portanto, pensar em um processo de articulação entre todas essas áreas. No campo das tecnologias, uma ação que se tem mostrado de grande importância é uma maior aproximação com os movimentos do software livre e das possibilidades trazidas pelas tecnologias livres, ao resgatar, para o ambiente da escola, a perspectiva de colaboração. Associado a isso, os movimentos de democratização das produções, através das chamadas licenças criativas (creative commons), intensificam uma idéia que nos é muito cara: a possibilidade de uma intensa criação. Esses são movimentos que buscam fazer circular as informações, de se produzir e re-produzir permanentemente, remixando tudo, re-criando em cima do já criado. Acredito, a partir desses elementos, podemos também pensar também nos processos denominados de inclusão digital, afastando-se, assim, da perspectiva limitada do chamado treinamento para o mercado de trabalho. Temos defendido uma outra perspectiva de inclusão, que supere a dramática dicotomia: para o filho do rico, todas as condições, em um quarto conectado, com computadores de alto processamento, conectados em banda larga, suporte 0800 e, o mais importante, a liberdade quase total para se fazer o que desejar; para o filho do pobre, acesso através dos telecentros ou infocentros, com aulas de informática para o ensinamento de planilhas, processadores de texto ou coisas do tipo, geralmente de forma muito intediante e com softwares proprietários. Gastamos muito dinheiro com isso e pouco se modifica nessa realidade, uma vez que essas políticas de inclusão terminam sendo impregnadas por uma exagerada pedagogização dos processos, fazendo com que as distâncias entre aqueles que tem acesso e os que não tem, aumentem cada vez mais, reforçando a estratificação já existente em nossa sociedade.
Outro aspecto associado à educação que merece ser destacado é a alfabetização. Penso que não devemos pensá-la de forma isolada e muito menos apenas na idéia da alfabetização digital, se é que conseguimos entender o que isso significa. Creio ser imperativo, aqui também, pensar em alfabetizações, com a perspectiva plural de novo presente, fortalecendo-se, com isso, todo o sistema educacional, formal e não-formal. O que propugnamos é que professores e alunos deixem de ser meros atores do processo educacional e passem a ser considerados - cada um individualmente e enquanto grupos - autores do processo. Para tal, o que estamos pensando em nosso grupo de pesquisa [www.gec.faced.ufba.br] é que precisamos superar a idéia de montagem de portais de serviços que distribuem informação, produzidas por especialistas e de forma centralizada, para consumidores localizados nas escolas. Pensamos que se torna necessário constituir comunidades virtuais de aprendizagem, articulando toda a rede, com escolas, professores, alunos e comunidade atuando de forma intensa e permanente visando a incorporação de todas as manifestações de cada uma das regiões e, promovendo o diálogo dessas manifestações com as oriundas de outras regiões, da alta cultura e da ciência, mas sempre em processos horizontalizados. Estamos construindo essas reflexões, sempre inspirados no nosso querido professor Felippe Serpa [http://www.faced.ufba.br/rascunho_digital/] , que propunha-nos pensar em pedagogias da diferença em oposição às tradicionais pedagogias da assimilação. Pedagogias que tenham o diferente como fundante, não nos colocando como referência a identidade, mas ao próprio diferente. Busca-se, com isso, o enaltecimento da diferença, sendo ela produtora de alteridades, como nos propôs em conversa pessoal o professor Wladimir Garcia da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Santa Catarina. As expressões que passam a fazer parte do vocabulário dos educadores, assim, são fluxo, rede e movimento, em lugar das já conhecidas linearidade, currículo fechado, currículo distribuído, treinamento, entre tantas outras. A montagem de um sistema fortalecido como esse, significa fortalecer o sistema como um todo, através das redes colaborativas, centradas na generosidade, na cooperação e no trabalho colaborativo.
Acredito que investir fortemente na formação de professores, nas condições de trabalho e salário, são condições básicas para a mudança que se espera do sistema. O professor tem que ser valorizado enquanto elemento que possa articular essas diversas instâncias na produção do conhecimento e as diferenças trazidas pelos seus alunos. Assim, e somente assim, com o professor retomando o seu papel de liderança científica, cultural, ética, a escola pode assumir a condição de se constituir num efetivo espaço coletivo de culturas e conhecimentos, oferecendo aos filhos dos pobres aquilo que os filhos dos ricos têm em casa, como já foi dito pelo educador baiano Anísio Teixeira, na década de 50 do século passado. Este é, seguramente, um dos desafios fenomenais que temos pela frente, e aqui, todo cuidado é pouco pois os resultados não são imediatos. Mas esses, podem ser importantes passos para a construção de um planeta solidário e sustentável.

24 de mai. de 2007

Práticas de leitura e democratização do conhecimento

Por Lídia Eugenia Cavalcante

Creio que uma das múltiplas possibilidades de se discutir diversidade é a partir de nossas próprias experiências pessoais e coletivas. Nesse sentido, sinto-me privilegiada. Olho a diversidade e vivo a diversidade intensamente como mulher, mãe, educadora, bibliotecária, pesquisadora, funcionária pública, brasileira, cidadã... ufa! Dá até uma certa “canseira”... A contemporaneidade nos trouxe essa faceta de assumirmos vários papéis, ao mesmo tempo, na sociedade. Isto certamente tem ocorrido com uma boa parte das mulheres brasileiras, que assumem muitos papéis cotidianamente, por obrigação ou prazer. Como podemos viver tão intensamente a diversidade feminina...

Por outro lado, o excesso de categorias de análise, metodologicamente, nos leva a uma mistura de variáveis que, muitas vezes, nos faz perder o foco e dificulta a construção de um efetivo posicionamento. Podemos correr o risco de nos “enroscar como gatos em novelos de lã” e fica difícil encontrar o “fio da meada”. Assim, para esse momento, vou me concentrar em participar do debate no âmbito das minhas experiências profissionais. Isto é, no papel de educadora, bibliotecária e pesquisadora.

Numa tentativa de não perder o “fio da meada” da relação entre diversidade e cultura digital, faremos uma reflexão do ponto de vista das práticas de leitura e democratização do conhecimento no universo digital.

O surgimento dos suportes virtuais com seus hipertextos, considerados como “novos” suportes do registro do conhecimento, também apresentam novidades com relação às práticas de leitura, sejam elas físicas ou sociais. Mudam a forma de acesso, conteúdo, veracidade, paginação, visualização, estímulo, processo de interação e transmissão, mediação, pertinência, descobertas e concepção. Nasce daí uma certa ruptura com as formas tradicionais do livro impresso. O leitor segue percursos interativos de leitura, acessa meta-texto, imagens e sons por meio de links, que o convida para muitas viagens interativas. É também continuamente convidado a se tornar “autor” a cada vez que ele relaciona elementos de informação. Não se trata de uma ruptura definitiva entre impresso e digital, já que o texto impresso também permite leituras não lineares, intertextualidade e interatividade, que constroem o vasto conjunto de informações adquiridas pelo leitor. Entre impresso e digital ocorre, na realidade, um forte processo de multiplicação de possibilidades de leituras.

As áreas do conhecimento, de um modo geral, têm transitado por uma forte evolução cientifica, tecnológica e multicultural, que implica algo além do saber acadêmico ou livresco, para o uso do “aprendizado ao longo da vida”, criando uma relação entre informação, educação, conhecimento cientifico e diversidade.

Foi justamente no universo contemporâneo que o mundo se abriu para a emergência de um pensamento complexo, de saberes tão bem apresentados por Edgar Morin, ao descrever a diversidade e a complexidade humanas. No curso das últimas décadas do século passado, observamos radical transformação na socialização histórica e política com relação ao conhecimento e à informação, sobretudo no que se relaciona com o advento de uma sociedade pautada nas inovações culturais, científicas e tecnológicas. O campo informacional, por exemplo, se manifesta para abrigar discussões opostas no centro destas reflexões: como pensar a informação em um contexto de diversidade e complexidade, especialmente se considerarmos a ambiência de espaços geográficos e socialmente interativos?

A sociedade da informação não requer dos indivíduos apenas o acesso à tecnologia para crescer no mundo do trabalho. Com ela aumenta consideravelmente a diversidade cultural e os processos de interação/integração entre os sujeitos, gerando um desafio que é a promoção de vias de desenvolvimento a partir da adoção de formas de pensamento, que se voltam para processos de partilha e troca.

O desenvolvimento econômico e em ciência e tecnologia deve vir acompanhado do contexto cultural e social. Neste sentido, a educação possui papel primordial para unir competências individuais e coletivas por meio de uma linguagem interdisciplinar que, em uma pesquisa, considerará o objeto estudado sob diferentes aspectos, especialidades e teorias. Um exemplo claro para esta afirmação pode ser observado no próprio campo das dimensões epistemológicas que regem os estudos em torno da área tecnológica. Esse fenômeno tem sido observado por especialistas das ciências da informação, historiadores, antropólogos, sociólogos, filósofos e físicos, apenas para citar alguns, com abordagens enriquecidas pelas competências de cada área, levando à riqueza do conhecimento. É como se observássemos um objeto sob diferentes perspectivas e ângulos distintos.

O "cu" da mídia mostra que ela não sabe para quem fala

Por Raphael Prado

Se você chegou até esse espaço de discussão da Diversidade Digital, creio que seja uma pessoa ligada na internet e que, portanto, me poupa da explicação sobre a música e o vídeo "Vai tomar no cu" ( http://www.youtube.com/watch?v=dHpSCHxb780). Um fenômeno repassado no "boca-a-boca" da internet e clicado na casa dos milhares, no YouTube.
Qualidade do humor à parte, o fato é que a mídia não pôde ignorar o vídeo quando a abrangência, na web, fez lembrar a luta do Digg.com contra a publicação do código que quebra a criptografia do HD-DVD. Da Mônica Bergamo e Fernando Rodrigues (sim, o colunista político), na Folha de S.Paulo, a Zeca Camargo, em seu blog no G1, passando pelos portais Terra e UOL, todos deram a notícia. Alguns conversaram com a atriz.
Mas o curioso está em como grafaram a palavra repetida diversas vezes na música. Para o grupo Folha/UOL, trata-se de "c...", padrão também seguido pelo Terra. Diziam, portanto, que o vídeo era "Vai tomar no c...". Zeca Camargo, mais "antenado", desde os tempos de VJ da MTV, não teve medo. Ainda postou o vídeo e viu seus comentários quase triplicarem. Mas a chamada na capa do G1 (que durou muito tempo, aliás; o que sinaliza "boa audiência"), com a impressão de que o espaço era insuficiente para mais, foi "Vai tomar..."
Se o vídeo é mesmo um fenômeno midiático – da nova mídia, claro -, se está nas caixas de e-mail de todos que têm uma caixa de e-mail, se já foi visto pelas crianças de 7 anos que não lêem o jornal – e, portanto, não se preocupam se ele grafa "c..." ou "cu" -, qual a explicação para essa auto-censura? Para quê noticiar algo que, mesmo sem o link, pode ser encontrado em 0,14 segundos no Google (dei-me ao trabalho de fazer o teste), se o pudor da mídia vanguardista não permite expressar o que ele, o vídeo, expressa?
Foi-se o tempo, felizmente, dos leitores de jornal que usavam cartolas, passeavam pelo Anhangabaú em São Paulo, seguravam nas mãos das damas – com luvas - para apoiá-las na descida do bonde e que não podiam mostrar um jornal que tinha impresso a palavra "cu". Felizmente. E não pelo charme da época, mas pela mudança dos tempos. Foi-se.

23 de mai. de 2007

A mensagem, a garrafa e seus donos

Por Tiago Soares

Um dia, à beira do oceano, alguém jogou ao mar uma mensagem na garrafa.

Esse alguém não estava só.

Adolescentes românticas, maníacos por filmes de terror, economistas amadores e de ofício, escribas profissionais, gente de todos os feitios e tamanhos -- eram muitos os que andavam jogando garrafas ao mar naqueles tempos.

Algumas garrafas nunca chegavam a ter seu conteúdo lido por quem quer que fosse. Outras caíam em mãos interessadas, inspiravam as massas, pautavam telejornais. Alguns, ofendidos ou críticos ao conteúdo de certas garrafas, lançavam ao mar também as suas, na esperança de que suas idéias fossem lidas por gente com os mesmos pontos de vista.

Num certo momento, eram tantas, tantas as garrafas que os destinatários antes acidentais podiam escolher as que mais lhes interessassem. Chegavam mesmo a construir comunidades ao redor de idéias desengarrafadas.

Até que os fabricantes de garrafas tiveram uma sacada. E começaram a fazer exigências para os que quisessem enfiar idéias dentro de seus recipientes e lançá-los ao mar. Alguns pediam certos direitos sobre o que suas garrafas carregassem no oceano. Outros demandavam que as mensagens fossem escritas apenas num papel timbrado disponibilizado por anunciantes.

Houve até quem passasse a cobrar taxas para o usufruto marítimo de vasilhames.

Depois disso, a coisa toda ficou um pouco confusa.

Bom, a analogia pode não ser exatamente perfeita, mas ferramentas de publicação como blogs, wikis, listas de discussão, são, cada qual à sua maneira, como as garrafas para as idéias dos seres do ciberespaço. Vasilhames feitos de camadas de códigos, servidores, banda. Lançadas ao mar da WWW, navegando correntes de hiperlinks.

É fato que essas novas interfaces tecnológicas trouxeram poder de expressão inédito ao público. Nunca foram tantos os grupos e idéias a circularem no debate global. Nunca a máquina de consenso da grande mídia corporativa esteve tão fragilizada frente ao contraditório, tão exposta à desmistificação de seus mecanismos.

Softwares de publicação online cada vez mais poderosos são disponibilizados a custo baixo ou zero. Grupos que partilham dos mesmos interesses organizam-se em comunidades no ciberespaço, potencializando a difusão e o alcance de novos conteúdos alternativos.

Não é exagero dizer que tendemos para um cenário no qual, à vista do usuário, nivelam-se a credibilidade e alcance do(s) blog(s) independente(s) e do grande portal de mídia (afinal, o trabalho para se acessar tanto um site quanto o outro é, via de regra, o mesmo).

Esse novo universo, indubitavelmente promissor para a multiplicação de culturas e idéias, não é, porém, totalmente livre. Um exemplo: enquanto a Wikipédia disponibiliza seu conteúdo colaborativo por uma licença livre (Gnu Free Documentation Licence - GFDL), o popular portal de relacionamentos MySpace.com já enfrentou manifestações de usuários que afirmam ter tido seu trabalho censurado pelos administradores do site.

Vale lembrar que o MySpace.com foi comprado em julho de 2005 pela News Corp, a gigante de mídia que comanda a Fox. E que a censura que os responsáveis pelo site teriam promovido sobre o conteúdo de usuários seria causada por motivos comerciais – todas mensagens deletadas citariam informações de sítios rivais.

Ao mesmo tempo em que disponibilizam ferramentas para uma expansão imediata de culturas e idéias no ciberespaço, conglomerados como a News Corp, donas dos servidores e dos softwares através do quais se expressam milhões de pessoas, pairam com a espada de Dâmocles sobre a cabeça de seus usuários.

O futuro dessa eminência de grandes grupos econômicos sobre estruturas de comunicação baseadas na web é ainda incerto. Mas não seria desvario pensar em hipóteses como censura, apropriação de trabalho intelectual, ou exigência de contrapartida financeira para a continuidade de serviços hoje gratuitos, entre outras coisas.

Até onde pode ir o poder das corporações de mídia e internet sobre o conteúdo gerado por seus usuários? Como resistir?

Questão delicada, essa.

Mas algo ou alguém há de zelar pelo direito de todos jogarem suas garrafas ao mar. E a resposta pode bem estar nas adoção e no uso de tecnologias livres e abertas.

22 de mai. de 2007

A linguagem vem do artista

Por Sylvio Rocha


Como a câmera de película, como um pincel, como o violino, o digital é uma ferramenta. Uma ferramenta nova e cheia de possibilidades. O artista escolhe a ferramenta que melhor convier para se expressar. A linguagem não vem da ferramenta, ela vem do artista.
Quando George Eastman lançou a kodak, a primeira câmera fotográfica portátil em 1888, fez todo americano virar um fotógrafo em potencial. “Você aperta o botão e nós fazemos o resto” dizia o slogan. Com isso, levou a fotografia para dentro dos lares e da vida das pessoas. Ele popularizou a fotografia tornando-a acessível. O trabalho laborioso e científico do fazer fotográfico ganhara uma outra dimensão, foi a massificação de uma ferramenta.
As câmeras digitais fotográficas de hoje fazem tudo. Gravam som, imagem, fotografam e até falam. Elas acompanham a vida em toda a sua extensão.
Nas idas ao dentista e até na intimidade com a namorada ela está lá, presente e disparando.
Para os Gregos, a visão era considerada o maior dos sentidos. Hoje em dia, a linguagem visual é muito forte: no mundo de fast food, de altos níveis de poluição e da velocidade exacerbada, seguramente o sentido que mais utilizamos é o da visão, o nosso fraco órgão sensitivo. Vivemos na era da imagem.
Com o digital, o fazer ficou mais fácil e seguramente, com o passar do tempo ficará cada vez mais. A cultura digital aproximou-nos de ferramentas de criação fantásticas, que ampliam nossa capacidade de produção, facilitam o trabalho e possibilitam uma pluralidade de obras.
As câmeras estão aí sendo colocadas à prova para todos que quiserem se aventurar no mundo do vídeo. Existem trabalhos excelentes sendo realizados nesse suporte e festivais que estimulam as criações. A possibilidade de uma pessoa anônima, num quarto pequeno com uma câmera e um computador realizar um filme é incrível. A escrita do áudio-visual será a linguagem das novas gerações.
O mundo do digital acabou com o problema da distribuição e da exibição das artes reprodutíveis. O artista anônimo consegue divulgar seu trabalho pelo mundo; sua obra pode ser visitada, comentada e se ele permitir, até modificada por outras pessoas. O diálogo voltou.
Claro que Eastman não conseguiu fazer com que todos fôssemos transformados em artistas. Todos já passamos tardes chatíssimas na casa de um amigo ou de uma tia, ao lado de um projetor de slides vendo fotos feias e sem interesse algum, de um lugar que seria melhor conhecer pessoalmente do que ver projetado numa parede branca. Devemos essa chatice a ele. Mas seguramente a muitos ele encorajou e estimulou indiretamente. A socialização da ferramenta possibilitou a descoberta de suas capacidades, de seus limites e de seus artistas.
A pluralização das obras é válida, resta-nos saber o quê degustar desse vasto universo digital. Como tudo na vida.

21 de mai. de 2007

Diversidade: tolerância, respeito e valorização

Por Edgard Piccino

Quando falamos em diversidade muito se fala sobre tolerância. Seria este o melhor foco para a discussão?
É inegável que a tolerância já é um passo em relação à intolerância, pois ao menos concede o direito de existência ao outro. O respeito à diversidade já parece ser um outro passo adiante, pois significa não somente tolerar, mas respeitar, garantir o direito à alteridade. Em tempos de globalização o respeito à diversidade é uma forma de afirmar a identidade de grupos frente a massificação imposta pelo mercado, frente a padronização dos comportamentos através do consumo.
Mas as grandes empresas já utilizam este motivo nas suas campanhas de marketing, vide a atual campanha da Coca-Cola, que por linhas tortas sugere: "seja diferente, mas consuma Coca-Cola". Sugere que a diversidade é uma realidade da nossa sociedade, e que o consumo do seu produto unifica a humanidade, aplainando as diferenças. Nesta linha o consumo unificaria a humanidade em um ambiente de respeito à diversidade.
Mas a valorização da diversidade não seria ainda um passo mais adiante? Valorizar a diversidade é reconhecer a alteridade de maneira mais plena, mais ampla, pois além de garantir o direito à existência do outro, seria ver a si mesmo no outro, com todas as diferenças e contradições. Seria
praticar a contra-hegemonia cotidianamente, valorizar as vozes dissonantes, que contestam o consumo, o mercado global e o pensamento único.
Valorizar a diversidade é afirmar a identidade destoante, afirmar a autonomia, e ao mesmo tempo propor alternativas à massificação, à pasteurização e à antissepsia cultural. Mas esta prática não é simples, não é trivial, muito menos automática. Para pensar sobre esta não-trivialidade, podemos evocar a seguinte situação: os grupos que optam por negar as outras formas de cultura também não deveriam ser valorizados? Não seria esta uma forma, mesmo que búdica, de valorizar a diversidade? Não deveríamos então tolerar, respeitar e valorizar o
intolerante?

*Fetiche da diversidade: o culto ao exótico.*

Em um futuro não muito distante, em um país imaginário, poderíamos imaginar a seguinte cena: um helicóptero sobrevoando tribos e comunidades isoladas, com um guia turístico informando os visitantes sobre as peculiaridades culturais de cada tribo, sobre os costumes, etnias e línguas, e dando avisos do tipo "por favor, não joguem objetos, alimentos ou roupas, para não influenciarmos perniciosamente seus hábitos e costumes..."
A valorização da diversidade não pode se transformar em fetiche, em culto ao exotismo, em "isolamento cultural" para evitar a contaminação. A diversidade só tem sentido na troca, no compartilhamento cultural, e não na "preservação" da diferença como peça de museu, ou pior, como vitrine para consumo turístico e cultural.

Incorporar a diversidade é contaminar e ser contaminado pelas outras culturas, outras cosmogonias, outras ideologias, outras religiões, outros costumes. O hábito da mestiçagem, da troca, do contrabando cultural está na raiz da diversidade. Só há sentido diversidade trocadora, mestiça, impura, contaminada e contaminante. Ou será que existe sentido na diversidade "pura", intocada, sem mistura, pois esta seria a garantia da "matriz cultural", da "cultura de raiz"? Isso não seria o fetiche da diversidade, o culto do exótico?

O capitalismo tem a imensa habilidade de transformar tudo em consumo, inclusive o distante, o diferente, o exótico, o intocado. Queremos promover qual diversidade? A diversidade para o consumo do exótico, ou a diversidade para o compartilhamento, para a troca?

Do lixão ao Ciberespaço - Queremos mais responsabilidades para nós?

Por Leo Germani

Existe um grande mal entendido nos recorrentes discursos sobre descentralização atualmente. Existe também uma idéia errada da noção de liberdade atribuída aos movimentos de “cultura livre” e “software livre”. As novas tecnologias, a “libertação” do conhecimento e a descentralização dos processos não trazem praticidade, agilidade, conforto, segurança, felicidade, harmonia e bem-estar para nosso dia a dia. Ao contrário, o que fazem é apenas nos dar mais responsabilidades e, por que não dizer, trabalho.
Tomemos o exemplo do nosso lixo. Uma das coisas que nossa sociedade mais produz, acredito que a frente de armamentos e seriados de TV, é lixo. Todos nós, moradores de cidades, jogamos restos de comida, embalagens e papel higiênico diariamente em sacos plásticos que são recolhidos pelo serviço de coleta municipal. Todo esse lixo é centralizado em um grande
aterro e varrido para baixo de um imenso tapete radioativo.
De uns tempos para cá a reciclagem se tornou cada vez mais urgente. Entraram na moda os três eRRes (Reduzir, Reutilizar e Reciclar), e cada vez mais pessoas vão tomando consciência da necessidade dessa atitude. Em alguns lugares a prefeitura implantou sistemas de coleta de lixo
reciclável. A reciclagem se tornou também fonte de renda para coperativas que se formaram para trabalhar com coleta e reciclagem de lixo. Olha que beleza: “A reciclagem além de proteger o meio ambiente ainda gera empregos…” Muita gente que pensa assim provavelmente não
recicla seu próprio lixo. Por quê? Porque dá trabalho.
O movimento de descentralização na coleta e tratamento do lixo - também conhecido como reciclagem - requer um pré-trabalho descentralizado que a maioria das pessoas não faz: é preciso lavar aquele pote engordurado de margarina que acabou, aquele saquinho com restos de sangue de bife, a caixa de leite, etc… É preciso se informar sobre que tipos de materiais
são realmente recicláveis ou não e, mais do que isso, é preciso evitar o consumo de materiais não recicláveis: pedir pro cara da padaria não colocar o queijo naquele isoporzinho, levar a própria sacola para o supermercado e dar preferência de compra para produtos sem muitas embalagens ou com embalagens recicláveis.
Todas essas ações não trazem a ninguém mais praticidade e conforto, mas trazem mais responsabilidades. A responsabilidade pelo lixo que você gera é seu agora, não é mais da empresa, da prefeitura ou do Bush, que leva a culpa de tudo. Claro que tudo isso tem o intuito de construir uma sociedade melhor que pode garantir para seus filhos mais conforto e praticidade, mas, pelo menos por agora, isso só lhe traz mais dor de cabeça.

*No ciberespaço*

Vamos dar um pulo dos lixões ao ciberespaço. A natureza desse espaço “virtual” é ser descentralizado. Nele, qualquer pessoa pode publicar informações e a linha que separa “emissores” e “audiência” se torna cada vez mais borrada e confusa.
Com todo mundo produzindo e publicando, a internet se torna um espaço caótico cheio de tantas coisas que pode até ficar difícil de você achar o que quer. Isso dá calafrios e tira o sono dos mais tradicionais: como achar o que eu quero? Como posso confiar nas informações que eu acho? É
tanta coisa que mais atrapalha do que ajuda… Essa internet é cheia de lixo. Lixo, de novo. E isso é verdade, se levarmos em consideração que o que é lixo para uns, é ouro para outros, já que estamos falando agora de cultura e conhecimento, e não de papel higiênico.
A solução para a classificação e busca de conteúdo na internet mais interessante que surgiu foi a taxonomia emergente, ou folksonomy, comumente conhecida das pessoas pelas “tags”. Nesse modelo de classificação descentralizada, todo mundo classifica todo e qualquer conteúdo que quiser. Um texto será conhecido (e encontrado) por ser relacionado a “manutenção de motocicletas” a medida em que muitas pessoas o classificarem dessa maneira.
De novo voltamos a responsabilidade descentralizada. O ideal desse modelo de classificação é chegarmos a ter as informações todas classificadas de uma maneira muito mais inteligente, dinâmica e intuitiva, mas, para isso, é preciso que todos se responsabilizem em classificar as coisas que vêem por aí. E isso dá trabalho.
Tomemos como exemplo o site Del.icio.us, que agrega os sites “favoritos” de muita gente. Usando a ferramenta desse site, qualquer pessoa pode sair classificando as páginas que encontra por aí e que acha interessante. Assim, quando for fazer uma busca por “manutenção de motocicletas”, ao invés de buscar no google, que trará resultados baseados em contas matemáticas de um robô, pesquisará nos “Favoritos” de muita gente e encontrará o que pessoas viram, leram, gostaram e classificaram como tendo a ver com “manutenção de motocicletas”.
Mas isso dá trabalho, e algumas buscas nesse site acabam mostrando que quem o usa são apenas os aficcionados por tecnologia, e que iniciativas descentralizadas desse tipo estão muito longe de ter proporções significativas. O mesmo acontece com a wikipedia, com poucos contribuidores em comparação ao número de leitores. Já o YouTube, onde os usuários não têm responsabilidade nenhuma, tem grande participação.
E por onde seguir? Qual internet será que queremos? Um espaço onde a interação se resuma a fazer compras sem sair de casa e ter uma rádio personalizada com o seu nome, onde consumo serviços (geralmente gratuitos) ou um espaço realmente construído colaborativamente? Queremos dividir tarefas, construir e manter a pracinha da nossa rua ou preferimos fazer uma vaquinha e contratar uma empresa que cuide disso, e ponha grama sintética, que dá menos manutenção? Assim não preciso me dar ao trabalho de ter que me relacinoar com um monte de gente diferente de mim (colaborar), e, se bobear, ainda sai mais barato.
Se liguem, não queremos ir pelo caminho mais fácil. E nem é o caminho natural. É preciso romper. É preciso trabalhar.
(Publicado originalmente no blog Pirex http://www.pirex.com.br)

19 de mai. de 2007

Essência diversa

Por André Lemos

Recombinar, copiar, apropriar, mesclar elementos os mais diversos não é nenhuma novidade no campo da cultura. Toda cultura é, antes de tudo, híbrida; formação de hábitos, costumes e processos sócio-técnico-semióticos que se dão sempre a partir de acolhimento de diferenças e no trato com outras culturas. A re-combinação de diversos
elementos, sejam eles produtivos, religiosos ou artísticos é sempre um traço constitutivo de toda formação cultural. Por outro lado, toda tentativa de fechamento sobre si acarreta empobrecimento, homogeneidade e morte. A cultura necessita, para se manter vibrante, forte e dinâmica, aceitar e ser, de alguma forma, permeável a outras formas culturais. Esse processo está em marcha desde as culturas mais “primitivas”, até a cultura contemporânea, a cibercultura. Assim, não é a recombinação em si a grande novidade, mas a forma, a velocidade e o alcance global desse movimento. As novas tecnologias de comunicação e informação serão vetores de agregação social, de vínculo comunicacional e de recombinações de informações as mais diversas sobre formatos variados, podendo ser textos, imagens fixa e animada e sons. A cultura “pós-massiva” das redes, em expansão com sites, blogs, wikis, softwares livres, redes de relacionamento, troca de fotos, vídeos e música em diversos sistemas mostra muito bem esse movimento de recombinação cultural em um território eletrônico em crescimento planetário. A cibercultura é importante porque ela é, em sua própria essência, diversa, multimodal, multivocal. Ela permite a liberação da emissão, a conexão de pessoas reconfigurando a indústria cultural massiva.

18 de mai. de 2007

Cultura "remix"

Por André Lemos

A cibercultura instaura uma estrutura midiática ímpar (estrutura com funções “pós-massivas”) na história da humanidade onde, pela primeira vez, qualquer indivíduo pode produzir e publicar informação em tempo real, sob diversos formatos e modulações, adicionar e colaborar em rede com outros, reconfigurando a indústria cultural (“massiva”). Os exemplos são numerosos, planetários e em crescimento geométrico: blogs, podcasts, sistemas peer to peer, software livres, wikis, softwares sociais, a arte eletrônica... Trata-se de uma crescente troca de informação e processos de compartilhamento de diversos elementos da cultura a partir das possibilidades abertas pelas tecnologias eletrônico-digitais e pelas redes telemáticas contemporâneas. Por isso ela é uma cultura "remix", do compartilhamento, das possibilidade de cooperação e de combinação de informações (bits) sobre diversos formatos. O atual desenvolvimento do que se está chamando de Web 2.0 nada mais é do que o surgimento de novas ferramentas digitais que permitem a participação, o compartilhamento, a troca e, assim, o crescimento da cultura, da ciência, das relações sociais. Sempre que podemos emitir livremente e em contato com outros, essa ação é forte em conseqüências. É o que estamos vivendo hoje com a cibercultura. Uma remixagem radical da cultura do espetáculo e da massificação.
Retomei trechos aqui do meu artigo Cibercultura como Território Recombinante. Para mais: http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/andrelemos
Link Artigos, "Cibercultura como Território Recombinante"

Open business

Por Oona Castro

A cultura digital transformou radicalmente o mundo dos negócios: não se trata apenas de ter levado ao plano virtual as relações de troca ou contratos antes estabelecidos. As mudanças recentes não só conferiram novo ritmo e características a transações e negociações, como também têm possibilitado a reinvenção da maneira de fazer business, de criar, de produzir, de distribuir etc.
Se vinte anos atrás era inconcebível uma pessoa, de sua própria casa, escrever de uma vez só para milhares de leitores, isso hoje é absolutamente comum e recorrente.
As novas tecnologias de informação e comunicação abriram caminhos para mudanças nas diversas fases de produção e de acesso a cultura e informação.
Por exemplo: na área da música, o acesso às novas tecnologias tem permitido a gravação seus CDs em estúdios caseiros ou de pequeno porte, a distribuição (gratuita ou comercial) de obras pela internet, a remixagem e outras formas de colaboração; e o amplo acesso às obras, sem limitação especial ou temporal.
Na cultura, no jornalismo, no ramo do conhecimento científico, entre outros, uma das principais transformações que acompanham o desenvolvimento da cultura digital é a questão da propriedade intelectual. Hoje, é possível ter acesso às obras a qualquer distância. O custo da cópia não é mais uma questão chave. Ele é zero. Se uma reportagem, uma música, um filme ou uma pesquisa está disponível na internet, qualquer um com acesso à conexão e computador pode ter acesso ao que foi produzido. O custo de armazenamento é quase zero. E o da distribuição, nenhum. Isso cria um problema: se é possível ter acesso às obras sem pagar, como remunerar os autores, músicos, cineastas ou cientistas? E qual é o incentivo que essas pessoas terão para continuar criando?
Bom, em primeiro lugar, o que vemos é que o estímulo para a criação não é exclusivamente pecuniário. Há muita gente que cria sem intenção de lucro – ou, pelo menos, não tem, na rentabilidade, a sua principal meta. Mas partamos do princípio que todo inventor, criador etc, quer poder viver daquilo que gosta de fazer, ou faz, simplesmente.
Além dos casos em que a criação é remunerada durante o processo, seja por concursos, editais, financiamentos os mais diversos, há muitos novos modelos sendo criados, cuja sustentação está justamente na liberação de conteúdo.
Na periferia de Belém do Pará, a cena do tecnobrega mostra como a livre circulação das obras favorece os profissionais da música. A pesquisa sobre Open Business Models mostra que 88% dos músicos do tecnobrega nunca tiveram contratos com gravadoras. E 59% acham positiva a venda de cds por vendedores de ruas, pois com isso conseguem divulgar suas músicas – fazendo crescer o seu público, o número de convites para shows, o prestígio etc. Essa venda de cds não exclui a remuneração advinda das cópias prensadas pelas bandas. Em média, as bandas vendem 77 cds por show, com material gráfico e promocional – o que não existe nas unidades vendidas pelo camelôs. O preço médio é de R$ 7,50. O faturamento das bandas com a venda de Cds de tecnobrega na periferia de Belém é de aproximadamente R$ 1.045.000 mensais.
Enquanto isso, boa parte da indústria tradicional reduz o catálogo de artistas e o lançamento de cds, continua investindo muito em marketing junto às rádios, defende o combate à pirataria e tenta sobreviver com modelos que não fazem mais sentido na cultura digital.
É necessário olhar para as inovações que estão acontecendo nas ruas, especialmente nas periferias globais, onde muitas vezes a tecnologia chegou antes da aplicação dos modelos antigos. Muitos artistas de hoje não são apenas gênios da criação. São sujeitos que compreendem os processos e as dinâmicas de criação, produção, distribuição e gestão de seu trabalho. Há diversos exemplos pelo país afora. O Espaço Cubo (http://www.espacocubo.blogger.com.br/), do Mato Grosso, é um coletivo de criação e gestão cultural – em que cada artista contribui com a parte do processo que mais lhe é familiar.
No lugar da indústria cultural característica dos anos 80 e 90 está surgindo uma "indústria criativa", que inova não apenas a linguagem, a maneira de colaborar, interagir, inventar, mas também os modelos de negócios.
O conhecimento e as manifestações simbólicas e culturais são bens intangíveis. Se fulano transfere a beltrano uma idéia, uma obra artística, literária ou outros bens intangíveis, fulano não fica sem o conteúdo transferido. As obras em formato digital, portanto, não sofrem escassez. Mais do que isso, na cultura digital, a geração, ainda que artificial, de escassez não necessariamente confere mais valor à obra. Muitas vezes o que ocorre é o contrário. A liberação de conteúdo na internet contribui para a disseminação das obras, o reconhecimento do autor, músico, artista, intelectual. Presas, muitas obras caem no desconhecimento do público. Qual é o sentido de produzir conhecimento, obras artísticas e expressar idéias para que não sejam conhecidas?
No livro Cauda Longa, o autor Chris Anderson mostra que, na cultura digital, em que armazenamento e estoque têm custo quase nulo, há espaço para uma diversidade muito maior de artistas. Isso porque há uma infinidade de músicos (para usar o exemplo do livro) que podem atingir mercados de nicho, mas que, somados, geram vendas significativas. Portanto, não faz mais sentido, num mundo em que as vendas online são um caminho real e concreto, trabalhar apenas com a venda de obras de artistas muito famosos, que vendem em grande quantidade. Isso permite desconcentração do mercado e o aumento da diversidade cultural.
Neste mercado, há espaço para mais criação, produção, comercialização, gostos, predileções, acesso a diferentes culturas, informações e conhecimento. Se tudo o que somos e criamos foi e é possível porque tivemos acesso ao que antes foi produzido, por que fechar agora, quando temos a possibilidade de compartilhar, colaborar, participar e criar mais?

16 de mai. de 2007

Convite para discutir financiamento

Por Paulo Lima

A discussão sobre financiamento do que a gente vem chamando de indústrias criativas e conteúdos na chamada sociedade da informação e do conhecimento, segue na região. Os interessados no tema podiam jogar seus pitacos numa pesquisa em linha que tá em http://www.elac2007.info/?da=4962. O Elac 2007 é o plano implementação de estratégias para a sociedade da informação e do conhecimento na América Latina e Caribe. É facilitado pela CEPAL. Para quem não acompanha a CEPAL hoje é um espaço em disputa. O Presidente é um ex-ministro da economia do Menen, José Luis Machinea e hoje em dia está muito distante do tempo do Celso Furtado, mesmo do tempo do Cardoso... De toda forma é melhor ocupar o espaço do que deixar rolar. Podem participar todas aquelas pessoas envolvidas com as Indústrias de Conteúdos de nossa região, sejam do setor público, academia ou sociedade civil. Dentro destas se incluem as seguintes indústrias: editorial, cinema,televisão, criação musical, produção musical independente, discográfica, conteúdos para celulares, conteúdos para Web, etc.

15 de mai. de 2007

Acesso ao conhecimento

Por Sebastião Squirra

Os recursos de conexão e interatividade presentes no que chamam de "cultura digital" estão permitindo – como nunca na história – o acesso, o manuseio, a estocagem e o desfrute de todas as formas de manifestação do conhecimento conquistado pela sociedade. Aí incluídos, aqueles científicos e artísticos. Acumulado durante o longo período de organização da história humana e com a amigabilidade dos instrumentos tecnológicos atuais, todo o conhecimento está disponível e sendo fortemente dinamizado pelos recursos da comunicação digital moderna. De fato, antes o conhecimento estava nos livros estocados nas bibliotecas, acessíveis a partir do deslocamento pessoal até os arquivos codificados existentes em inamistosos e específicos prédios. Hoje, o acesso à obra é possível com o uso de um computador e uma conexão, a partir de qualquer lugar. A arte existia e estava organizada nos museus, sendo que, para conhecê-la, precisava visitar pessoalmente ou comprar uma obra onde tal peça estive impressa. Hoje, isto tudo está facilitado e é de acesso comum. O conhecimento se organiza em múltiplas camadas, sendo estas armazenadas em processos distintos e com contornos que foram claramente delimitados com o passar dos anos. Todavia, entendo que a "cultura" digital é, ela mesma, fortemente delineada pela "ciência" tecnológica, como apresentado anteriormente. Assim, parece mais convincente aceitar que ao se aproximarem a tecnologia e o mundo digital (de fato, este não vive sem aquela), provocou-se uma extraordinária multiplicação do acesso ao conhecimento científico e artístico, favorecendo uma profunda melhoria na vida geral. Quer dizer, acesso ao maior banco de dados possível de ser consultado, que é a própria história do ser humano, seu passado, presente, futuro e a todas os inúmeros formatos da sua produção. Sejam estes nos territórios eminentemente científicos, artísticos ou existenciais. Finalmente, concluo lembrando que nos últimos séculos, a tecnologia facilitou a vida (vem mesmo "permitindo" a vida), aproximando o homem da sua história, da espiritualidade e, sobretudo, da sua criatividade. Mas, poderá também, se não for bem dosada, afastá-lo disto tudo, de si mesmo.