9 de jun. de 2007

Cooperação, aliança e unidade

Por Rafael Evangelista

Não acredito na diversidade cultural como um valor em si. Expandida ao máximo, ela se torna uma nova versão do individualismo. O ambiente virtual é ótimo para a superação das distâncias, mas deve servir também para criar laços e não só diferenças. E é mais por esse motivo que as pessoas interagem no virtual, para falarem de mais suas semelhanças do que de suas diferenças.

Ao mesmo tempo, a tecnologia abre espaço para a produção e divulgação do que antes era marginal. Isso tem menos a ver com comunidade virtual e mais a ver com máquinas, software e cultura livre. É a unidade, a aliança (muitas vezes velada) entre aqueles que querem produzir com autonomia, que dá origem a essa estrutura de código e máquinas livres. Esta estrutura, por sua vez, á a condição material para que existam produções culturais diversas, independentes. Sem cultura livre, que possa ser remixada, retrabalhada e resignificada, o processo de produção
cultural autânoma se alonga até ficar impossível, inviável.

Então, acredito importante ter isso em mente. Sem cooperação, aliança e unidade é impossível ser autônomo, independente e diverso.

8 de jun. de 2007

Felipe Machado publicou no OrigiNal dO $aMpLe

Por Sérgio Amadeu

Felipe Machado é um ativista-criativo do Estúdio Livre. Já estivemos juntos em vários eventos. Ele publicou um texto no seu blog(http://originaldosample.wordpress.com/) que vale a pena ser lido. Ajuda muito no debate da diversidade cultural. O texto chama-se "Existe cultura além do digital?" Foi editado por Maíra Brandão, Geraldo Magela e pelo próprioFelipe Machado.

6 de jun. de 2007

Nossa oficina tem pouco mais de uma semana

Até o dia 15/6 (sexta-feira), precisamos fechar o documento "Diversidade e Cultura Digital". O prazo é necessário para que ele seja traduzido e divulgado a tempo de entrar no Seminário Internacional sobre Diversidade Cultural, que acontece de 27 a 29 de junho , em Brasília.

OMC e diversidade digital

Por Pedro Paranaguá
Eu dırıa que maıs ımportante do que a Organiação Mundial do Comércio (OMC) são as ações bılateraıs e as ações unılateraıs. No âmbıto da OMC, mesmo que as pressões sejam grandes, há dezenas de países negocıando e, portanto, fıca menos complıcado de ter uma coalısão de paıses contra a cultura hegemônıca e massıfıcadora dos norte-amerıcanos. Mas o problema prıncıpal ocorre nas negocıações bılateraıs, dos acordos bılateraıs de lıvre comércıo -- que, na verdade, de lıvre nada possuem, ou pouco possuem. Em troca da abertura de mercados e/ou da redução tarıfárıa para que, por exemplo, se exporte bananas, os países em desenvolvımento -- e até mesmo alguns devenvolvıdos -- acabam por aceıtar uma legıslação de proprıedade ıntelectual muıto maıs rígıda que a prevısta pela OMC, e ısso vaı totalmente contra os ınteresses desses países, aında que a curto prazo seja aparentemente vantajoso.
As pressões unılateraıs são pıores aında: o Escrıtórıo Norte-Amerıcano de Comércıo (USTR, na sıgla em ınglês) emıte, todo ano, por volta do mês de abrıl, uma lısta com países que, segundo os EUA, nao protegem proprıedade ıntelectual como os EUA entendem que deverıam proteger. É a chamada lısta negra: a prıorıty watch lıst. De 2001 a 2006 o Brasıl fıcou nessa lısta negra, apesar dos grandes avanços contra o uso ılegal de proprıedade ıntelectual e da crıação do Conselho Nacıonal de Combate à Pıratarıa. O problema, aquı, é que qualquer ınteressado pode envıar ınformação ao USTR que, depoıs as utılıza para tomar as medıdas em nome do governo norte-amerıcano. No fınal das contas, a ındústrıa norte-amerıcana, tal como a ındústrıa cınematográfıca, a de músıca, a de software, a de medıcamentos etc. envıam ınformacoes ao USTR que, com elas em mãos, toma a decısão sobre quaıs paıíses vão fıcar na lısta negra.
Mas para se ter uma ıdéıa, a ındústrıa de músıca faz cálculos totalmente errados em relação a vıolação de proprıedade ıntelectual, e é com base nesses cálculos no mínımo questıonáveıs que depoıs o USTR toma suas decısões. Por exemplo: eles dızem que X pessoas compraram CDs falsıfıcados (como se chegou nesse numero X é uma ıncognıta) e que cada CD orıgınal custa entre, dıgamos, R$ 30 e R$ 40. Depoıs eles multıplıcam o valor de cada CD pelo número suposto de pessoas que compraram CDs não orıgınaıs e vem com um valor astronômıco. Mas há um pequeno grande detalhe nısso tudo: as pessoas somente compraram taıs CDs não orıgınaıs justamente porque custam R$ 3 ou R$ 5, e sabem que nao são orıgınaıs. Se os CDs custassem R$ 30 ou R$ 40, jamaıs os terıam comprado. E o motıvo é sımples: elas não tem dınheıro para comprá-los!! Ou seja, elas jamaıs terıam comprado taıs CDs pelo preço orıgınal porque elas sımplesmente não tem tal dınheıro. Está totalmente fora do poder aquısıtıvo delas. Portanto, a ındústrıa nunca terıa ganhado tal dınheıro, porque mesmo que as pessoas não tıvessem comprado os CDs falsıfıcados, jamaıs terıam comprado os orıgınaıs: o preço sımplesmente está totalmente fora dos padrões de compra do Brasıleıro comum.
Mas é com base em taıs ınformações -- totalmente tendencıosas -- que o USTR crıa a lısta negra e ameaça punır os demaıs países. E com taıs ameacças (que resultarıam em perda de ısenção tarıfárıa ou perda de redução tarıfárıa para produtos exportados para os EUA), que os EUA conseguem pressıonar taıs países para que passem a adotar leıs que são muıto maıs rígıdas que as prevıstas pela OMC e que são muıto maıs ápara taıs países.

5 de jun. de 2007

Cultura digital e diversidade à luz do livro The Wealth of Networks

Por Juliano Spyer

O que vou falar a seguir é resultante de algumas leituras e reflexões, mas não é o resultado de uma pesquisa formal e foi escrito rapidamente, em função do desejo de contribuir com essa discussão mas tendo que dar conta de outras obrigações.

Quando a Internet apareceu, em meados dos anos 1970, como veículo de comunicação em rede, ela parece ter se moldado a partir de duas visões.

1) Uma procurava uma maneira de gerenciar o pensamento dentro de escritórios, de oferecer ferramentas para a execução mais eficiente de tarefas objetivas. Softwares como os da família Lotus seriam consequência desse "projeto de Internet".

2) Dentro dos círculos acadêmicos, especialmente nos Estados Unidos, a Internet representou um veículo de comunicação questionador de hierarquias e convenções por facilitar a circulação de informação e a criação de conhecimento. O termo "comunidade virtual", de reinghold, reflete essa visão classificada de "tecno-utópica", experimentada em projetos como o WELL.

Os ecos dessa tensão entre a ferramenta que escraviza, "tayloriza", e a que liberta, alforria a criatividade, continuam presentes hoje nos discursos de quem defende, por um lado, o monitoramento da Internet e, por outro, daqueles que se opuseram à abertura da rede para empreendimentos comerciais e dos defensores ideológicos do open source. De um lado, a plataforma cooperativa, que fortalece o poder instituído, que serve para a realização de tarefas definidas e com a proposta de tornar o trabalho mais eficiente. De outro, a ferramenta colaborativa, aberta, onde a participação é mais flúida e desinstitucionalizada, sem metas definidas, e que favorece a produção individual. De um lado a economia monetarizada, de outro, a utilização de formas alternativas de estímulo à produção.

Em The Wealth of Networks, Yochai Benkler sugere que a Web tenha aberto uma oportunidade para a renegociação de valores, e que essa renegociação tem o prazo de 20 anos para expirar. Depois disso, a sociedade voltará ao equilíbrio até que outro abalo provocado por tecnologia, desastres naturais, crises econômicas ou guerras forcem a uma nova reorganização das forças e dos valores no planeta.

Seguindo essa argumentação, eu vejo a Internet como uma ferramenta que serve para a criação coletiva da maior biblioteca aberta da história, a wikipedia, e também para o estabelecimento de redes de articulação entre pedófilos e grupos que controlam a prostituição infantil na Europa do Leste, na Ásia e no nordeste brasileiro. (Em Copacabana, eu vi este ano um hotel de luxo que faz parte da rota do turismo sexual.) A Web abre o canal de comunicação e ao mesmo tempo fomenta a diversidade e também o racismo, o ódio social e a violação de privacidade. Ela desestabiliza, permite a renegociação, mas não indica um caminho, não representa a solução.

Concluo compartilhando com vocês as últimas linhas da introdução do The Weath of Networks - integralmente disponível online em http://www.benkler.org/wealth_of_networks/index.php/Main_Page - e recomendando a leitura desse livro, que pode servir de guia para realizarmos um debate bastante rico e produtivo sobre o tema proposto:

This book is offered, then, as a challenge to contemporary liberal democracies.

We are in the midst of a technological, economic, and organizational transformation that allows us to renegotiate the terms of freedom, justice, and productivity in the information society.

How we shall live in this new environment will in some significant measure depend on policy choices that we make over the next decade or so.

To be able to understand these choices, to be able to make them well, we must recognize that they are part of what is fundamentally a social and political choice - a choice about how to be free, equal, productive human beings under a new set of technological and economic conditions.

As economic policy, allowing yesterday's winners to dictate the terms of tomorrow's economic competition would be disastrous.

As social policy, missing an opportunity to enrich democracy, freedom, and justice in our society while maintaining or even enhancing our productivity would be unforgivable.

4 de jun. de 2007

Copyright e diversidade

Por Pedro Paranaguá

A proprıedade ıntelectual pode lımıtar a dıversıdade cultural. Nao é, contudo, o únıco fator que pode lımıtar a dıversıdade cultural.
Se estamos falando especıfıcamente sobre dıversıdade cultural, falamos então do ramo específıco de proprıedade ıntelectual denomınado dıreıtos autoraıs. A prımeıra leı de dıreıtos autoraıs (copyrıght, na verdade) foı crıada em 1710, na Inglaterra, justamente para lımıtar o poder dos monarcas que, naquela época, concedıam monopólıos eternos, portanto sem lımıte no tempo, de forma arbıtrarıa. Era um monopólıo para cópıa: dıreıto de cópıa. Pela prımeıra vez então temos os dıreıtos autoraıs lımıtados no tempo (14 anos). E como o título da então nova leı dızıa, era um "ato para o encorajamento do aprendızado". Ou seja, o objetıvo dos dıreıtos autoraıs era justamente de promover a crıatıvıdade, o aprendızado, a cultura, a dıversıdade cultural. Em 1974 a Organızação Mundıal da Proprıedade Intelectual (OMPI) assınou um acordo com a ONU e passou a ser maıs uma das agêncıas especıalızadas da ONU. O acordo preve que a OMPI deve não apenas proteger a proprıedade ıntelectual (marcas, patentes, dıreıtos autoraıs, software etc.), mas sım que a proprıedade ıntelectual deve servır como meıo para se chegar ao desenvolvımento econômıco, socıal e cultural. Portanto, o objetıvo prımordıal, não apenas da OMPI, mas sım da proprıa proprıedade ıntelectual é promover a crıatıvıdade e o desenvolvımento econômıco, socıal e cultural, bem como a dıversıdade cultural.
Mas nao é ısso que temos vısto. Vemos as grandes ındústrıas, como a Hollywoodıana, por exemplo, que domına 85% do mercado global de fılmes, tentando ımpor seus produtos para o restante do planeta. Por ısso que foı crıado recentemente o acordo sobre dıversıdade cultural da UNESCO: para garantır que o poder de taıs ındústrıas não anıquıle outras culturas. Para garantır que a globalızação nao acabe com a rıqueza da dıversıdade cultural que aında exıste no planeta. Para garantır que não sejamos massıfıcados por uma únıca cultura. E para garantır que nem sempre as produções culturaıs devem ser tratadas como produtos puramente comercıaıs.

Para uma política pública que incentive a diversidade digital

Por Gilson Schwartz

Em primeiro lugar, financiamento. Em segundo, mas não menos importante, um aprimoramento e sobretudo simplificação dos canais de acesso às linhas de financiamento, patrocínio e incubação de projetos. Finalmente, como condição para essas duas dimensões de financiamento e acesso, é urgente criarmos as métricas, os indicadores e modelos de inclusão digital que garantam transparência e comparabilidade às diferentes iniciativas. Com financiamento, acesso e métricas, a diversidade poderá ser identificada e premiada, produzindo o que temos denominado de "emancipação digital", que é a inclusão social e econômica com certificação digital, autonomia decisória, diversidade cultural e sustentabilidade ambiental das ações.

A diversidade cultural depende de uma infra-estrutura de telecomunicações livre

Por Sergio Amadeu

Fernando Trevisan, entusiasta e integrante do barcamp, deu uma grande contribuição ao nosso debate ao questionar o documento-base, versão beta, que lançou esta desconferência, conforme solicitava o MinC. Gostaria apenas de tentar responder uma questão muito importante levantada pelo Trevisan. Ele perguntou em seu post: “O que a liberaçãode freqüências hoje utilizadas pelas TVs - que só deve ocorrer totalmente daqui a uns 5 anos, se não mais - tem exatamente a ver com a diversidade cultural, neste momento?”Um dos maiores ataques à diversidade cultural é a concentração de canais de comunicação em poucas mãos. A defesa da diversidade passa porgarantir aos diversos produtores culturais os meios para disseminar suas expressões artísticas. Por isso, o tema da democratização do acesso aos meios de comunicação foi, é e será um elemento vital da luta pela diversidade cultural. Hoje, no Brasil existem centenas de produtores de radiodifusão comunitária que estão impedidos de utilizar o espectro radioelétrico. Ao transmitirem seus sinais são atacados pelo Estado. São chamados de piratas. Por que o Estado ataca os produtores de ondas independentes?Porque existe a pressão das empresas de radiodifusão para manter “a ordem do espectro”. Quem definiu esta ordem? Que ordem é esta? O Estado concedeu a algumas poucas empresas o direito de usar o espectro
radioelétrico para transmitir sua programação. Ao definir o espectro como algo limitado e escasso, o Estado assumiu o seu controle. Apesar de dizer que o espectro é um bem público, o Estado entregou seu controle e operação para empresas privadas. Isso permite que elas controlem as transmissões e concentrem as verbas de publicidade. A democratização das comunicações passa pela democratização do espectro radioelétrico. Acontece que a democratização das possibilidades de transmissão é visto pela indústria do entretenimento e das radiodifusão como ameaça ao seu modelo de negócios (baseados no broadcasting). Por que? A ampliação do número de produtores de programas, o aumento dos tipos de programação, a
diversidade de opções, levaria a dispersão das verbas de publicidade. A TV já sofre concorrência da Internet. Os dirigentes desses grupos de radiodifusão querem que a digitalização não gere nas velhas mídias o efeito internet.


Mas a TV não será digital? Este problema não irá acabar? Tudo não será como na Internet? Onde a descentralização e a globalização impedem qualquer controle?


Nas primeiras batalhas sobre como deverá ser a TV Digital brasileira os defensores da diversidade cultural sairam perdendo para os advogados dos modelos concentradores e limitadores. Por enquanto, a TV Digital será apenas uma TV com alta definição, com interatividade controlada e com um pouco mais de opções do que o programa Você Decide. Tudo indica que a interatividade da TV Digital será classista, pois para fazermos uploads teremos que usar o canal de retorno das operadoras de telefonia. Ele será gratuíto? “De grátis”? Certamente não. Então, aí se colocará novamente o peso do dinheiro, o peso da concentração de renda na
sociedade que gerará concentração de possibilidades de interação.

Muitos diriam: essa tentativa dos grupos de radiodifusão de conter a diversidade de canais e de produção está fadada ao fracasso, uma vez que a TV sobre IP, a webTV engolirá a TV Digital controlada e de baixa interatividade.

Certo. Existe aí esta grande possibilidade democratizante (diversidade exige democracia e liberdade de iniciativa). Então, prá que lutar pela democratização do espectro?


Prá que lutar pela democratização do espectro?


É importante esclarecer que quem controla a infra-estrutura de telecomunicação pode controlar os fluxos de informação. Veja a China. Não é por menos que o movimento “Não é por menos que o movimento "Save de Internet" está lutando contra as tentativas das empresas de telecom e de entretenimento poderem taxar e tratar diferenciadamente os pacotes de bits que trafegam em suas redes físicas. Todos sabemos que a Internet é baseada na troca de pacotes de dados baseados no democrático protocolo TCP/IP. Imagine se uma operadora de telefonia estiver autorizada a ler os cabeçalhos dos pacotes que levam as informações. Ela poderá bloquear a Voz sobre IP, os pacotes que levam dados usando o BitTorrent, aumentar a velocidade dos pacotes de mensagens das empresas aliadas, entre outras coisas discriminatórias. Alguém poderia dizer: mas eles não fariam isto... É mais já estão fazendo. O movimento Save The Internet defende a neutralidade na rede, ou seja, que os controladores da camada física da rede não possam interferir nas camadas lógicas. Dito de outra forma: a diversidade cultural no ciberespaço depende da palavra de ordem: "Todos os pacotes são iguais perante a rede!" Acho que o primeiro que articulou esta frase foi o Carlos Afonso, do Comitê Gestor da Internet no Brasil.

Então, aqueles que pensam que a garantia da liberdade na Internet dispensa a luta pela democratização da infra-estrutura, o que incluí o espectro radioelétrico, está cometendo um erro de avaliação.

Por isso, a luta pela diversidade digital também passa pela transformação do espectro eletromagnético em uma via comum, pública, em commons.

3 de jun. de 2007

Diversidade e Subjetividade

Por Fernanda Bruno

Pensada no âmbito da subjetividade, a questão da diversidade na cultura digital envolve pelo menos dois processos. De um lado, a diversidade se produz e prolifera pela multiplicação das “vozes” e vias individuais. Já se tornou um lugar comum afirmar que a cultura digital fez de cada um de nós emissores, produtores e distribuidores potenciais de informação de diferentes tipos e formatos. Cada vez mais, a Internet se afirma como um ambiente em que cada um é convidado a ser a sua própria mídia. Pululam narrativas da vida privada, imagens pessoais da intimidade, do cotidiano e do mundo, produções visuais, musicais, literárias, artísticas, amadoras ou profissionais. Um cenário de vasta diversidade de expressões individuais. Embora tais expressões sejam sempre modos de reproduzir, recombinar ou subverter processos sociais e coletivos, as diversas subjetividades que aí se produzem em grande parte reforçam as vias individuais e individualizantes.
De outro lado, a cultura digital tem atualizado e potencializado uma outra dimensão das subjetividades que se manteve freqüentemente à margem dos tradicionais modelos psíquicos, cognitivos, filosóficos, comunicacionais. Refiro-me à dimensão coletiva, transindividual e processual das subjetividades, expulsa da identificação cartesiana da subjetividade com uma interioridade pensante, do confinamento psicológico da inteligência à mente individual, da suposição de que o processo comunicacional é o resultado de trocas entre um emissor e um receptor constituídos. Inúmeras práticas e experiências nascidas ou renascidas na cultura digital – recombinação, remixagem, software livre, projetos colaborativos e participativos, entre outras – colocam em obra uma subjetividade cuja topologia escapa aos limites da interioridade e do indivíduo para se formar nos “espaços” intersticiais, no entre-dois, ou ainda no entre-muitos que constituem essa rede coletiva de agentes sociotécnicos. Temos visto como o pensamento, a inteligência e o conhecimento encontram na cultura digital vias, expressões, apropriações efetivamente transindividuais, fazendo variar a noção de autoria e explicitando os limites da lógica da propriedade intelectual. As subjetividades comunicantes, por sua vez, cada vez menos cabem na polaridade emissor-receptor, pois não são nem se comportam como termos dados e anteriores à relação que estabelecem entre si, mas são, antes, constituídos por ela.
Essa dimensão coletiva, transindividual e processual das subjetividades engendram um sentido e uma experiência da diversidade que vai além da livre expressão das individualidades diversificadas, para se exercer como dinâmica e processo coletivo de diversificação, diferenciação e transformação das subjetividades. A diversidade aqui é menos um conjunto de subjetividades distintas do que um processo de diversificação das subjetividades, na medida em que estas são chamadas a sair de si mesmas, a se diferenciar e atravessar as fronteiras que tradicionalmente as definiam. Fronteiras da interioridade, da autoria, da propriedade, da individualidade, da identidade são subvertidas para dar lugar a processos coletivos de pensamento, conhecimento, criação, sensibilidade. A livre expressão das subjetividades individuais é certamente uma das condições da cultura e do cultivo da diversidade e ela deve ser potencializada por uma radical ampliação do acesso à cultura digital. Mas além da ampliação do espectro das diversas subjetividades individuais, a cultura digital tem uma singular vocação, rara em muitos outros domínios, para pôr em obra uma experiência e uma prática da diversidade e da subjetividade como processos coletivos de diferenciação. Práticas colaborativas, de compartilhamento e de licenças livres podem ser o esboço do que podemos chamar de uma ética da diversidade que não seja apenas a convivialidade harmônica de entes diversos, mas algo próximo do que Gilbert Simondon, em sua filosofia da técnica e das individuações, pensou como a natureza da ação ética - um poder de amplificação do potencial de transformação coletiva. Um esboço, portanto, de uma individuação coletiva, em que a transformação de si próprio leva a outros um potencial de transformação.

1 de jun. de 2007

Xemelizando o Sistema

A diversidade de "conteúdo" na rede depende da diversidade de "sistemas"
Facilitando a Colaboração


Por Vitoriamario

Se queremos que as pessoas colaborem, e construam uma internet livre, é preciso que as tecnologias se desenvolvam nesse sentido. A natureza da internet pode ser descentralizada e anárquica, mas o uso que as pessoas fazem dela depende do desenvolvimento de tecnologias que possibilitem este uso. Estamos falando aqui tanto de software, como de infra-estrutura física, de hardware e de telecomunicações.

Mas pensar uma internet mantida colaborativamente não é simples. Ainda não existe a cultura de uso da responsabilidade compartilhada na internet. Projetos como a wikipedia ou wikimapia são excessões e normalmente mantidos por "geeks".

Como tornar a prática colaborativa no ambiente digital algo natural? Com formação? Escolas na internet? Talvez tudo isso, mas uma coisa acima de tudo: familiaridade com os sistemas.

Sistemas são metáforas. Cada pessoa tem a sua. Sistemas devem ser múltiplos. Múltiplas maneiras de organizar informações, idéias e dados. Isso sempre foi assim. Cada povo organizou seu calendário de uma maneira, seu idioma, sua sociedade. Cada grupo usa seus linguajares
característicos, organiza as coisas de determinada maneira.

A única maneira de as pessoas colaborarem de forma natural e orgânica é a tecnologia se tornar transparente. As pessoas usam o telefone com tanta desenvoltura para se comunicar hoje em dia porque ninguém pára para pensar que está usando um telefone quando está falando com alguém: está pensando apenas na conversa.

Se investirmos em uma tecnologia que privilegie o controle e a centralização da produção, não há milagre que faça que as pessoas se comportem de maneira diferente em relação a ela. Se na tela da minha TV Digital aparecer apenas as opções "assistir canais" e "fazer compras" não adianta me vir falar de outras possibilidades.

As escolhas pelos caminhos de desenvolvimento devem ser coerentes com a cultura de uso que se espera que nasça. É preciso que se multipliquem possibilidades de metáforas para as pessoas interagirem com a máquina.

Nunca se chegará ao sistema perfeito, que torna a colaboração entre as pessoas e a organização de ideias compartilhadas algo tão natural quanto pensar e conversar. Isso porque as pessoas são diferentes: pensam e conversam de maneiras diferentes. Por isso é necessário que se criem
muitos sistemas. Quanto mais melhor.

Contudo esses sistemas podem conversar entre si. A essência das mensagens trocadas internamente dentro dos diversos sitemas são sempre semelhantes. Se todos os sistemas tiverem suporte a um protocolo comum, eles facilmente conversarão. E cada pessoa poderá usar o que mais lhe agrada, e estar conectada com toda a rede, como deve ser.

Isso não significa que todos devem falar a mesma língua, ou que os sistemas tenham que ser todos semelhantes. Isso significa que os sistemas devem ser inteligentes. Por mais específico e único que um sistema possa ser, é possível que ele troque informaçoes com outras plataformas.

Um exemplo realmente muito simples disso hoje em dia é o RSS, que permite a troca de informações entre sites. Usado normalmente para alimentadores de notícias e de blogs, a potencialidade desse tipo de protocolo ainda é pouco explorada.


Compartilhamento consciente

Compartilhar não é um ato passivo de 'deixar levar', mas um ação positiva de 'tornar disponível'.

Desenvolver um software é uma coisa. Desenvolver um software e documentá-lo bem é outra coisa. E, se pensarmos bem, só esta segunda pode ser considerada desenvolvimento de software livre.

Para que alguém possa se apropriar de um código e colaborar, é preciso que haja documentação acessível e bem organizada. Se não houver, o software fica necessiaramente ligado a pessoa que primeiro o desenvolveu, e o fato de o código ser aberto não dá grandes possibilidades de evolução espontânea e caótica.

O mesmo acontece com cultura e conhecimento. Apenas fazer upload desordenado de milhões de coisas não necessariamente enriquece o repertório do videomaker que procura uma música para seu vídeo. É preciso uma cultura de uso de publicação de forma organizada.

As interfaces de compartilhamento devem tornar a classificação algo natural e orgânico. Isto pode ser a colocação de tags, ou qualquer outra maneira de indexação que venha a surgir.


Software Livre e o desenvolvimento de Softwares

Recorrentemente citamos o fim da divisão "emissor vs receptor" quando falamos em tecnologias digitais para comunidação.

No entanto nos esquecemos que, quando falamos de software livre, estamos falando a mesma coisa. Estamos falando do fim da distinção entre usuário e desenvolvedor. Tanto no sentido de que o usuário é um participante ativo no desenvolivmento do software, na medida em que ele faz parte da comunidade e colabora de alguma maneira, como também estamos falando da possibilidade de qualquer pessoa se apropriar de códigos alheios e passar a ser o desenvolvedor de seu próprio software.

Com código e documentação abertos este cenário é uma realidade.

É preciso que incentivemos:

. desenvolvimento de software livre - sempre bem documentado
. desenvolvimento de protocolos de comunidação que podem servir como
base de troca de dados entre sistemas
. infra-estrutura física e de software que permita a descentralização,
assim como as redes mesh extinguem a necessidade de uma grande antena
central

Wiki na rede

A versão beta do documento "Diversidade e Cultura Digital" já está esperando modificações.

Para editá-la, basta se cadastrar, com endereço eletrônico e senha, no campo indicado na própria wiki. Quem tiver dúvidas de como utilizar a ferramenta, pode escrever para biancasantana@gmail.com

"Questões e sugestões metodológicas"

O Orlando propôs discutir o método da oficina na lista .

Participemos!

Inventar a gratuidade

Texto anônimo, ou de qualquer um, ou de um coletivo existente em local incerto e não sabido (mas existente). Circulou na lista de discussão Submidialogia.

A gratuidade, em suas múltiplas concepções, caracteriza bem um novo horizonte. Ela qualifica, sob o conceito de interesse geral ou sob o nome de BEM COMUM, o que pertence a todos, ou aquilo de que todos fazem uso. Nesse sentido, a gratuidade é constitutiva da comunidade política planetária. Mais ainda, ela é constitutiva de toda comunidade política, enquanto essa última nasce de uma tomada comum de recursos. Mas a gratuidade excede igualmente o comum ou o humano. É a gratuidade das coisas sem donos que, por mais distantes que estejam (estrelas ou cometas), passam a constituir também nossos recursos os mais necessários
(luz do sol). É em nome desse horizonte comum, dessas gratuidades, que numerosas lutas sociais e políticas aparecem hoje, usando mesmo desse outro sentido da gratuidade que encontramos na língua inglesa, free, significando assim que a tomada comum das determinações é também o momento da autodeterminação política.


A Gratuidade do Interesse Geral

A gratuidade do interesse geral, repousando sobre a redistribuição fiscal e recolocando Deus ou os deuses para a Comunidade, se inscreve – revista e aménagée pela escolástica medieval – na continuidade da idéia romana de gratuidade. No direito romano, aquilo que chamamos hoje de recursos naturais são então gratuitos e sagrados, e gratuitos porque sagrados, excedendo o humano em sua natureza ou em sua dimensão, esse último sendo um simples usuário, um usufrutador e não um proprietário da natureza. O mesmo vale para o domino publico e os serviços públicos do Estado, dos quais podemos nos beneficiar, posto que pertencem legalmente à comunidade nacional, mas que enfrentam finalmente uma gestão direta
pelos usuários. A partir disso, o domínio, assim como o serviço público, são privatizados pela potência pública que define a produtividade segundo os interesses (notadamente eleitorais) daqueles que a geram ou daqueles que estão em posição de desvia-lo em seu beneficio. Hariou foi o primeiro jurista a associar gratuidade e serviço publico. Segundo o Doyen de Toulouse, o serviço que está a cargo do interesse público deve ser organizado sobre um modo comunista e seu financiamento assegurado pela comunidade. Assim, a gestão do bem comum se ajusta ao interesse geral. "Os recursos são colocados em comum para que os serviços sejam tornados igualmente e gratuitamente a todos. Daí vem o caráter não lucrativo dos serviços públicos" (Hauriou). Mas por que um serviço, a principio não lucrativo, alimentado de recursos coletivos, é
transformado hoje em serviço lucrativo? Declara-se as vezes que a gratuidade tem efeitos perversos sobre um consumidor que, não sabendo o preço da gratuidade publica, ou se beneficiando sem esforço, nao respeita os bens culturais que ele comprou (como se os impostos não fossem suficientemente altos, fosse necessário pagar em dobro). E ainda – para pegar o exemplo dos transportes públicos urbanos - não bastasse pagá-los na roleta, é preciso também que o dinheiro levantado sirva a controlar o usuário. As pesquisas do grupo NADA mostram que, de fato, as receitas comerciais (constituídas das contas, mas também de outras fontes como publicidade, as locações dos espaços aos comerciantes de jornais, buffets e comércios diversos) são minoritários face aos financiamentos públicos, e que elas justificam, contudo, custosos dispositivos de controle e uma custosa bilheteria ( billeterie) sem falar da lucrativa e não contratual poluição publicitária imposta em todas as estações de metrô e ônibus. Uma prefeitura que gera o domínio publico comunal se apropria e privatiza a gestão desse domínio. Ela transforma o recurso coletivo em máquina produtiva submetida a imperativos de rendimento ou de retorno de investimento. Dessa maneira, ela desvia progressivamente as finalidades coletivas dos recursos comuns. Não basta que os recursos naturais e imateriais, presentes, passados e futuros sejam colocados em comum. É necessário também que essa tomada comum abstrata seja suportada pelo debate publico (rompendo a subordinação da sociedade ao Estado, tornando-se proprietários dos recursos comuns, regule também seu uso, em vez dos lugares dos "comunistas".

A Gratuidade do Bem Comum


Encaixotados na Res Publica, os bens comuns pertencem e são constituídos e regulamentados por sua potência pública. As Res Communis são então menos comuns se relacionadas a seu/sua ( maître – nota da tradução: aqui eu não sei se se refere à prefeitura ou ao dono), ao Estado que decide e dispõe delas, com ou sem mandato dos comunistas. Mas o encaixotamento das Res Communis na Res Publica pode igualmente adotar uma outra forma
com o federalismo ou o socialismo cooperativo, onde todos os consumidores são organizados em cooperativas de consumo, organizando cooperativas de "segundo nível" (Charles Gide) o processo de produção e distribuição. Nesse contexto, as coisas comuns servem de assento a uma vida comum federativa e cooperativa.

No código civil francês, as coisas comuns (eventualmente integradas ao domínio publico) se manifestam através de diversos status: os bens comunais (art. 542 cód. civil), as coisas comuns corporais (cód. civil 714), as coisas comuns incorporadas. Os bens comunais são aqueles
à propriedade e aos produtos dos quais os habitantes de uma ou diversas comunidades tem direito adquirido. Esses bens comunais representam, na França, algo como 60 mil quilômetros quadrados, eles são propriedade coletiva da comuna e não propriedade comunal. E é provavelmente pensando nos bens comunais que a Câmara Criminal da Corte de Cassação declarou que "a subtração por um dos comunistas de uma coisa comum constitui um roubo" (27/02/1836).
As coisas comuns são também elementos naturais como o ar, as praias ou as paisagens hoje (verses) ao domínio publico. Muitos desses recursos, que estavam há muito tempo não contados ( non comptes) estão hoje integrados nos cálculos econômicos: a produção da natureza foi avaliada em 55 milhões de dólares por ano por um grupo de cientistas do Instituto de Economia Ecológica da Universidade de Maryland, em 1997. E os planetas – como o fundo dos mares – durante muito tempo inscritos fora do direito comercial, poderiam, contudo, entrar nessa conta (soma). Associações industriais lutam para modificar o direito do céu, pensando já poderem explorar os recursos dos planetas do entorno. Da mesma forma, no direito prospectivo aparecem distintos tendendo a invalidar a generalidade da noção de bem comum genético, privatizado em suas particularidades produtivas (parece que podemos considerar que o material genético não seja uma coisa comum senão na medida em que ele concerne a um conjunto da espécie – revista de pesquisa jurídica, direito prospectivo, no 16, p.u. Marseille). Bens comunais, recursos
naturais, as coisas comuns são também incorporadas, culturais,
informacionais (idéias e palavras e notas musicais etc). Essas coisas fora do comercio não podem, ou não poderiam até pouco tempo atrás – ser vendidas: "No caso dos dados ( donnes) comuns (idéias, descobertas cientificas, palavras) cada um tendo um direito sobre os mesmos dados, ninguém pode impedir o acesso do outro. Ninguém tem reciprocamente necessidade de uma autorização para utiliza-los" (Isabelle Moine, 1997, p.364). Entre os bens imateriais, poderíamos imaginar que a moeda, coisa incorporada, cultural e informacional, considerada hoje ainda como um bem comercial, retorna à categoria das coisas fora do comercio, como a linguagem e as notas musicais... Sabemos que a propriedade intelectual representa 80% do valor das 500 primeiras empresas do Standard & Room`s Com Stock. A gratuidade está, contudo, inscrita nas práticas de consumo e de produção imaterial. Enquanto o copyright está fundado sobre a proteção do autor e se apresenta como um direito privado a propósito dos
bens que não tem valor senão para circular e serem apreciados, o copyleft está fundado sobre a liberdade dos usuários. A tarefa do Napster, e mais amplamente o desenvolvimento do peer to peer, tendem a provar que o copyright (malmene) os bens imateriais que (defiait) dois dos princípios fundamentais da política econômica: a raridade e o controle. Os dados numéricos são copiáveis ao infinito a custo quase zero. O produtor não (maîtrise) o usa dos dados que ele difunde e não pode impedir sua disseminação: a economia dos bens imateriais retorna por natureza da gratuidade no sentido forte (bens sem dono/maître) ou frágeis (cooperatividade). É necessário distinguir o dom da informação ou seu estabelecimento em um circuito de cooperação, de sua gratuidade. O doador endereça seu don de maneira () e cria eventualmente uma duvida, uma dependência, uma reciprocidade daquele que recebe. A gratuidade é uma disponibilizarão anônima ou de qualquer um. Em uma gratuidade anônima, os indivíduos são intercambiáveis. A circulação de bens ou de signos não é efetuada de uns contra os outros. Não há emissores nem receptores. A informação anônima, por exemplo, um agregado, um fundo
comum, um bem que todo mundo pode ter porque ele está acessível a todos. Seu principio não é o compartilhamento, nem a comunidade de informação, a troca de informação entre pessoas que se conhecem, mas a disponibilizarão sem espera de retorno e na indiferença face ao receptor. A informação anônima é produzida, difundida, coletada ou (ramassée) por não importa quem. Se se produzem encontros entre emissores e receptores, eles são breves e sem dia seguinte, sem
identidade nem reconhecimento, sem ( enjeu) nem projeto. As informações entram em conjunções temporárias induzindo a reagrupamentos aleatórios e provisórios, de emissores e de receptores em contextos de movimento. Em uma gratuidade qualquer, os indivíduos não são intercambiáveis: são não importa quem ou o que, mas eles são eles mesmos, plenamente singulares.
Há emissores concretos e receptores concretos (charnels). Os reagrupamentos se efetuam sobre modos intensivos e de afinidade, e não estatísticas ou aleatoriedade. O autor qualquer rompe com a ausência de qualidade do anonimato: ele se manifesta como potência.

30 de mai. de 2007

Análise, questões e propostas sobre diversidade cultural e o meio digital

Por Fernando S. Trevisan

Faz algum tempo já que a Bianca Santana fez o convite para que eu escrevesse algo e colaborasse com o Diversidade Digital. O convite foi reforçado no Barcamp que aconteceu em Florianópolis, nos dias 19 e 20/maio, quando eu critiquei o "extremo academicismo" dos artigos que havia lido.

Portanto, no intuito de ser justo e de colaborar com algo realmente original, resolvi ler com atenção redobrada o documento que - aparentemente - foi o marco zero deste blog/movimento, bem como os textos já publicados pelos outros colaboradores. Creio que existe algo para adicionar, portanto...

- Crítica à proposta inicial

O DD já inicia com um documento que é uma contradição em termos. Produto de um único acadêmico e ativista político, cita projetos sem nem "linká-los" (como é apontado muito apropriadamente nos comentários); anuncia que busca novas propostas, sendo que volta a bater na velha tecla das iniciativas governamentais e da pesquisa puramente acadêmica para garantia da diversidade. O que salva é que ele é a abertura e o chamado para colaboração, ainda que filtrada por uma "curadoria"... do mesmo autor do documento inicial!

Outro problema claro é que o documento procura inserir diversas bandeiras em uma discussão já cheia de coisas a debater. O que a liberação de freqüências hoje utilizadas pelas TVs - que só deve ocorrer totalmente daqui a uns 5 anos, se não mais - tem exatamente a ver com a diversidade cultural, neste momento? Se queremos aproveitar um seminário que vai acontecer AGORA e apresentar propostas relevantes e concretas, creio ser importante focar no que é possível já.

- A discussão se desenvolve

Os dois artigos imediatamente posteriores, de Cláudio Prado, já começam a dar pistas de outros problemas com a proposta inicial de Amadeu, ainda que de forma dispersa. A ascensão do digital descentraliza, é a realização de uma globalização e "internacionalização" há muito anunciada - e isso pode reforçar e renovar as diversas culturas, desde que elas tenham meios para marcar presença - e Prado enumera o que é necessário, mas cai no mesmo erro de Amadeu, defendendo "rádios e tvs locais e autônomas conectadas em rede".

Ora, a infra-estrutura utilizada para web - desde que garantida a neutralidade da rede - pode e deve ser apropriada para essa presença televisiva e radiofônica, realizando a convergência e a migração de um meio apenas receptivo (a tv e rádio tradicionais) para um meio interativo (a internet, seja em conteúdo de vídeo, som, texto ou multimídia). A diferença é mais que econômica, é de formação, educação e... preservação da diversidade!

Não faltou também quem falasse em "liberdade demais" assim como outros têm medo dos monopólios privados que podem censurar ou restringir o uso de seus serviços. Ana Brambilla, como sempre, faz excelente contraponto, em defesa da liberdade e da colaboração. Marcos Dantas aponta que a tecnologia é meio e ferramenta, não necessariamente criadora de cultura - embora, atualmente, ela também seja isso.

- Das discussões, as questões... e as propostas!

Muitas questões surgem quando paramos para pensar na proposta de diversidade cultural (e digital). A principal, para mim, é: como sustentar? Paulo Lima e Oona Castro vão além da resposta básica "vamos pedir ao papai governo, ele tem que dar a mesada" e apontam soluções: financiamento e subsídios (e aqui o governo pode ajudar, como já vem fazendo) além do "open business".

Não se propõe aqui que a cultura deva ser sempre lucrativa - pois aí correríamos, novamente, o risco de perder a diversidade. A questão é como ir além do apoio governamental ou do uso de serviços privados - que podem esbarrar na ideologia ou no mercantilismo - e permitir que comunidades auto-sustentem sua representação cultural, utilizando meios digitais.

Abandonar as antigas técnicas de transmissão de conteúdo, que não têm interatividade e colaboração, é essencial. As novas gerações - as quais cabe a manutenção de tudo que estamos propondo/criando - não lidam bem com conteúdos impostos, acostumando-se desde cedo com tecnologias interativas.

Assim, faz-se necessário para a preservação digital da cultura, que exista acesso universal a computadores e banda; que isso não seja sustentado apenas por iniciativas governamentais nem apenas por iniciativas privadas, mas que existam meios (Parcerias Público-Privada? Financiamentos? Isenções de impostos?) para que as próprias comunidades sustentem seu acesso, seus equipamentos e também os meios de produção cultural.

É necessário também apropriar-se dos meios já existentes - e aqui cito especificamente os serviços, públicos ou privados - para disseminar essa cultura, ou corremos o risco de novos guetos, agora virtuais.

Mas de nada adianta dar as ferramentas e ter o desejo de apropriar-se do que já existe, se não houver o treinamento para que as comunidades utilizem isso. E aí a iniciativa privada pode ter grande interesse, pois pessoas capacitadas para lidar com tecnologia, web e serviços on-line estão em falta e serão cada vez mais necessárias.

Assim, temos na realidade - e como sempre - no digital a reprodução do real: precisamos de dinheiro, mas de onde? O dinheiro deve ser usado para ferramentas e capacitação - mas como? É o que se discute e se tenta há anos em movimentos sociais, de alfabetização e de políticas de saneamento, entre outros.

A grande diferença do digital é que ele é atrativo, interativo, relativamente barato, automaticamente reciclável (não falando de equipamentos, aqui, mas sim de conhecimentos) e ainda por cima de interesse aos grupos privados. Por que não aproveitar e investir, fazendo com que o digital reflita para o real e aponte soluções a estes outros problemas?

Espero que as críticas tenham sido construtivas e as questões e propostas, úteis...

29 de mai. de 2007

Bibliotecas, museus e arquivos: fontes inesgotáveis de registro da diversidade humana

Por Lídia Cavalcante

Tenho acompanhado e pesquisado sobre as discussões relativas à geração de um patrimônio digital nacional e internacional, por parte de instituições como universidades, bibliotecas, museus e arquivos. Não se trata apenas de mais um modismo do mundo tecnológico contemporâneo. É uma realidade mundial, podemos dizer. Mas, o que significa dizer “uma realidade mundial”? É possível gerar um patrimônio nacional em meio digital? Como ficam as tradicionais bibliotecas, museus e arquivos em meio a essas discussões?
O percurso iniciado pelas discussões e estudos sobre memória e patrimônio digital está apenas começando. Há um logo caminho a percorrer e a explorar. Não se trata de discutir a superioridade de nações ou economias dominantes tecnologicamente, mas de aprofundar o discurso sobre preservação, salvaguarda e acesso. Este tema representa um rico campo de pesquisa a explorar, sob diferentes aspectos: político, histórico, econômico, cultural, educativo ou tecnológico, por exemplo.
Diante de uma tal diversidade de estudos é fundamental destacar a importância do debate político, que envolve questões relativas às práticas e ações voltadas para a emergência da criação de coleções patrimoniais em meio digital. As instituições culturais de memória, de modo geral, se vêem envolvidas em um processo de mobilização global que conduz a diferentes contextos. No campo cultural e tecnológico são estimuladas a desenvolver projetos e programas de digitalização de suas coleções. Entretanto, no plano financeiro, se vêem às voltas com a falta de recursos e de políticas de investimentos que tornem viáveis tais projetos. Assim, confrontam um duplo desafio: gerir um patrimônio tradicional e um patrimônio digital em meio à falta de recursos financeiros, humanos e tecnológicos.
Nesse quesito (ou em mais um quesito), as desvantagens econômica e tecnológica das nações em desenvolvimento serão facilmente perceptíveis. Fato que se pode observar pelo índice de crescimento das coleções patrimoniais digitalizadas em países como a França, os Estados Unidos, o Canadá e a Inglaterra. Não é difícil compreender a concentração do crescimento das bibliotecas digitais na Europa e na América do Norte, bem como o uso da Internet, que permite fluxos de informação cada vez mais dinâmicos e modernos.
Bibliotecas, museus e arquivos, historicamente, são considerados setores tradicionais, cuja inovação não parecer ser “a ordem do dia” das áreas políticas e econômicas no Brasil. Paradoxalmente, o setor informacional tem sido o mais sensível ao desenvolvimento tecnológico, necessitando de inovações e investimentos constantes. Assim, uma política de desenvolvimento de coleções digitais, para assumir de modo competente o papel de difusão cultural e transmissão do saber, necessita de processos de evolução tecnológica constantes e de esforços governamentais e institucionais para gerar projetos de interesse comum no que tange à preservação, salvaguarda, acesso e democratização da memória e do patrimônio coletivo. Fato que requer esforços de cooperação e harmonização de objetivos, para favorecer a troca de experiências, a força política e a obtenção de recursos. Não consigo imaginar um universo de cultura digital sem democratizar saberes e acesso à informação e, menos ainda, sem a presença de bibliotecas, museus e arquivos, fontes inesgotáveis de registro da diversidade humana.

27 de mai. de 2007

Por Yara Guasque

A criação atual em arte e tecnologia e a formação de um público específico no Brasil nos faz focar o paralelismo existente entre as bases de produção material ¾ que fazem emergir a situação econômica-social e o histórico da industrialização do país ¾ e as resoluções estéticas ditadas pela necessidade de se voltar às massas excluídas da cidadania, que adquiriram recentemente o estatuto de consumidores em potencial e que passam a induzir a criação de novos formatos artísticos.

Frente à nossa dificuldade de país periférico de acesso a bens culturais, junto aos limitados recursos e as precárias condições de experimentação, as estratégias adotadas da cultura digital refletem mais o marketing das corporações do que uma real modificação das estruturas de acesso.

Com a globalização o processo de terceirização que acabou por incluir a Zona Franca de Manaus como parte da produção das câmeras videográficas, por exemplo, não representa positivamente a pretensa transferência tecnológica (GUASQUE ARAUJO, GUADAGNINI, FACHINELLO). Como nos colocam LUGO; SAMPSON e LOSSADA (2006), o modelo aplicado com a privatização da indústria de telecomunicações na América Latina trouxe uma entrada significativa de capital para os setores de mídia, telecomunicações e computação e propiciou um rápido crescimento, embora não tenha beneficiado a inovação da produção tecnológica local. Mesmo as novíssimas indústrias de games, que atuam nos países em desenvolvimento, pouco refletem as raízes da cultura local por estarem atreladas à uma produção voltada a atender o perfil cultural do consumidor norte-americano.

Então como falar em diversidade?

A questão colocada é se as massas excluídas da cidadania, que adquiriram recentemente o estatuto de consumidores em potencial, ditarão ou assimilarão os novos formatos e se ainda é pertinente a diferenciação entre alta e baixa cultura.

GUASQUE ARAUJO, Yara R.; GUADAGNINI, Silvia; FACHINELLO, Sandra Reis. "Parâmetros para o entendimento das mídias emergentes e a formação de um público especializado no Brasil". Texto ainda não publicado.
LUGO, Jairo; SAMPSON, Tony; LOSSADA, Merlyn. "Novas indústrias culturais da América Latina ainda jogam velhos jogos Da República de Bananas a Donkey Kong". In: BARRETO, Ricardo; PERISSINOTO, Paula. (Orgs). FILE: festival Internacional de Linguagem Eletrônica. São Paulo: FILE, 2006, p. 164- 179.

26 de mai. de 2007

Cultura de massa e cultura de rede

Por Daniela Silva

Nossos rostos não aparecem nas capas de revista. Não nos reconhecemos no sotaque dos locutores de rádio, nem na lourice meiga dos atores de tevê. A música que consumimos pouco tem a ver com aquela que fazemos. Nunca fomos parecidos com as ilustrações das cartilhas da escola. Nossa língua não freqüenta os livros, os palcos, os plenários. Somos constantemente treinados a acreditar que o conhecimento efetivo é aquele que se distancia da sabedoria popular.

Isso porque é difícil combinar diversidade com cultura de massa. Para priorizar a opinião - e o lucro - de poucos, é preciso estabelecer com os outros muitos um status de dominação. A cultura, quando distribuída em ritmo industrial, vira uma versão empobrecida da realidade, dissemina estereótipos e carrega as relações sociais de estagnação e desigualdade.

Mas se a cultura de massa é aquela que tem pouco ou nada a ver conosco, a cultura da rede somos nós. A rede nos oferece um potencial inédito de propagar pensamento livre e criatividade. A comunicação passa a se dar de maneira essencialmente horizontal e o conhecimento se constrói colaborativamente. A diversidade cultural deixa de ser uma entidade exterior às pessoas e se torna, finalmente, um produto da expressão coletiva.

Para que esse potencial se concretize, é preciso transformar a rede em um espaço de todos. Para que a rede reflita a diversidade, é preciso promover o acesso, a liberdade, o respeito às diferenças. E resgatar a idéia de que as pessoas, todas elas, têm o que dizer.

25 de mai. de 2007

Não queremos internet nas escolas!

Por Nelson Pretto

Calma. A frase do título é apenas a metade de uma idéia um pouco maior. De fato, não queremos a internet nas escolas, mas sim, as escolas na internet. Percebe a diferença? Essa nossa frase virou o lema do nosso grupo de pesquisa Educação, Comunicação e Tecnologias (http://www.gec.faced.ufba.br) desde o final do século passado. Parece que em tempo de web 2.0 não custa resgatá-la. E o incrível é que, a web tem pouco mais de 15 anos e, desde o começo já diziamos: tem que ter espaço para que todos possam se colocar na rede. Tem que cair na rede. A diversidade de culturas, povos, jeitos de ser, pensar e agir precisam estar representadas e se constituirem a essência da internet. Sempre acreditamos que a relação da educação com a cultura, com a ciência e a tecnologia são fundamentais mas ainda estamos frente a poucas transformações no próprio sistema educacional. Mas, felizmente, tem muita coisa acontecendo na busca de transformação dessa realidade, e muitas delas estão sendo implantadas e conduzidas por professores e professoras atuantes e animados, lutando contra todas as faltas de condições e apoios conhecidos. Para nós, para viabilizar essas ações precisamos intensificar a apropriação das TIC enquanto elementos de cultura e não apenas como aparatos tecnológicos que ilustram ou facilitam os processos educacionais. Esses equipamentos, e todos os sistemas a eles associados, são constituidores de culturas e, exatamente por isso, demandam olharmos a educação numa perspectiva plural, que demanda novos vetores de desenvolvimento. Ou seja, temos que afastar a idéia de que educação, cultura, ciência e tecnologia podem ser pensados enquanto mecanismos de transmissão de informações. Isso implica, portanto, pensar em um processo de articulação entre todas essas áreas. No campo das tecnologias, uma ação que se tem mostrado de grande importância é uma maior aproximação com os movimentos do software livre e das possibilidades trazidas pelas tecnologias livres, ao resgatar, para o ambiente da escola, a perspectiva de colaboração. Associado a isso, os movimentos de democratização das produções, através das chamadas licenças criativas (creative commons), intensificam uma idéia que nos é muito cara: a possibilidade de uma intensa criação. Esses são movimentos que buscam fazer circular as informações, de se produzir e re-produzir permanentemente, remixando tudo, re-criando em cima do já criado. Acredito, a partir desses elementos, podemos também pensar também nos processos denominados de inclusão digital, afastando-se, assim, da perspectiva limitada do chamado treinamento para o mercado de trabalho. Temos defendido uma outra perspectiva de inclusão, que supere a dramática dicotomia: para o filho do rico, todas as condições, em um quarto conectado, com computadores de alto processamento, conectados em banda larga, suporte 0800 e, o mais importante, a liberdade quase total para se fazer o que desejar; para o filho do pobre, acesso através dos telecentros ou infocentros, com aulas de informática para o ensinamento de planilhas, processadores de texto ou coisas do tipo, geralmente de forma muito intediante e com softwares proprietários. Gastamos muito dinheiro com isso e pouco se modifica nessa realidade, uma vez que essas políticas de inclusão terminam sendo impregnadas por uma exagerada pedagogização dos processos, fazendo com que as distâncias entre aqueles que tem acesso e os que não tem, aumentem cada vez mais, reforçando a estratificação já existente em nossa sociedade.
Outro aspecto associado à educação que merece ser destacado é a alfabetização. Penso que não devemos pensá-la de forma isolada e muito menos apenas na idéia da alfabetização digital, se é que conseguimos entender o que isso significa. Creio ser imperativo, aqui também, pensar em alfabetizações, com a perspectiva plural de novo presente, fortalecendo-se, com isso, todo o sistema educacional, formal e não-formal. O que propugnamos é que professores e alunos deixem de ser meros atores do processo educacional e passem a ser considerados - cada um individualmente e enquanto grupos - autores do processo. Para tal, o que estamos pensando em nosso grupo de pesquisa [www.gec.faced.ufba.br] é que precisamos superar a idéia de montagem de portais de serviços que distribuem informação, produzidas por especialistas e de forma centralizada, para consumidores localizados nas escolas. Pensamos que se torna necessário constituir comunidades virtuais de aprendizagem, articulando toda a rede, com escolas, professores, alunos e comunidade atuando de forma intensa e permanente visando a incorporação de todas as manifestações de cada uma das regiões e, promovendo o diálogo dessas manifestações com as oriundas de outras regiões, da alta cultura e da ciência, mas sempre em processos horizontalizados. Estamos construindo essas reflexões, sempre inspirados no nosso querido professor Felippe Serpa [http://www.faced.ufba.br/rascunho_digital/] , que propunha-nos pensar em pedagogias da diferença em oposição às tradicionais pedagogias da assimilação. Pedagogias que tenham o diferente como fundante, não nos colocando como referência a identidade, mas ao próprio diferente. Busca-se, com isso, o enaltecimento da diferença, sendo ela produtora de alteridades, como nos propôs em conversa pessoal o professor Wladimir Garcia da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Santa Catarina. As expressões que passam a fazer parte do vocabulário dos educadores, assim, são fluxo, rede e movimento, em lugar das já conhecidas linearidade, currículo fechado, currículo distribuído, treinamento, entre tantas outras. A montagem de um sistema fortalecido como esse, significa fortalecer o sistema como um todo, através das redes colaborativas, centradas na generosidade, na cooperação e no trabalho colaborativo.
Acredito que investir fortemente na formação de professores, nas condições de trabalho e salário, são condições básicas para a mudança que se espera do sistema. O professor tem que ser valorizado enquanto elemento que possa articular essas diversas instâncias na produção do conhecimento e as diferenças trazidas pelos seus alunos. Assim, e somente assim, com o professor retomando o seu papel de liderança científica, cultural, ética, a escola pode assumir a condição de se constituir num efetivo espaço coletivo de culturas e conhecimentos, oferecendo aos filhos dos pobres aquilo que os filhos dos ricos têm em casa, como já foi dito pelo educador baiano Anísio Teixeira, na década de 50 do século passado. Este é, seguramente, um dos desafios fenomenais que temos pela frente, e aqui, todo cuidado é pouco pois os resultados não são imediatos. Mas esses, podem ser importantes passos para a construção de um planeta solidário e sustentável.

24 de mai. de 2007

Práticas de leitura e democratização do conhecimento

Por Lídia Eugenia Cavalcante

Creio que uma das múltiplas possibilidades de se discutir diversidade é a partir de nossas próprias experiências pessoais e coletivas. Nesse sentido, sinto-me privilegiada. Olho a diversidade e vivo a diversidade intensamente como mulher, mãe, educadora, bibliotecária, pesquisadora, funcionária pública, brasileira, cidadã... ufa! Dá até uma certa “canseira”... A contemporaneidade nos trouxe essa faceta de assumirmos vários papéis, ao mesmo tempo, na sociedade. Isto certamente tem ocorrido com uma boa parte das mulheres brasileiras, que assumem muitos papéis cotidianamente, por obrigação ou prazer. Como podemos viver tão intensamente a diversidade feminina...

Por outro lado, o excesso de categorias de análise, metodologicamente, nos leva a uma mistura de variáveis que, muitas vezes, nos faz perder o foco e dificulta a construção de um efetivo posicionamento. Podemos correr o risco de nos “enroscar como gatos em novelos de lã” e fica difícil encontrar o “fio da meada”. Assim, para esse momento, vou me concentrar em participar do debate no âmbito das minhas experiências profissionais. Isto é, no papel de educadora, bibliotecária e pesquisadora.

Numa tentativa de não perder o “fio da meada” da relação entre diversidade e cultura digital, faremos uma reflexão do ponto de vista das práticas de leitura e democratização do conhecimento no universo digital.

O surgimento dos suportes virtuais com seus hipertextos, considerados como “novos” suportes do registro do conhecimento, também apresentam novidades com relação às práticas de leitura, sejam elas físicas ou sociais. Mudam a forma de acesso, conteúdo, veracidade, paginação, visualização, estímulo, processo de interação e transmissão, mediação, pertinência, descobertas e concepção. Nasce daí uma certa ruptura com as formas tradicionais do livro impresso. O leitor segue percursos interativos de leitura, acessa meta-texto, imagens e sons por meio de links, que o convida para muitas viagens interativas. É também continuamente convidado a se tornar “autor” a cada vez que ele relaciona elementos de informação. Não se trata de uma ruptura definitiva entre impresso e digital, já que o texto impresso também permite leituras não lineares, intertextualidade e interatividade, que constroem o vasto conjunto de informações adquiridas pelo leitor. Entre impresso e digital ocorre, na realidade, um forte processo de multiplicação de possibilidades de leituras.

As áreas do conhecimento, de um modo geral, têm transitado por uma forte evolução cientifica, tecnológica e multicultural, que implica algo além do saber acadêmico ou livresco, para o uso do “aprendizado ao longo da vida”, criando uma relação entre informação, educação, conhecimento cientifico e diversidade.

Foi justamente no universo contemporâneo que o mundo se abriu para a emergência de um pensamento complexo, de saberes tão bem apresentados por Edgar Morin, ao descrever a diversidade e a complexidade humanas. No curso das últimas décadas do século passado, observamos radical transformação na socialização histórica e política com relação ao conhecimento e à informação, sobretudo no que se relaciona com o advento de uma sociedade pautada nas inovações culturais, científicas e tecnológicas. O campo informacional, por exemplo, se manifesta para abrigar discussões opostas no centro destas reflexões: como pensar a informação em um contexto de diversidade e complexidade, especialmente se considerarmos a ambiência de espaços geográficos e socialmente interativos?

A sociedade da informação não requer dos indivíduos apenas o acesso à tecnologia para crescer no mundo do trabalho. Com ela aumenta consideravelmente a diversidade cultural e os processos de interação/integração entre os sujeitos, gerando um desafio que é a promoção de vias de desenvolvimento a partir da adoção de formas de pensamento, que se voltam para processos de partilha e troca.

O desenvolvimento econômico e em ciência e tecnologia deve vir acompanhado do contexto cultural e social. Neste sentido, a educação possui papel primordial para unir competências individuais e coletivas por meio de uma linguagem interdisciplinar que, em uma pesquisa, considerará o objeto estudado sob diferentes aspectos, especialidades e teorias. Um exemplo claro para esta afirmação pode ser observado no próprio campo das dimensões epistemológicas que regem os estudos em torno da área tecnológica. Esse fenômeno tem sido observado por especialistas das ciências da informação, historiadores, antropólogos, sociólogos, filósofos e físicos, apenas para citar alguns, com abordagens enriquecidas pelas competências de cada área, levando à riqueza do conhecimento. É como se observássemos um objeto sob diferentes perspectivas e ângulos distintos.

O "cu" da mídia mostra que ela não sabe para quem fala

Por Raphael Prado

Se você chegou até esse espaço de discussão da Diversidade Digital, creio que seja uma pessoa ligada na internet e que, portanto, me poupa da explicação sobre a música e o vídeo "Vai tomar no cu" ( http://www.youtube.com/watch?v=dHpSCHxb780). Um fenômeno repassado no "boca-a-boca" da internet e clicado na casa dos milhares, no YouTube.
Qualidade do humor à parte, o fato é que a mídia não pôde ignorar o vídeo quando a abrangência, na web, fez lembrar a luta do Digg.com contra a publicação do código que quebra a criptografia do HD-DVD. Da Mônica Bergamo e Fernando Rodrigues (sim, o colunista político), na Folha de S.Paulo, a Zeca Camargo, em seu blog no G1, passando pelos portais Terra e UOL, todos deram a notícia. Alguns conversaram com a atriz.
Mas o curioso está em como grafaram a palavra repetida diversas vezes na música. Para o grupo Folha/UOL, trata-se de "c...", padrão também seguido pelo Terra. Diziam, portanto, que o vídeo era "Vai tomar no c...". Zeca Camargo, mais "antenado", desde os tempos de VJ da MTV, não teve medo. Ainda postou o vídeo e viu seus comentários quase triplicarem. Mas a chamada na capa do G1 (que durou muito tempo, aliás; o que sinaliza "boa audiência"), com a impressão de que o espaço era insuficiente para mais, foi "Vai tomar..."
Se o vídeo é mesmo um fenômeno midiático – da nova mídia, claro -, se está nas caixas de e-mail de todos que têm uma caixa de e-mail, se já foi visto pelas crianças de 7 anos que não lêem o jornal – e, portanto, não se preocupam se ele grafa "c..." ou "cu" -, qual a explicação para essa auto-censura? Para quê noticiar algo que, mesmo sem o link, pode ser encontrado em 0,14 segundos no Google (dei-me ao trabalho de fazer o teste), se o pudor da mídia vanguardista não permite expressar o que ele, o vídeo, expressa?
Foi-se o tempo, felizmente, dos leitores de jornal que usavam cartolas, passeavam pelo Anhangabaú em São Paulo, seguravam nas mãos das damas – com luvas - para apoiá-las na descida do bonde e que não podiam mostrar um jornal que tinha impresso a palavra "cu". Felizmente. E não pelo charme da época, mas pela mudança dos tempos. Foi-se.