30 de mai de 2007

Análise, questões e propostas sobre diversidade cultural e o meio digital

Por Fernando S. Trevisan

Faz algum tempo já que a Bianca Santana fez o convite para que eu escrevesse algo e colaborasse com o Diversidade Digital. O convite foi reforçado no Barcamp que aconteceu em Florianópolis, nos dias 19 e 20/maio, quando eu critiquei o "extremo academicismo" dos artigos que havia lido.

Portanto, no intuito de ser justo e de colaborar com algo realmente original, resolvi ler com atenção redobrada o documento que - aparentemente - foi o marco zero deste blog/movimento, bem como os textos já publicados pelos outros colaboradores. Creio que existe algo para adicionar, portanto...

- Crítica à proposta inicial

O DD já inicia com um documento que é uma contradição em termos. Produto de um único acadêmico e ativista político, cita projetos sem nem "linká-los" (como é apontado muito apropriadamente nos comentários); anuncia que busca novas propostas, sendo que volta a bater na velha tecla das iniciativas governamentais e da pesquisa puramente acadêmica para garantia da diversidade. O que salva é que ele é a abertura e o chamado para colaboração, ainda que filtrada por uma "curadoria"... do mesmo autor do documento inicial!

Outro problema claro é que o documento procura inserir diversas bandeiras em uma discussão já cheia de coisas a debater. O que a liberação de freqüências hoje utilizadas pelas TVs - que só deve ocorrer totalmente daqui a uns 5 anos, se não mais - tem exatamente a ver com a diversidade cultural, neste momento? Se queremos aproveitar um seminário que vai acontecer AGORA e apresentar propostas relevantes e concretas, creio ser importante focar no que é possível já.

- A discussão se desenvolve

Os dois artigos imediatamente posteriores, de Cláudio Prado, já começam a dar pistas de outros problemas com a proposta inicial de Amadeu, ainda que de forma dispersa. A ascensão do digital descentraliza, é a realização de uma globalização e "internacionalização" há muito anunciada - e isso pode reforçar e renovar as diversas culturas, desde que elas tenham meios para marcar presença - e Prado enumera o que é necessário, mas cai no mesmo erro de Amadeu, defendendo "rádios e tvs locais e autônomas conectadas em rede".

Ora, a infra-estrutura utilizada para web - desde que garantida a neutralidade da rede - pode e deve ser apropriada para essa presença televisiva e radiofônica, realizando a convergência e a migração de um meio apenas receptivo (a tv e rádio tradicionais) para um meio interativo (a internet, seja em conteúdo de vídeo, som, texto ou multimídia). A diferença é mais que econômica, é de formação, educação e... preservação da diversidade!

Não faltou também quem falasse em "liberdade demais" assim como outros têm medo dos monopólios privados que podem censurar ou restringir o uso de seus serviços. Ana Brambilla, como sempre, faz excelente contraponto, em defesa da liberdade e da colaboração. Marcos Dantas aponta que a tecnologia é meio e ferramenta, não necessariamente criadora de cultura - embora, atualmente, ela também seja isso.

- Das discussões, as questões... e as propostas!

Muitas questões surgem quando paramos para pensar na proposta de diversidade cultural (e digital). A principal, para mim, é: como sustentar? Paulo Lima e Oona Castro vão além da resposta básica "vamos pedir ao papai governo, ele tem que dar a mesada" e apontam soluções: financiamento e subsídios (e aqui o governo pode ajudar, como já vem fazendo) além do "open business".

Não se propõe aqui que a cultura deva ser sempre lucrativa - pois aí correríamos, novamente, o risco de perder a diversidade. A questão é como ir além do apoio governamental ou do uso de serviços privados - que podem esbarrar na ideologia ou no mercantilismo - e permitir que comunidades auto-sustentem sua representação cultural, utilizando meios digitais.

Abandonar as antigas técnicas de transmissão de conteúdo, que não têm interatividade e colaboração, é essencial. As novas gerações - as quais cabe a manutenção de tudo que estamos propondo/criando - não lidam bem com conteúdos impostos, acostumando-se desde cedo com tecnologias interativas.

Assim, faz-se necessário para a preservação digital da cultura, que exista acesso universal a computadores e banda; que isso não seja sustentado apenas por iniciativas governamentais nem apenas por iniciativas privadas, mas que existam meios (Parcerias Público-Privada? Financiamentos? Isenções de impostos?) para que as próprias comunidades sustentem seu acesso, seus equipamentos e também os meios de produção cultural.

É necessário também apropriar-se dos meios já existentes - e aqui cito especificamente os serviços, públicos ou privados - para disseminar essa cultura, ou corremos o risco de novos guetos, agora virtuais.

Mas de nada adianta dar as ferramentas e ter o desejo de apropriar-se do que já existe, se não houver o treinamento para que as comunidades utilizem isso. E aí a iniciativa privada pode ter grande interesse, pois pessoas capacitadas para lidar com tecnologia, web e serviços on-line estão em falta e serão cada vez mais necessárias.

Assim, temos na realidade - e como sempre - no digital a reprodução do real: precisamos de dinheiro, mas de onde? O dinheiro deve ser usado para ferramentas e capacitação - mas como? É o que se discute e se tenta há anos em movimentos sociais, de alfabetização e de políticas de saneamento, entre outros.

A grande diferença do digital é que ele é atrativo, interativo, relativamente barato, automaticamente reciclável (não falando de equipamentos, aqui, mas sim de conhecimentos) e ainda por cima de interesse aos grupos privados. Por que não aproveitar e investir, fazendo com que o digital reflita para o real e aponte soluções a estes outros problemas?

Espero que as críticas tenham sido construtivas e as questões e propostas, úteis...

3 comentários:

Bianca Santana disse...

O documento "Diversidade digital e cultura, versão beta" é,na minha opinião, necessário para formalizar uma posição para o Ministério da Cultura, que tem interesse em saber o que os atores sociais da cultura digital estão pensando. O próprio nome do documento é um convite para que seu conteúdo seja discutido e reelaborado. Até o final da semana uma wiki será aberta para que, partindo das discussões do blog, todos possamos reformulá-lo, de maneira colaborativa.

A falta de linkis no documento, e no início do blog, foi um erro meu que tentei reparar há algum tempo na lista de links, aí do lado. Como sempre repito, se quiserem acrescentar algo ao blog, até links, podem enviar para biancasantana@gmail.com

Sobre a curadoria, e incluo aqui meu papel de animadora, essa foi a proposta inicial do MinC, para fomentar o debate.

E as "novas bandeiras" foram incorporadas aqui na tentativa de agrupar diversos pontos de vista de acadêmicos e ativistas da cibercultura, com o objetivo de abrir o debate, e não fechá-lo no que algum de nós achasse pertinente, para em uma segunda fase fechar o documento. Assim que as datas e a metodologia forem acertadas com o MinC, elas serão divulgadas aqui e na lista de e-mails.

Valeu, Trevisan! E não tenho dúvidas de que todas as opiniões são úteis :)

Fernando S. Trevisan disse...

Bianca, bom ler teu retorno sobre o artigo =) Ainda mais online, que dá pra ter colaboração/debate =D

Quanto ao documento - ainda em versão beta - eu não questionava a necessidade dele, mas sim o fato de que ele não iniciou colaborativo/participativo, ele apenas chamou para essa colaboração.

Foi, como eu coloquei um grande acerto (chamar para a colaboração) mas acho que o documento inicial já poderia ser fruto de colaboração e debate.

O WIKI será muitíssimo bem-vindo e preencherá, decerto, essa lacuna =)

Quanto à falta de links, admito minha falha em identificá-los ao canto... na realidade, nem pensei na possibilidade...!

Por fim, embora eu seja totalmente a favor de uma abertura inicial grande para depois focar (ora pois, o que é um Barcamp, afinal? :), achei que houve mais uma "interferência" de uma bandeira do Amadeu do que propriamente uma abertura, mas não deixa de ser válido e aceito teu contraponto!

Vamos ver o que vira de prático disso tudo, né? :)

Bjs!

Bianca Santana disse...

Depois de um debate produtivo assim, acho que virá algo muito bom :)
Só esqueci de comentar um ponto importante do seu post, Trevisan. Não há filtro feito pela curadoria, ou por mim. Nem para a participação no blog, já que publico o que os participantes pedem, sem cortes. E que o documento iniciado pelo Sérgio, e debatido aqui, será editado por todos nós, na wiki.
beijocas