O Seminário da Diversidade
De 27 a 29 de junho, em Brasília e no endereço http://www.cultura.gov.br/blogs/diversidade_cultural/
Participe!
Desconferências sobre cultura digital para preparar o “Seminário Internacional sobre Diversidade Cultural: práticas e perspectivas”, do Ministério da Cultura em parceria com a Organização dos Estados Americanos
De 27 a 29 de junho, em Brasília e no endereço http://www.cultura.gov.br/blogs/diversidade_cultural/
Participe!
Por Sergio Amadeu da Silveira e Bianca Santana
Agradecemos a todos que participaram deste blog. Questões fundamentais foram aqui lançadas por vários ativistas e pesquisadores.Esperamos que essa articulação continue e que nosso debate ganhe força.
Todos os textos deste blog serão transferidos para o Estúdio Livre. Neste novo host e no grupo de e-mails
A diversidade recombinante é a essência da cibercultura, mas a digitalização da produção simbólica da humanidade é vital para a manutenção da diversidade cultural.
Obrigado!
Este é um texto para ser levado ao "Seminário Internacional sobre Diversidade Cultural: práticas e perspectivas", organizado pelo Ministério da Cultura em parceria com a Organização dos Estados Americanos, que ocorrerá no final de junho,
A convenção da Unesco reconheceu a necessidade de adotar medidas para proteger a diversidade das expressões culturais e enfatizou também a relação estratégica entre cultura e desenvolvimento sustentável. As manifestações e as expressões livres e libertadoras da cultura digital constituem recursos indispensáveis e essenciais para assegurar a diversidade geral das expressões culturais de nossas sociedades.
Reunindo ciência e cultura, antes separadas pela dinâmica das sociedades industriais, centrada na digitalização crescente de toda a produção simbólica da humanidade, forjada na relação ambivalente entre o espaço e o ciberespaço, na alta velocidade das redes informacionais, no ideal de interatividade e de liberdade recombinante, nas práticas de simulação, na obra inacabada e em inteligências coletivas, a cultura digital é uma realidade de uma mudança de era. Como toda mudança, seu sentido está em disputa, sua aparência caótica não pode esconder seu sistema, mas seus processos, cada vez mais auto-organizados e emergentes, horizontalizados, formados como descontinuídades articuladas, podem ser assumidos pelas comunidades locais, em seu caminho de virtualização, para ampliar sua fala, seus costumes e seus interesses.
A cultura digital é a cultura da contemporaneidade. Como bem lembrou o Ministro-hacker Gilberto Gil, em 2004, em uma aula magna na USP, "cultura digital é um conceito novo. Parte da idéia de que a revolução das tecnologias digitais é, em essência, cultural. O que está implicado aqui é que o uso de tecnologia digital muda os comportamentos. O uso pleno da Internet e do software livre cria fantásticas possibilidades de democratizar os acessos à informação e ao conhecimento, maximizar os potenciais dos bens e serviços culturais, amplificar os valores que formam o nosso repertório comum e, portanto, a nossa cultura, e potencializar também a produção cultural, criando inclusive novas formas de arte."
CULTURA DIGITAL, CIBERCULTURA E CULTURA DAS REDES
A maior construção da cultura digital é a Internet que "nasceu da improvável intersecção da big science, da pesquisa militar e da cultura libertária." (CASTELLS) Deixando evidente que desde o início, "o remix é a verdadeira natureza do digital" (GIBSON). O digital é a meta-linguagem da cultura pós-industrial que avança no interior das redes informacionais e para fora delas, do ciberespaço para a atualização em novas sociabilidades. Por isso, a cultura digital é também a cibercultura e representa o novo estágio da cultura de rede.
A cibercultura então pode ser compreendida como "a forma sociocultural que emerge da relação simbiótica entre a sociedade, a cultura e as novas tecnologias de base micro-eletrônica que surgiram com a convergência das telecomunicações com a informática na década de 70." (LEMOS) Ela também é "o movimento histórico, a conexão dialética, entre sujeito humano e suas expressões tecnológicas, através da qual transformamos o mundo e, assim, o nosso próprio modo de ser interior e material em dada direção (cibernética)". (RÜDIGER).
A Convenção sobre a Proteção e a Promoção da Diversidade das Expressões Culturais (Convenção da Diversidade) definiu que "expressões culturais são aquelas que resultam da criatividade de indivíduos, grupos e sociedades e que possuem conteúdo cultural". Assim, pensaremos neste texto as expressões culturais da cibercultura e sua relação com a diversidade em geral.
Todos os nove objetivos da Convenção da Diversidade, relatados a seguir, têm relação direta com o desenvolvimento atual da cultura digital. São objetivos definidos pela Convenção:
a) proteger e promover a diversidade das expressões culturais;
b) criar condições para que as culturas floresçam e interajam livremente em benefício mútuo;
c) encorajar o diálogo entre culturas a fim de assegurar intercâmbios culturais mais amplos e equilibrados no mundo em favor do respeito intercultural e de uma cultura da paz;
d) fomentar a interculturalidade de forma a desenvolver a interação cultural, no espírito de construir pontes entre os povos;
e) promover o respeito pela diversidade das expressões culturais e a conscientização de seu valor nos planos local, nacional e internacional;
f) reafirmar a importância do vínculo entre cultura e desenvolvimento para todos os países, especialmente para países em desenvolvimento, e encorajar as ações empreendidas no plano nacional e internacional para que se reconheça o autêntico valor desse vínculo;
g) reconhecer a natureza específica das atividades, bens e serviços culturais enquanto portadores de identidades, valores e significados;
h) reafirmar o direito soberano dos Estados de conservar, adotar e implementar as políticas e medidas que considerem apropriadas para a proteção e promoção da diversidade das expressões culturais em seu território;
i) fortalecer a cooperação e a solidariedade internacionais em um espírito de parceria visando, especialmente, o aprimoramento das capacidades dos países em desenvolvimento de protegerem e de promoverem a diversidade das expressões culturais.
A DIVERSIDADE É A ESSSÊNCIA DA CIBERCULTURA
Uma das principais hipóteses de Pierre Lévy é que a cibercultura expressa o surgimento de um novo universal, diferente das formas culturais que vieram antes dele, já que ele se constrói sobre a indeterminação de um sentido global qualquer. Ou seja, a cibercultura abriga pequenas totalidades, "mas sem nenhuma pretenção ao universal". Podemos dizer que seu fundamento é a própria diversidade. Uma diversidade em contínua construção.
Entre as maiores expressões do ativismo cibercultural está o movimento conhecido como Metareciclagem. Avesso a qualquer totalização, o Metareciclagem constrói vínculos entre tecnologia e arte sem modelos predeterminados, de modo distribuído, sem imposições. Outro exemplo é o Estúdio Livre que trabalha um conceito de ambiente colaborativo, em constante desenvolvimento, que busca formar espaços reais e virtuais que estimulem e permitam a produção, a distribuição e o desenvolvimento de mídias livres. Todas as ferramentas deste ambiente são baseadas nos conceitos de software livre, conhecimento livre e apropriação tecnológica pelas comunidades de usuários.
Segundo a Convenção da Unesco, "diversidade cultural refere-se à multiplicidade de formas pelas quais as culturas dos grupos e sociedades encontram sua expressão. Tais expressões são transmitidas entre e dentro dos grupos e sociedades. A diversidade cultural se manifesta não apenas nas variadas formas pelas quais se expressa, se enriquece e se transmite o patrimônio cultural da humanidade mediante a variedade das expressões culturais, mas também através dos diversos modos de criação, produção, difusão, distribuição e fruição das expressões culturais, quaisquer que sejam os meios e tecnologias empregados."
A expansão da cultura digital confunde-se com a expansão da Internet.
Mas a Internet foi construída sob forte influência da cultura hacker e, por isso, guarda seus traços, nos quais devemos destacar a liberdade de criação e a idéia de compartilhamento. Este espírito aberto permitiu construir o maior repositório de informações que a humanidade jamais viu. A cultura hacker gerou uma rede das redes e não uma rede única, uma rede absoluta. A diversidade dentro da colaboração foi e é um enorme feito dos arquitetos da Internet. Mas a Internet ganhou importância econômica e política e agora está sob constante ataque. Grupos e corporações gigantescas do mundo industrial querem conter a expansão da rede como um espaço de liberdade para o conhecimento e para a criação e recombinação digital da cultura. As tecnologias da informação são ambíguas. Servem ao controle e à liberdade, ao aberto e ao opaco. A cibercultura se realiza dentro deste terreno
DIVERSIDADE É RECOMBINANTE
O coletivo de mídia tática Critical Art Ensemble tem trabalhado desde o final do século XX com sua crítica profunda aos limites à criatividade impostos pelo sistema. Se Vannevar Bush havia nos alertado de que as nossas mentes pensam por associação, não seria estranho supor que nossa cultura realiza-se também por conexão, por constantes recombinações. De modo suficientemente claro, no texto Distúrbio Eletrônico, o Critical Art Emsemble conclama: "Deixemos que as noções românticas de originalidade, genialidade e autoria permaneçam, mas como elementos para a produção cultural sem nenhum privilégio especial acima dos outros elementos igualmente úteis. Está na hora de usarmos a metodologia da recombinação para melhor enfrentarmos a tecnologia do nosso tempo."
A diversidade depende da liberdade dos fluxos e a criatividade precisa estar desimpedida para adotar todo o potencial da interatividade que é o devir da hipertextualidade e está presente em toda a expansão da web. Uma web que caminha cada vez mais para constituir-se de múltiplas práticas colaborativas. Alex Primo, ao analisar o aspecto relacional das interações na Web 2.0, esclareceu que "a interação social é caracterizada não apenas pelas mensagens trocadas (o conteúdo) e pelos interagentes que se encontram em um dado contexto (geográfico, social, político,temporal), mas também pelo relacionamento que existe entre eles. Portanto, para estudar um processo de comunicação em uma interação social não basta olhar para um lado (eu) e para o outro (tu, por exemplo). É preciso atentar para o "entre": o relacionamento. Trata-se de uma construção coletiva, inventada pelos interagentes durante o processo, não podendo ser manipulado unilateralmente nem previsto ou determinado".
O relacionamento recombinante é conflituoso e seu sentido é imprevisível, pois a linkagem aberta ou a co-linkagem garante a liberdade e a infinita disputa de caminhos e trilhas. Mas isso é vital para a diversidade. O princípio da Convenção da Unesco de igual dignidade e respeito por todas as culturas precisa incorporar o mesmo tratamento para as culturas recombinantes, para as ciberculturas. Nunca é demais lembrar das idéias de George P. Landow, um dos grandes estudiosos do hipertexto: "Las concepciones de autoría guardam uma estrecha relación com la forma de tecnología de la información que prevalece em un momento dado, y, cuando esta cambia o comparte su dominio com otra, también se modifican, para bien y para mal, las interpretaciones culturales de autoria."
A DEFESA DO ACESSO PARA ASSEGURAR AS POSSIBILIDADES DE DIGITALIZAÇÃO DAS EXPRESSÕES CULTURAIS
Alejandro Piscitelli argumenta que a "Internet fue el primer medio masivo de la historia que permitió uma horizontalización de las comunicaciones, uma simetria casi perfecta entre producción y recepción, alterando em forma indeleble la ecologia de los medios." Este enorme feito democratizante não conseguiu ainda reverter as tendências concentradoras que se ampliam com as assimetrias sócio-econômicas. Javier Bustamante Donas, ao discutir a relação entre a cibercultura e a ecologia da comunicação, afirmou que "el acceso a Internet y su uso como vehículo de transmisión de ideas y de comunicación personal va sin duda a establecer nuevos criterios de diferenciación social entre los ciudadanos de la nueva cibercultura. Individuos, empresas, colectivos sociales que no tengan acceso por razones económicas, técnicas o de rechazo psicológico, se encontrarán en una posición precaria a la hora de definir su presente y su futuro."
Não podemos privar as comunidades locais, tradicionais ou não, bem como os artistas e produtores culturais da possibilidade de migração de sua produção simbólica para o interior da redes, para o ciberespaço. Para assegurar que a expressão das idéias e manifestações artísticas possam ganhar formatos digitais e, também, para garantir que os grupos e indivíduos possam criar, inovar e re-criar peças e obras a partir do próprio ciberespaço, são necessárias ações públicas de garantia de acesso universal à rede mundial de computadores. Sem inclusão digital de todos os segmentos da sociedade, a cibercultura não estará contemplando plenamente a diversidade de visões, de expressões, de comportamentos e perspectivas.
Bem alertou-nos Javier Bustamante que "sin una pluralidad de fuentes no se puede hablar de libertad de pensamiento, conciencia o religión. Sin acceso a medios de alcance internacional no tiene sentido hablar de libertad de opinión y de difusión de las mismas sin limitación de fronteras". Por isso, a cultura da diversidade digital é ampliada pelas práticas de compartilhamento de conhecimento, de tecnologias abertas, de expansão de telecentros, de oficinas de metareciclagem, de pontos de cultura. Essas iniciativas precisam ser amplificadas, uma vez que executam o princípio do acesso eqüitativo presente na Declaração da Unesco: "O acesso eqüitativo a uma rica e diversificada gama de expressões culturais provenientes de todo o mundo e o acesso das culturas aos meios de expressão e de difusão constituem importantes elementos para a valorização da diversidade cultural e o incentivo ao entendimento mútuo".
Quanto maior a inclusão digital da sociedade, maiores serão as possibilidades da diversidade cultural. Quanto maior a liberdade para as práticas colaborativas na rede, wikis, softwares livres, ações P2P, blogs, espectro aberto, mais extensa será sua inteligência coletiva criativa.
REALIDADES ALTERNATIVAS, SIMULAÇÕES E MÚLTIPLAS IDENTIDADES
A cultura digital envolve a simulação, as realidades virtuais e as realidades alternativas. Ciborgues não são somente metáforas, como nos ensinou Donna Haraway. A crise das identidades que ocorria já nas sociedades industriais evoluiu para um cotidiano pendular entre identidades ausentes e anonimato, de um lado, e múltiplas identidades, de outro.
Jogos em rede envolvem milhões de pessoas, avatares se enfrentam e se articulam em um cenário virtual onde também estão inseridas as diversas comunidades virtuais de relacionamento, e que criam caminhos de mão dupla virtual-atual e presencial-ciberespacial.
Nesse cenário, de ausentes e múltiplos, de choque de sociabilidades, é que também devemos enfatizar o papel das identidades únicas e das identidades étnicas. A riqueza da diversidade dependerá do fortalecimento de diversos elementos constitutivos das identidades coletivas que compõem uma cultura. A Convenção da Unesco recordou "que a diversidade lingüística constitui elemento fundamental da diversidade cultural". Então, a diversidade digital exige a produção de conteúdo em diversas línguas e dialetos em sites, portais, na blogosfera, na videosfera e nos ambientes de realidade alternativa.
ASSEGURAR A LIBERDADE DOS FLUXOS, DO CONHECIMENTO E DA CRIAÇÃO
Eugenio Trivinho nos alertou que "ao mesmo tempo que a miniaturização das tecnologias comunicacionais permite o maior poder de movimentação nas cidades reais, materiais, gera também um maior efeito de ilusão de liberdade. Para evitar confusão: um contexto histórico que confere mobilidade corporal assistida pela potência da comunicação à distância nem por isso concede maior liberdade aos indivíduos, ou uma liberdade genuína, isenta de constrangimentos, coações e controles". (112-113) No cenário da cibercultura, a liberdade exige arquiteturas abertas aos fluxos de conhecimento. Nunca foi tão possível compartilhar conhecimento quanto na era das redes informacionais.
Nunca foi tão rápido, barato e fácil trocar informações. Os economistas da informação sabem que o principal insumo da informação é a própria informação. A matéria-prima do conhecimento é a própria informação codificada ou conhecimento. A informação não possuí as restrições limitadoras dos bens materiais. Informações, desconhecem a escassez e o desgaste no uso. Podem ser usadasde modo ilimitado e reproduzidas a custo zero.
Exatamente estas características inerentes aos bens informacionais, ou seja, as informações é que são combatidas pelos gigantes da era industrial. Buscam realizar uma cruzada pelo enrijecimento das leis de propriedade das idéias, por criminalizar o compartilhamento de idéias, de algoritmos e de criações artísticas. Invadem centros acadêmicos à procura de cópias xerox de livros e retrocedem na interpretação do uso justo do conhecimento.
Esses guerreiros da propriedade privada das idéias, esquecem que, ao contrário dos bens materiais, o conhecimento cresce quando é compartilhado. Provavelmente desconsideram a brilhante explicação de George Bernard Shaw, dramaturgo e crítico literário irlandês: "Se você tem uma maçã e eu tenho uma maçã e trocarmos estas maçãs, então eu e você teremos ainda apenas uma maçã. Mas se eu tenho uma idéia e você tem uma idéia, e trocarmos nossas idéias, então cada um de nós terá duas idéias".
A cibercultura para avançar precisa derrubar as barreiras da liberdade de conhecimento. As redes não podem ser malhas de uma "informática da dominação", termo bem cunhado por Donna Haraway. A biotecnologia não deveria construir seu caminho baseando-se na modelo de negócios dos alimentos transgênicos, que buscam controlar, por meio de patentes, o conhecimento sobre as formas de reprodução da vida. A opacidade dos códigos (softwares, protocolos e padrões) é grave. Como bem alertou-nos o jurista Lawrence Lessig, "no ciberespaço o código é a lei".
Lessig ao analisar como a grande mídia usa a tecnologia e a lei para bloquear a cultura e controlar a criatividade, escreveu que a "oportunidade para criar e transformar está enfraquecida em um mundo no qual a criação depende de permissão judicial, e a criatividade precisa sempre consultar um advogado." (183) Para evitar uma anemia cultural generalizada promovida pelas tentativas de controlar privadamente o conhecimento e a cultura é que crescem mobilizações como o Creative Commons, um movimento de licenciamento que busca reequilibrar o cenário de propriedade intelectual, dando maior espaço às características básicas da cultura digital, entre elas a recombinação, o sampling, a liberdade de cópia.
A ECONOMIA DA CIBERCULTURA É BASEADA NO RELACIONAMENTO E NÃO NA PROPRIEDADE
John Perry Barlow, letrista, músico, ciberativista, autor do Manifesto de Independência do Ciberespaço, fundador da Eletronic Frontier Foundation, escreveu os princípios da economia de uma cultura digital, de uma cibercultura. Barlow captou a tendência de a economia se basear cada vez mais
Ele escreveu que "a maioria de nós vive hoje graças à inteligência, produzindo 'verbos', isto é, idéias, em vez de 'substantivos', como automóveis e torradeiras.(...) Médicos, arquitetos, executivos, consultores, advogados: todos sobrevivem economicamente sem serem 'proprietários' de seu conhecimento [...] É um consolo saber que a espécie humana conseguiu produzir um trabalho criativo decente durante os 5.000 anos que precederam 1710, quando o Estatuto de Anne, a primeira lei moderna de direitos autorais, foi aprovada pelo Parlamento Britânico. Sófocles, Dante, da Vinci, Botticelli, Michelangelo, Shakespeare, Newton, Cervantes, Bach – todos encontraram motivos para sair da cama pela manhã, sem esperar pela propriedade das obras que criaram".
Sua conclusão é empiricamente consistente: "Mesmo durante o auge do direito autoral, conseguimos algo bastante útil de Benoit Mandelbrot, Vint Cerf, Tim Benners-Lee, Marc Andreessen e Linus Torvalds. Nenhum deles fez seu trabalho pensando nos royalties. E há ainda aqueles grandes músicos dos últimos cinqüenta anos que continuaram fazendo música mesmo depois de descobrir que as empresas fonográficas ficavam com todo o dinheiro [...] relacionamento, junto com serviço, é o centro daquilo que suporta todo tipo de "trabalhador moderno do conhecimento".
Na economia digital colaborar é mais eficiente que simplesmente competir. Um número crescente de empresas está percebendo as enormes vantagens das práticas colaborativas para a inovação e a manutenção de seus negócios. As redes informacionais viabilizam novas práticas sociais e de geração de riquezas que eram difíceis e até impossíveis de se implementar na chamada era industrial.
O professor de direito da Universidade de Yale, Yochai Benkler, no livro The Wealth of Network, disponível na web, demonstrou que uma série de mudanças nas tecnologias, na organização econômica e na produção social estão criando novas oportunidades e possibilidades de produzir informação, conhecimento e cultura. Essas mudanças, segundo Benkler, estão ampliando o papel da produção não-proprietária e colaborativa, realizada por indivíduos isolados e por esforços cooperativos de milhares de pessoas. É o caso, por exemplo, do desenvolvimento de software livre, uma típica criação da cultura digital.
O modelo de desenvolvimento e uso de software livre se baseia na colaboração. Programas de computador extremamente complexos são criados e mantidos por comunidades de interessados. Um dos seus maiores exemplos, o GNU/Linux, é um sistema operacional livre, mantido por aproximadamente 150 mil pessoas espalhadas pelo planeta. Como todo e qualquer software, o GNU/Linux precisa ser atualizado constantemente para acompanhar a evolução dos computadores e demais softwares. Antes que uma nova versão do GNU/Linux seja considerada estável, ela é testada e corrigida por uma comunidade gigantesca de apoiadores. As chances de ter suas falhas mais rapidamente encontradas e superadas é bem maior do que no modelo proprietário e fechado. A qualidade das versões está diretamente vinculada à quantidade da inteligência coletiva agregada na rede mundial de computadores. Sem dúvida, a coordenação do processo é o elemento mais sensível e complexo das práticas colaborativas em rede.
O que cada colaborador doa, em tempo de trabalho, para o desenvolvimento do GNU/Linux é bem menor do que obtém de retorno. Essa lógica levou ao antigo Big Blue, a IBM, e outras grandes corporações a apostarem no desenvolvimento colaborativo. Apache é um dos maiores sucessos mundiais do software livre. Ele serve para hospedar páginas da web e está presente em mais de dois terços dos servidores web do planeta. Imbatível. Obteve esta posição sem gastar um centavo
CULTURA DIGITAL E CIBERESPAÇO: AS FRONTEIRAS COM OS ESTADOS-NAÇÃO
A Internet carrega e conecta os fluxos da cultura digital, transitando pelas diversas infra-estruturas dos países controlados por Estados nacionais. Todavia, a rede é transnacional. Construída sob forte influência da cultura hacker para ser livre, conectada por protocolos de comunicação que buscam manter liberadas as vias de compartilhamento de dados e interação de informações. A internet é o corpo do ciberespaço.
Mas os tempos de globalização, de auge das tentativas de desmonte geral do que é público, de prevalência do privado, de expansão do consumismo totalitário, do desrespeito ao local e às culturas tradicionais, gerou fortes reações, algumas de reprodução em larga escala da intolerância. Reforçou-se o cenário de ambivalências. Estados Nacionais poderosos e megacorporações tentam criar condições para controlar os fluxos das redes, a Internet. Totalitários de plantão reúnem argumentos para interferir nos protocolos, na independência de cada uma das camadas que compõem a rede, para vigiar os pacotes de informação, para manter ditaduras ou níveis de lucratividade. Tanto faz!
O ciberespaço precisa ser livre. O acesso precisa ser livre. A navegação precisa ser livre. A governança da Internet é também a governança do ciberespaço. Ela não pode representar um retrocesso nas liberdades conquistadas, do contrário, teremos ataques à criatividade, ao compartilhamento de informações, à diversidade de manifestações e expressões da cultura digital. A defesa da diversidade digital passa pela defesa de um modelo de governança da rede que seja multistakeholder, que garanta o peso devido às organizações da sociedade civil mundial de interesse público, que assegure uma cidadania digital global, que mantenha as liberdades fundamentais do homem.
O importante princípio da soberania nacional inserido na Convenção da Unesco não pode ser usado para anular o princípio da abertura e do equilíbrio, segundo o qual "ao adotarem medidas para favorecer a diversidade das expressões culturais, os Estados buscarão promover, de modo apropriado, a abertura a outras culturas do mundo e garantir que tais medidas estejam em conformidade com os objetivos perseguidos pela presente Convenção".¨
COMO APOIAR A CULTURA DIGITAL NA PERSPECTIVA DA DIVERSIDADE. QUAIS OS PARAMETROS PARA POLÍTICAS PÚBLICAS ADEQUADAS?
É necessário estruturar políticas públicas que incentivem a cultura digital.
Os fundos de tecnologia e telecomunicação devem assegurar linhas especiais de pesquisa e de produção de tecno-arte, de tecnologias abertas e livres. Devem estudar formas jurídicas adequadas para o financiamento de projetos de coletivos tecnológicos, tais como para as comunidades de software livre, de meta-reciclagem, de midia-ativismo e cibercultura, bem como, os coletivos de conexão cooperativa.
É preciso assegurar a capacitação e autonomia teconológica de indivvíduos e comunidades para que tenham recursos para portar seus conteúdos para a rede informacional. Daí a importância decisiva dos estúdios livres de cibercultura.
É fundamental construir uma política de convergência digital para o que é comum, para a sociedade civil, para digitalizar as rádios e TVs comunitárias, para garantir experimentos comunitários de conexão aberta.
É preciso estimular produção de mídias colaborativas em instituições de educação e cultura no sentido de ampliar a prática de expressão escrita, audiovisual e multimídia da cultura, como ainda produzir relacionamentos e redes sociais.
É essencial a infra-estrutura de acesso universal e gratuito à internet via banda larga como política pública. Isso para ampliar que novos produtores de cultura possam disponibilizar suas criações no universo das redes digitais.
É importante incentivar a expansão das cidades digitais.
É vital garantir que sejam expandidas as faixas de frequência do espectro radioelétrico para uso comum, para Rádios e TVs locais autônomas conectadas
É preciso incentivar a produção de conteúdos digitais para a mobilidade, para o cenário de realidades alternativas, jogos em rede e digitalização crescente do broadcasting, bem como, para a expansão das webTVs distribuídas.É preciso incentivar o crescimento do domínio público, bem como, garantir a liberdade para o conhecimento e a cultura.
É necessário estimular a produção de ambientes agregadores da diversidade da cultura digital, mas que sejam criados e administrados pelos próprios usuários.
É importante estabelecer encontros (na forma de seminário, barcamp, wordshop etc) para ocupar a cidade com conteúdos e linguagens provenientes da cultura digital, compreender e discutir a Cultura Livre, ao mesmo tempo, para reforçar a participação social nos espaços públicos da cidade.
COMO GARANTIR A EXPANSÃO DA PESQUISA DA CIBERCULTURA?
O Ministro da Cultura Gilberto Gil, na aula inaugural que realizou na USP, no dia 10 de agosto de 2004, afirmou que "é hora de a pesquisa científica acerca da cultura conquistar novos vôos, ganhar maior consistência, rigor e autonomia.
É preciso pensar a universidade também como um 'locus' da cultura, seja das expressões artísticas, seja da difusão, ou reflexão, ou da preservação." Nesse sentido, é preciso pensar propostas que garantam a ampliação da pesquisa da cultura digital.
É preciso articular mais pesquisas básicas e experimentais, multidisciplinares, que ampliem a compreensão das tecnologias de informação e comunicação em um contexto de redes e da cultura digital.
É preciso criar nós e articulações mais freqüentes entre os vários atores e pesquisadores de cibercultura.É preciso incentivar redes de pesquisa da cultura digital.
É preciso criar encontros, desconferências, festivais, prêmios e incentivos à pesquisa da cibercultura e sua relação múltipla com diversos contextos.
POR UM PACTO PELA LIBERDADE PARA O CONHECIMENTO E A CRIAÇÃO
A cultura digital é a cultura que trabalha com a plena criatividade. Não está limitada ao ideal romântico de originalidade exclusiva, espalha-se pela idéia de recombinação, de remixagem, de fusão, de derivação, de destruição de todos os entraves à criação, de obra contínua, ilimitada, fundamentalmente aberta. Trata da novidade e da reconfiguração. Cultiva a colaboração e o compartilhamento tal como o antigo ideal científico. A ciência pouco avançaria se não fosse ela própria cumulativa e recombinante. A cultura digital é a aproximação da ciência e da cultura, mediada pelas tecnologias informacionais.
A liberdade para o conhecimento, a transparência para os códigos que intermedeiam a comunicação humana, a criação sem entraves, a superação da mercantilização totalitária da cultura, as possibilidades simuladoras e emancipadoras do ciberespaço são fundamentos que devemos defender se quisermos um mundo de riqueza da diversidade.
Cultura digital, anti-totalitária, depende da liberdade para o conhecimento e para a criação.
Por Oriana Persico e Salvatore Iaconesi
FreeSoftware (and everything “free” in philosophy, meaning free from patents, licenses, copyrights..) can be considered as an enabling tool that can be used to obtain know-how on accessible technologies. In this role it is mainly used to produce multimedia content and to produce/provide immaterial production and services.Lembrando que hoje, 15/6, devemos finalizar a edição do documento a ser entregue para o Ministério.
Por Rafael Evangelista
Não. Afirmar a existência de uma "cultura própria", mesmo que digital, é algo forte demais. O que dá para afirmar, em lugar disso, é a criação,uso e propagação de certos sinais, hábitos, regras, que derivam da interação dessas pessoas nesse novo ambiente. E outro porém: ambiente digital não é uma coisa só. Dependendo das regras de interação estabelecidas por aqueles que controlam ou gerenciam o ambiente podem surgir práticas e regras implícitas diferentes. Por exemplo, podemos comparar os sistemas de compartilhamento de música.Um deles, o SoulSeek/Nicotine, tornou-se o espaço de interação decolecionadores de música, pessoas com gostos musicais diversos mas bastante específicos, admiradores de gêneros. É provavel que essas pessoas tenham ocupado esse espaço devido às regras do sistema de trocas de arquivos, que privilegiam a conversa entre usuários e a possibilidadede se visualizar a coleção de músicas dos colegas virtuais. Ao mesmo tempo, as regras foram ganhando esse desenho também por demanda dos usuários, que tem o perfil descrito. Outro exemplo, oposto, é o BitTorrent. Aqui o privilégio é dado a arquivos grandes e à velocidade. Assim, quem usa desse espaço em geral que baixar arquivos velozmente, se dispõem a compartilhar por longos períodos de tempo e, em geral, se interessa por arquivos grandes (como filmes ou discografias completas).Difícil dizer que isso forma uma cultura digital própria, são práticas de uso que variam.
Por Alfredo Manevy
O digital – em seu infinito desdobrar-se em uma matéria próxima do imaterial – parece ser o que há de mais inovador na produção estética contemporânea, se ouvirmos e olharmos para os novos grupos que acessam o cinema pelas câmeras de bolso, pelos celulares e sua telepática transferência de conteúdo, ou dos grandes cineastas que renovam seu estilo usando o digital como uma ferramenta de depuração ou manipulação de grãos pictóricos e fotográficos. É aliada do realismo ou do artificialismo: não uma ideologia, mas uma diversificação de meios, uma tecnologia propiciadora da crise total do sujeito e do olhar canônico herdado da tradição ocidental, e uma reestruturação das relações com o mais ocidental dos princípios de emancipação que herdamos do renascimento e do eurocentrismo, que hoje se auto-fagocita. O digital afeta a produção contemporânea em sua estética e em seu modo de produção e distribuição. Ele recria suas condições gerais. Torna os direitos de autor tão importantes quanto os deveres de autor. Ou seja, os direitos culturais são tão importantes quanto os direitos dos investidores materiais, tão importante quanto afirmar o acesso ao repertório cultural como direito social fundamental para o século XXI. É o que pode-se chamar de uma transformação estrutural, ou uma revolução, na medida em que a reprodutibilidade ( que o sábio Benjamin identificou como o desestabilizador
da sensorialidade pré-moderna) torna-se o meio positivo de rearranjo necessário da nova desordem, uma desmedida regulada por milhões de fontes reguladoras, porém mais flexíveis e dispersas, onde urge surigrem novas instituições culturais que cristalizem-se como discursos e formas. A digitalização da infra-estrutura tradicional de redes físicas surge como uma
forma reguladora flexível e porosa à demanda cultural.
Por Fábio Malini
A profusão da riqueza da diversidade da cultura digital faz minar, a cada dia, o quase finado conceito de homogeneização, proveniente da sociedade de massa. Na verdade, se há um traço peculiar no interior da cultura digital é o fato dela nascer e se desenvolver para arrebentar, de uma vez por todas, qualquer resquício da cultura de massa. Em especial, fazer com que toda e qualquer tentativa de docilização dos corpos e mentes seja espinafrada através de mobilizações nas redes virtuais.A conversa sobre diversidade e cultura digital de ontem está disponível na íntegra em:
http://estudiolivre.org/el
Até o final da semana o vídeo editado estará aqui.
Lembrando que temos até sexta (15/6) para fechar o documento a ser entregue para o Minc.
Participe da conversa sobre cultura digital e diversidade: hoje, segunda-feira (11/6), às 19h.
Em São Paulo: casinha do Estúdio Livre (rua Luminárias, 243, subindo a escada, Vila Madalena)
Pela web: bate-papo no irc.freenode.org, canal #metareciclagem
stream no http://estudiolivre.org:8000/gambiarra
Por Rafael Evangelista
Por Sérgio Amadeu
Felipe Machado é um ativista-criativo do Estúdio Livre. Já estivemos juntos em vários eventos. Ele publicou um texto no seu blog(http://originaldosample.wordpress.com/) que vale a pena ser lido. Ajuda muito no debate da diversidade cultural. O texto chama-se "Existe cultura além do digital?" Foi editado por Maíra Brandão, Geraldo Magela e pelo próprioFelipe Machado.
Até o dia 15/6 (sexta-feira), precisamos fechar o documento "Diversidade e Cultura Digital". O prazo é necessário para que ele seja traduzido e divulgado a tempo de entrar no Seminário Internacional sobre Diversidade Cultural, que acontece de 27 a 29 de junho , em Brasília.
Por Juliano Spyer
O que vou falar a seguir é resultante de algumas leituras e reflexões, mas não é o resultado de uma pesquisa formal e foi escrito rapidamente, em função do desejo de contribuir com essa discussão mas tendo que dar conta de outras obrigações.
Quando a Internet apareceu, em meados dos anos 1970, como veículo de comunicação em rede, ela parece ter se moldado a partir de duas visões.
1) Uma procurava uma maneira de gerenciar o pensamento dentro de escritórios, de oferecer ferramentas para a execução mais eficiente de tarefas objetivas. Softwares como os da família Lotus seriam consequência desse "projeto de Internet".
2) Dentro dos círculos acadêmicos, especialmente nos Estados Unidos, a Internet representou um veículo de comunicação questionador de hierarquias e convenções por facilitar a circulação de informação e a criação de conhecimento. O termo "comunidade virtual", de reinghold, reflete essa visão classificada de "tecno-utópica", experimentada em projetos como o WELL.
Os ecos dessa tensão entre a ferramenta que escraviza, "tayloriza", e a que liberta, alforria a criatividade, continuam presentes hoje nos discursos de quem defende, por um lado, o monitoramento da Internet e, por outro, daqueles que se opuseram à abertura da rede para empreendimentos comerciais e dos defensores ideológicos do open source. De um lado, a plataforma cooperativa, que fortalece o poder instituído, que serve para a realização de tarefas definidas e com a proposta de tornar o trabalho mais eficiente. De outro, a ferramenta colaborativa, aberta, onde a participação é mais flúida e desinstitucionalizada, sem metas definidas, e que favorece a produção individual. De um lado a economia monetarizada, de outro, a utilização de formas alternativas de estímulo à produção.
Em The Wealth of Networks, Yochai Benkler sugere que a Web tenha aberto uma oportunidade para a renegociação de valores, e que essa renegociação tem o prazo de 20 anos para expirar. Depois disso, a sociedade voltará ao equilíbrio até que outro abalo provocado por tecnologia, desastres naturais, crises econômicas ou guerras forcem a uma nova reorganização das forças e dos valores no planeta.
Seguindo essa argumentação, eu vejo a Internet como uma ferramenta que serve para a criação coletiva da maior biblioteca aberta da história, a wikipedia, e também para o estabelecimento de redes de articulação entre pedófilos e grupos que controlam a prostituição infantil na Europa do Leste, na Ásia e no nordeste brasileiro. (Em Copacabana, eu vi este ano um hotel de luxo que faz parte da rota do turismo sexual.) A Web abre o canal de comunicação e ao mesmo tempo fomenta a diversidade e também o racismo, o ódio social e a violação de privacidade. Ela desestabiliza, permite a renegociação, mas não indica um caminho, não representa a solução.
Concluo compartilhando com vocês as últimas linhas da introdução do The Weath of Networks - integralmente disponível online em http://www.benkler.org/wealth_of_networks/index.php/Main_Page - e recomendando a leitura desse livro, que pode servir de guia para realizarmos um debate bastante rico e produtivo sobre o tema proposto:
This book is offered, then, as a challenge to contemporary liberal democracies.
We are in the midst of a technological, economic, and organizational transformation that allows us to renegotiate the terms of freedom, justice, and productivity in the information society.
How we shall live in this new environment will in some significant measure depend on policy choices that we make over the next decade or so.
To be able to understand these choices, to be able to make them well, we must recognize that they are part of what is fundamentally a social and political choice - a choice about how to be free, equal, productive human beings under a new set of technological and economic conditions.
As economic policy, allowing yesterday's winners to dictate the terms of tomorrow's economic competition would be disastrous.
As social policy, missing an opportunity to enrich democracy, freedom, and justice in our society while maintaining or even enhancing our productivity would be unforgivable.
Por Pedro Paranaguá
A proprıedade ıntelectual pode lımıtar a dıversıdade cultural. Nao é, contudo, o únıco fator que pode lımıtar a dıversıdade cultural.
Se estamos falando especıfıcamente sobre dıversıdade cultural, falamos então do ramo específıco de proprıedade ıntelectual denomınado dıreıtos autoraıs. A prımeıra leı de dıreıtos autoraıs (copyrıght, na verdade) foı crıada em 1710, na Inglaterra, justamente para lımıtar o poder dos monarcas que, naquela época, concedıam monopólıos eternos, portanto sem lımıte no tempo, de forma arbıtrarıa. Era um monopólıo para cópıa: dıreıto de cópıa. Pela prımeıra vez então temos os dıreıtos autoraıs lımıtados no tempo (14 anos). E como o título da então nova leı dızıa, era um "ato para o encorajamento do aprendızado". Ou seja, o objetıvo dos dıreıtos autoraıs era justamente de promover a crıatıvıdade, o aprendızado, a cultura, a dıversıdade cultural. Em 1974 a Organızação Mundıal da Proprıedade Intelectual (OMPI) assınou um acordo com a ONU e passou a ser maıs uma das agêncıas especıalızadas da ONU. O acordo preve que a OMPI deve não apenas proteger a proprıedade ıntelectual (marcas, patentes, dıreıtos autoraıs, software etc.), mas sım que a proprıedade ıntelectual deve servır como meıo para se chegar ao desenvolvımento econômıco, socıal e cultural. Portanto, o objetıvo prımordıal, não apenas da OMPI, mas sım da proprıa proprıedade ıntelectual é promover a crıatıvıdade e o desenvolvımento econômıco, socıal e cultural, bem como a dıversıdade cultural.
Mas nao é ısso que temos vısto. Vemos as grandes ındústrıas, como a Hollywoodıana, por exemplo, que domına 85% do mercado global de fılmes, tentando ımpor seus produtos para o restante do planeta. Por ısso que foı crıado recentemente o acordo sobre dıversıdade cultural da UNESCO: para garantır que o poder de taıs ındústrıas não anıquıle outras culturas. Para garantır que a globalızação nao acabe com a rıqueza da dıversıdade cultural que aında exıste no planeta. Para garantır que não sejamos massıfıcados por uma únıca cultura. E para garantır que nem sempre as produções culturaıs devem ser tratadas como produtos puramente comercıaıs.
Por Gilson Schwartz
Em primeiro lugar, financiamento. Em segundo, mas não menos importante, um aprimoramento e sobretudo simplificação dos canais de acesso às linhas de financiamento, patrocínio e incubação de projetos. Finalmente, como condição para essas duas dimensões de financiamento e acesso, é urgente criarmos as métricas, os indicadores e modelos de inclusão digital que garantam transparência e comparabilidade às diferentes iniciativas. Com financiamento, acesso e métricas, a diversidade poderá ser identificada e premiada, produzindo o que temos denominado de "emancipação digital", que é a inclusão social e econômica com certificação digital, autonomia decisória, diversidade cultural e sustentabilidade ambiental das ações.
Por Sergio Amadeu
Fernando Trevisan, entusiasta e integrante do barcamp, deu uma grande contribuição ao nosso debate ao questionar o documento-base, versão beta, que lançou esta desconferência, conforme solicitava o MinC. Gostaria apenas de tentar responder uma questão muito importante levantada pelo Trevisan. Ele perguntou em seu post: “O que a liberaçãode freqüências hoje utilizadas pelas TVs - que só deve ocorrer totalmente daqui a uns 5 anos, se não mais - tem exatamente a ver com a diversidade cultural, neste momento?”Um dos maiores ataques à diversidade cultural é a concentração de canais de comunicação em poucas mãos. A defesa da diversidade passa porgarantir aos diversos produtores culturais os meios para disseminar suas expressões artísticas. Por isso, o tema da democratização do acesso aos meios de comunicação foi, é e será um elemento vital da luta pela diversidade cultural. Hoje, no Brasil existem centenas de produtores de radiodifusão comunitária que estão impedidos de utilizar o espectro radioelétrico. Ao transmitirem seus sinais são atacados pelo Estado. São chamados de piratas. Por que o Estado ataca os produtores de ondas independentes?Porque existe a pressão das empresas de radiodifusão para manter “a ordem do espectro”. Quem definiu esta ordem? Que ordem é esta? O Estado concedeu a algumas poucas empresas o direito de usar o espectroPor Fernanda Bruno
Pensada no âmbito da subjetividade, a questão da diversidade na cultura digital envolve pelo menos dois processos. De um lado, a diversidade se produz e prolifera pela multiplicação das “vozes” e vias individuais. Já se tornou um lugar comum afirmar que a cultura digital fez de cada um de nós emissores, produtores e distribuidores potenciais de informação de diferentes tipos e formatos. Cada vez mais, a Internet se afirma como um ambiente em que cada um é convidado a ser a sua própria mídia. Pululam narrativas da vida privada, imagens pessoais da intimidade, do cotidiano e do mundo, produções visuais, musicais, literárias, artísticas, amadoras ou profissionais. Um cenário de vasta diversidade de expressões individuais. Embora tais expressões sejam sempre modos de reproduzir, recombinar ou subverter processos sociais e coletivos, as diversas subjetividades que aí se produzem em grande parte reforçam as vias individuais e individualizantes.
De outro lado, a cultura digital tem atualizado e potencializado uma outra dimensão das subjetividades que se manteve freqüentemente à margem dos tradicionais modelos psíquicos, cognitivos, filosóficos, comunicacionais. Refiro-me à dimensão coletiva, transindividual e processual das subjetividades, expulsa da identificação cartesiana da subjetividade com uma interioridade pensante, do confinamento psicológico da inteligência à mente individual, da suposição de que o processo comunicacional é o resultado de trocas entre um emissor e um receptor constituídos. Inúmeras práticas e experiências nascidas ou renascidas na cultura digital – recombinação, remixagem, software livre, projetos colaborativos e participativos, entre outras – colocam em obra uma subjetividade cuja topologia escapa aos limites da interioridade e do indivíduo para se formar nos “espaços” intersticiais, no entre-dois, ou ainda no entre-muitos que constituem essa rede coletiva de agentes sociotécnicos. Temos visto como o pensamento, a inteligência e o conhecimento encontram na cultura digital vias, expressões, apropriações efetivamente transindividuais, fazendo variar a noção de autoria e explicitando os limites da lógica da propriedade intelectual. As subjetividades comunicantes, por sua vez, cada vez menos cabem na polaridade emissor-receptor, pois não são nem se comportam como termos dados e anteriores à relação que estabelecem entre si, mas são, antes, constituídos por ela.
Essa dimensão coletiva, transindividual e processual das subjetividades engendram um sentido e uma experiência da diversidade que vai além da livre expressão das individualidades diversificadas, para se exercer como dinâmica e processo coletivo de diversificação, diferenciação e transformação das subjetividades. A diversidade aqui é menos um conjunto de subjetividades distintas do que um processo de diversificação das subjetividades, na medida em que estas são chamadas a sair de si mesmas, a se diferenciar e atravessar as fronteiras que tradicionalmente as definiam. Fronteiras da interioridade, da autoria, da propriedade, da individualidade, da identidade são subvertidas para dar lugar a processos coletivos de pensamento, conhecimento, criação, sensibilidade. A livre expressão das subjetividades individuais é certamente uma das condições da cultura e do cultivo da diversidade e ela deve ser potencializada por uma radical ampliação do acesso à cultura digital. Mas além da ampliação do espectro das diversas subjetividades individuais, a cultura digital tem uma singular vocação, rara em muitos outros domínios, para pôr em obra uma experiência e uma prática da diversidade e da subjetividade como processos coletivos de diferenciação. Práticas colaborativas, de compartilhamento e de licenças livres podem ser o esboço do que podemos chamar de uma ética da diversidade que não seja apenas a convivialidade harmônica de entes diversos, mas algo próximo do que Gilbert Simondon, em sua filosofia da técnica e das individuações, pensou como a natureza da ação ética - um poder de amplificação do potencial de transformação coletiva. Um esboço, portanto, de uma individuação coletiva, em que a transformação de si próprio leva a outros um potencial de transformação.
A diversidade de "conteúdo" na rede depende da diversidade de "sistemas"
Facilitando a Colaboração
Por Vitoriamario
Se queremos que as pessoas colaborem, e construam uma internet livre, é preciso que as tecnologias se desenvolvam nesse sentido. A natureza da internet pode ser descentralizada e anárquica, mas o uso que as pessoas fazem dela depende do desenvolvimento de tecnologias que possibilitem este uso. Estamos falando aqui tanto de software, como de infra-estrutura física, de hardware e de telecomunicações.
Mas pensar uma internet mantida colaborativamente não é simples. Ainda não existe a cultura de uso da responsabilidade compartilhada na internet. Projetos como a wikipedia ou wikimapia são excessões e normalmente mantidos por "geeks".
Como tornar a prática colaborativa no ambiente digital algo natural? Com formação? Escolas na internet? Talvez tudo isso, mas uma coisa acima de tudo: familiaridade com os sistemas.
Sistemas são metáforas. Cada pessoa tem a sua. Sistemas devem ser múltiplos. Múltiplas maneiras de organizar informações, idéias e dados. Isso sempre foi assim. Cada povo organizou seu calendário de uma maneira, seu idioma, sua sociedade. Cada grupo usa seus linguajares
característicos, organiza as coisas de determinada maneira.
A única maneira de as pessoas colaborarem de forma natural e orgânica é a tecnologia se tornar transparente. As pessoas usam o telefone com tanta desenvoltura para se comunicar hoje em dia porque ninguém pára para pensar que está usando um telefone quando está falando com alguém: está pensando apenas na conversa.
Se investirmos em uma tecnologia que privilegie o controle e a centralização da produção, não há milagre que faça que as pessoas se comportem de maneira diferente em relação a ela. Se na tela da minha TV Digital aparecer apenas as opções "assistir canais" e "fazer compras" não adianta me vir falar de outras possibilidades.
As escolhas pelos caminhos de desenvolvimento devem ser coerentes com a cultura de uso que se espera que nasça. É preciso que se multipliquem possibilidades de metáforas para as pessoas interagirem com a máquina.
Nunca se chegará ao sistema perfeito, que torna a colaboração entre as pessoas e a organização de ideias compartilhadas algo tão natural quanto pensar e conversar. Isso porque as pessoas são diferentes: pensam e conversam de maneiras diferentes. Por isso é necessário que se criem
muitos sistemas. Quanto mais melhor.
Contudo esses sistemas podem conversar entre si. A essência das mensagens trocadas internamente dentro dos diversos sitemas são sempre semelhantes. Se todos os sistemas tiverem suporte a um protocolo comum, eles facilmente conversarão. E cada pessoa poderá usar o que mais lhe agrada, e estar conectada com toda a rede, como deve ser.
Isso não significa que todos devem falar a mesma língua, ou que os sistemas tenham que ser todos semelhantes. Isso significa que os sistemas devem ser inteligentes. Por mais específico e único que um sistema possa ser, é possível que ele troque informaçoes com outras plataformas.
Um exemplo realmente muito simples disso hoje em dia é o RSS, que permite a troca de informações entre sites. Usado normalmente para alimentadores de notícias e de blogs, a potencialidade desse tipo de protocolo ainda é pouco explorada.
Compartilhamento consciente
Compartilhar não é um ato passivo de 'deixar levar', mas um ação positiva de 'tornar disponível'.
Desenvolver um software é uma coisa. Desenvolver um software e documentá-lo bem é outra coisa. E, se pensarmos bem, só esta segunda pode ser considerada desenvolvimento de software livre.
Para que alguém possa se apropriar de um código e colaborar, é preciso que haja documentação acessível e bem organizada. Se não houver, o software fica necessiaramente ligado a pessoa que primeiro o desenvolveu, e o fato de o código ser aberto não dá grandes possibilidades de evolução espontânea e caótica.
O mesmo acontece com cultura e conhecimento. Apenas fazer upload desordenado de milhões de coisas não necessariamente enriquece o repertório do videomaker que procura uma música para seu vídeo. É preciso uma cultura de uso de publicação de forma organizada.
As interfaces de compartilhamento devem tornar a classificação algo natural e orgânico. Isto pode ser a colocação de tags, ou qualquer outra maneira de indexação que venha a surgir.
Software Livre e o desenvolvimento de Softwares
Recorrentemente citamos o fim da divisão "emissor vs receptor" quando falamos em tecnologias digitais para comunidação.
No entanto nos esquecemos que, quando falamos de software livre, estamos falando a mesma coisa. Estamos falando do fim da distinção entre usuário e desenvolvedor. Tanto no sentido de que o usuário é um participante ativo no desenvolivmento do software, na medida em que ele faz parte da comunidade e colabora de alguma maneira, como também estamos falando da possibilidade de qualquer pessoa se apropriar de códigos alheios e passar a ser o desenvolvedor de seu próprio software.
Com código e documentação abertos este cenário é uma realidade.
É preciso que incentivemos:
. desenvolvimento de software livre - sempre bem documentado
. desenvolvimento de protocolos de comunidação que podem servir como
base de troca de dados entre sistemas
. infra-estrutura física e de software que permita a descentralização,
assim como as redes mesh extinguem a necessidade de uma grande antena
central
A versão beta do documento "Diversidade e Cultura Digital" já está esperando modificações.
Para editá-la, basta se cadastrar, com endereço eletrônico e senha, no campo indicado na própria wiki. Quem tiver dúvidas de como utilizar a ferramenta, pode escrever para biancasantana@gmail.com
O Orlando propôs discutir o método da oficina na lista
Participemos!
Texto anônimo, ou de qualquer um, ou de um coletivo existente em local incerto e não sabido (mas existente). Circulou na lista de discussão Submidialogia.
A gratuidade, em suas múltiplas concepções, caracteriza bem um novo horizonte. Ela qualifica, sob o conceito de interesse geral ou sob o nome de BEM COMUM, o que pertence a todos, ou aquilo de que todos fazem uso. Nesse sentido, a gratuidade é constitutiva da comunidade política planetária. Mais ainda, ela é constitutiva de toda comunidade política, enquanto essa última nasce de uma tomada comum de recursos. Mas a gratuidade excede igualmente o comum ou o humano. É a gratuidade das coisas sem donos que, por mais distantes que estejam (estrelas ou cometas), passam a constituir também nossos recursos os mais necessários
(luz do sol). É em nome desse horizonte comum, dessas gratuidades, que numerosas lutas sociais e políticas aparecem hoje, usando mesmo desse outro sentido da gratuidade que encontramos na língua inglesa, free, significando assim que a tomada comum das determinações é também o momento da autodeterminação política.
A Gratuidade do Interesse Geral
A gratuidade do interesse geral, repousando sobre a redistribuição fiscal e recolocando Deus ou os deuses para a Comunidade, se inscreve – revista e aménagée pela escolástica medieval – na continuidade da idéia romana de gratuidade. No direito romano, aquilo que chamamos hoje de recursos naturais são então gratuitos e sagrados, e gratuitos porque sagrados, excedendo o humano em sua natureza ou em sua dimensão, esse último sendo um simples usuário, um usufrutador e não um proprietário da natureza. O mesmo vale para o domino publico e os serviços públicos do Estado, dos quais podemos nos beneficiar, posto que pertencem legalmente à comunidade nacional, mas que enfrentam finalmente uma gestão direta
pelos usuários. A partir disso, o domínio, assim como o serviço público, são privatizados pela potência pública que define a produtividade segundo os interesses (notadamente eleitorais) daqueles que a geram ou daqueles que estão em posição de desvia-lo em seu beneficio. Hariou foi o primeiro jurista a associar gratuidade e serviço publico. Segundo o Doyen de Toulouse, o serviço que está a cargo do interesse público deve ser organizado sobre um modo comunista e seu financiamento assegurado pela comunidade. Assim, a gestão do bem comum se ajusta ao interesse geral. "Os recursos são colocados em comum para que os serviços sejam tornados igualmente e gratuitamente a todos. Daí vem o caráter não lucrativo dos serviços públicos" (Hauriou). Mas por que um serviço, a principio não lucrativo, alimentado de recursos coletivos, é
transformado hoje em serviço lucrativo? Declara-se as vezes que a gratuidade tem efeitos perversos sobre um consumidor que, não sabendo o preço da gratuidade publica, ou se beneficiando sem esforço, nao respeita os bens culturais que ele comprou (como se os impostos não fossem suficientemente altos, fosse necessário pagar em dobro). E ainda – para pegar o exemplo dos transportes públicos urbanos - não bastasse pagá-los na roleta, é preciso também que o dinheiro levantado sirva a controlar o usuário. As pesquisas do grupo NADA mostram que, de fato, as receitas comerciais (constituídas das contas, mas também de outras fontes como publicidade, as locações dos espaços aos comerciantes de jornais, buffets e comércios diversos) são minoritários face aos financiamentos públicos, e que elas justificam, contudo, custosos dispositivos de controle e uma custosa bilheteria ( billeterie) sem falar da lucrativa e não contratual poluição publicitária imposta em todas as estações de metrô e ônibus. Uma prefeitura que gera o domínio publico comunal se apropria e privatiza a gestão desse domínio. Ela transforma o recurso coletivo em máquina produtiva submetida a imperativos de rendimento ou de retorno de investimento. Dessa maneira, ela desvia progressivamente as finalidades coletivas dos recursos comuns. Não basta que os recursos naturais e imateriais, presentes, passados e futuros sejam colocados em comum. É necessário também que essa tomada comum abstrata seja suportada pelo debate publico (rompendo a subordinação da sociedade ao Estado, tornando-se proprietários dos recursos comuns, regule também seu uso, em vez dos lugares dos "comunistas".
A Gratuidade do Bem Comum
Encaixotados na Res Publica, os bens comuns pertencem e são constituídos e regulamentados por sua potência pública. As Res Communis são então menos comuns se relacionadas a seu/sua ( maître – nota da tradução: aqui eu não sei se se refere à prefeitura ou ao dono), ao Estado que decide e dispõe delas, com ou sem mandato dos comunistas. Mas o encaixotamento das Res Communis na Res Publica pode igualmente adotar uma outra forma
com o federalismo ou o socialismo cooperativo, onde todos os consumidores são organizados em cooperativas de consumo, organizando cooperativas de "segundo nível" (Charles Gide) o processo de produção e distribuição. Nesse contexto, as coisas comuns servem de assento a uma vida comum federativa e cooperativa.
No código civil francês, as coisas comuns (eventualmente integradas ao domínio publico) se manifestam através de diversos status: os bens comunais (art. 542 cód. civil), as coisas comuns corporais (cód. civil 714), as coisas comuns incorporadas. Os bens comunais são aqueles
à propriedade e aos produtos dos quais os habitantes de uma ou diversas comunidades tem direito adquirido. Esses bens comunais representam, na França, algo como 60 mil quilômetros quadrados, eles são propriedade coletiva da comuna e não propriedade comunal. E é provavelmente pensando nos bens comunais que a Câmara Criminal da Corte de Cassação declarou que "a subtração por um dos comunistas de uma coisa comum constitui um roubo" (27/02/1836).
As coisas comuns são também elementos naturais como o ar, as praias ou as paisagens hoje (verses) ao domínio publico. Muitos desses recursos, que estavam há muito tempo não contados ( non comptes) estão hoje integrados nos cálculos econômicos: a produção da natureza foi avaliada em 55 milhões de dólares por ano por um grupo de cientistas do Instituto de Economia Ecológica da Universidade de Maryland, em 1997. E os planetas – como o fundo dos mares – durante muito tempo inscritos fora do direito comercial, poderiam, contudo, entrar nessa conta (soma). Associações industriais lutam para modificar o direito do céu, pensando já poderem explorar os recursos dos planetas do entorno. Da mesma forma, no direito prospectivo aparecem distintos tendendo a invalidar a generalidade da noção de bem comum genético, privatizado em suas particularidades produtivas (parece que podemos considerar que o material genético não seja uma coisa comum senão na medida em que ele concerne a um conjunto da espécie – revista de pesquisa jurídica, direito prospectivo, no 16, p.u. Marseille). Bens comunais, recursos
naturais, as coisas comuns são também incorporadas, culturais,
informacionais (idéias e palavras e notas musicais etc). Essas coisas fora do comercio não podem, ou não poderiam até pouco tempo atrás – ser vendidas: "No caso dos dados ( donnes) comuns (idéias, descobertas cientificas, palavras) cada um tendo um direito sobre os mesmos dados, ninguém pode impedir o acesso do outro. Ninguém tem reciprocamente necessidade de uma autorização para utiliza-los" (Isabelle Moine, 1997, p.364). Entre os bens imateriais, poderíamos imaginar que a moeda, coisa incorporada, cultural e informacional, considerada hoje ainda como um bem comercial, retorna à categoria das coisas fora do comercio, como a linguagem e as notas musicais... Sabemos que a propriedade intelectual representa 80% do valor das 500 primeiras empresas do Standard & Room`s Com Stock. A gratuidade está, contudo, inscrita nas práticas de consumo e de produção imaterial. Enquanto o copyright está fundado sobre a proteção do autor e se apresenta como um direito privado a propósito dos
bens que não tem valor senão para circular e serem apreciados, o copyleft está fundado sobre a liberdade dos usuários. A tarefa do Napster, e mais amplamente o desenvolvimento do peer to peer, tendem a provar que o copyright (malmene) os bens imateriais que (defiait) dois dos princípios fundamentais da política econômica: a raridade e o controle. Os dados numéricos são copiáveis ao infinito a custo quase zero. O produtor não (maîtrise) o usa dos dados que ele difunde e não pode impedir sua disseminação: a economia dos bens imateriais retorna por natureza da gratuidade no sentido forte (bens sem dono/maître) ou frágeis (cooperatividade). É necessário distinguir o dom da informação ou seu estabelecimento em um circuito de cooperação, de sua gratuidade. O doador endereça seu don de maneira () e cria eventualmente uma duvida, uma dependência, uma reciprocidade daquele que recebe. A gratuidade é uma disponibilizarão anônima ou de qualquer um. Em uma gratuidade anônima, os indivíduos são intercambiáveis. A circulação de bens ou de signos não é efetuada de uns contra os outros. Não há emissores nem receptores. A informação anônima, por exemplo, um agregado, um fundo
comum, um bem que todo mundo pode ter porque ele está acessível a todos. Seu principio não é o compartilhamento, nem a comunidade de informação, a troca de informação entre pessoas que se conhecem, mas a disponibilizarão sem espera de retorno e na indiferença face ao receptor. A informação anônima é produzida, difundida, coletada ou (ramassée) por não importa quem. Se se produzem encontros entre emissores e receptores, eles são breves e sem dia seguinte, sem
identidade nem reconhecimento, sem ( enjeu) nem projeto. As informações entram em conjunções temporárias induzindo a reagrupamentos aleatórios e provisórios, de emissores e de receptores em contextos de movimento. Em uma gratuidade qualquer, os indivíduos não são intercambiáveis: são não importa quem ou o que, mas eles são eles mesmos, plenamente singulares.
Há emissores concretos e receptores concretos (charnels). Os reagrupamentos se efetuam sobre modos intensivos e de afinidade, e não estatísticas ou aleatoriedade. O autor qualquer rompe com a ausência de qualidade do anonimato: ele se manifesta como potência.
Por Fernando S. Trevisan
Faz algum tempo já que a Bianca Santana fez o convite para que eu escrevesse algo e colaborasse com o Diversidade Digital. O convite foi reforçado no Barcamp que aconteceu em Florianópolis, nos dias 19 e 20/maio, quando eu critiquei o "extremo academicismo" dos artigos que havia lido.
Portanto, no intuito de ser justo e de colaborar com algo realmente original, resolvi ler com atenção redobrada o documento que - aparentemente - foi o marco zero deste blog/movimento, bem como os textos já publicados pelos outros colaboradores. Creio que existe algo para adicionar, portanto...
- Crítica à proposta inicial
O DD já inicia com um documento que é uma contradição em termos. Produto de um único acadêmico e ativista político, cita projetos sem nem "linká-los" (como é apontado muito apropriadamente nos comentários); anuncia que busca novas propostas, sendo que volta a bater na velha tecla das iniciativas governamentais e da pesquisa puramente acadêmica para garantia da diversidade. O que salva é que ele é a abertura e o chamado para colaboração, ainda que filtrada por uma "curadoria"... do mesmo autor do documento inicial!
Outro problema claro é que o documento procura inserir diversas bandeiras em uma discussão já cheia de coisas a debater. O que a liberação de freqüências hoje utilizadas pelas TVs - que só deve ocorrer totalmente daqui a uns 5 anos, se não mais - tem exatamente a ver com a diversidade cultural, neste momento? Se queremos aproveitar um seminário que vai acontecer AGORA e apresentar propostas relevantes e concretas, creio ser importante focar no que é possível já.
- A discussão se desenvolve
Os dois artigos imediatamente posteriores, de Cláudio Prado, já começam a dar pistas de outros problemas com a proposta inicial de Amadeu, ainda que de forma dispersa. A ascensão do digital descentraliza, é a realização de uma globalização e "internacionalização" há muito anunciada - e isso pode reforçar e renovar as diversas culturas, desde que elas tenham meios para marcar presença - e Prado enumera o que é necessário, mas cai no mesmo erro de Amadeu, defendendo "rádios e tvs locais e autônomas conectadas em rede".
Ora, a infra-estrutura utilizada para web - desde que garantida a neutralidade da rede - pode e deve ser apropriada para essa presença televisiva e radiofônica, realizando a convergência e a migração de um meio apenas receptivo (a tv e rádio tradicionais) para um meio interativo (a internet, seja em conteúdo de vídeo, som, texto ou multimídia). A diferença é mais que econômica, é de formação, educação e... preservação da diversidade!
Não faltou também quem falasse em "liberdade demais" assim como outros têm medo dos monopólios privados que podem censurar ou restringir o uso de seus serviços. Ana Brambilla, como sempre, faz excelente contraponto, em defesa da liberdade e da colaboração. Marcos Dantas aponta que a tecnologia é meio e ferramenta, não necessariamente criadora de cultura - embora, atualmente, ela também seja isso.
- Das discussões, as questões... e as propostas!
Muitas questões surgem quando paramos para pensar na proposta de diversidade cultural (e digital). A principal, para mim, é: como sustentar? Paulo Lima e Oona Castro vão além da resposta básica "vamos pedir ao papai governo, ele tem que dar a mesada" e apontam soluções: financiamento e subsídios (e aqui o governo pode ajudar, como já vem fazendo) além do "open business".
Não se propõe aqui que a cultura deva ser sempre lucrativa - pois aí correríamos, novamente, o risco de perder a diversidade. A questão é como ir além do apoio governamental ou do uso de serviços privados - que podem esbarrar na ideologia ou no mercantilismo - e permitir que comunidades auto-sustentem sua representação cultural, utilizando meios digitais.
Abandonar as antigas técnicas de transmissão de conteúdo, que não têm interatividade e colaboração, é essencial. As novas gerações - as quais cabe a manutenção de tudo que estamos propondo/criando - não lidam bem com conteúdos impostos, acostumando-se desde cedo com tecnologias interativas.
Assim, faz-se necessário para a preservação digital da cultura, que exista acesso universal a computadores e banda; que isso não seja sustentado apenas por iniciativas governamentais nem apenas por iniciativas privadas, mas que existam meios (Parcerias Público-Privada? Financiamentos? Isenções de impostos?) para que as próprias comunidades sustentem seu acesso, seus equipamentos e também os meios de produção cultural.
É necessário também apropriar-se dos meios já existentes - e aqui cito especificamente os serviços, públicos ou privados - para disseminar essa cultura, ou corremos o risco de novos guetos, agora virtuais.
Mas de nada adianta dar as ferramentas e ter o desejo de apropriar-se do que já existe, se não houver o treinamento para que as comunidades utilizem isso. E aí a iniciativa privada pode ter grande interesse, pois pessoas capacitadas para lidar com tecnologia, web e serviços on-line estão em falta e serão cada vez mais necessárias.
Assim, temos na realidade - e como sempre - no digital a reprodução do real: precisamos de dinheiro, mas de onde? O dinheiro deve ser usado para ferramentas e capacitação - mas como? É o que se discute e se tenta há anos em movimentos sociais, de alfabetização e de políticas de saneamento, entre outros.
A grande diferença do digital é que ele é atrativo, interativo, relativamente barato, automaticamente reciclável (não falando de equipamentos, aqui, mas sim de conhecimentos) e ainda por cima de interesse aos grupos privados. Por que não aproveitar e investir, fazendo com que o digital reflita para o real e aponte soluções a estes outros problemas?
Espero que as críticas tenham sido construtivas e as questões e propostas, úteis...
Por Lídia Cavalcante
Tenho acompanhado e pesquisado sobre as discussões relativas à geração de um patrimônio digital nacional e internacional, por parte de instituições como universidades, bibliotecas, museus e arquivos. Não se trata apenas de mais um modismo do mundo tecnológico contemporâneo. É uma realidade mundial, podemos dizer. Mas, o que significa dizer “uma realidade mundial”? É possível gerar um patrimônio nacional em meio digital? Como ficam as tradicionais bibliotecas, museus e arquivos em meio a essas discussões?
O percurso iniciado pelas discussões e estudos sobre memória e patrimônio digital está apenas começando. Há um logo caminho a percorrer e a explorar. Não se trata de discutir a superioridade de nações ou economias dominantes tecnologicamente, mas de aprofundar o discurso sobre preservação, salvaguarda e acesso. Este tema representa um rico campo de pesquisa a explorar, sob diferentes aspectos: político, histórico, econômico, cultural, educativo ou tecnológico, por exemplo.
Diante de uma tal diversidade de estudos é fundamental destacar a importância do debate político, que envolve questões relativas às práticas e ações voltadas para a emergência da criação de coleções patrimoniais em meio digital. As instituições culturais de memória, de modo geral, se vêem envolvidas em um processo de mobilização global que conduz a diferentes contextos. No campo cultural e tecnológico são estimuladas a desenvolver projetos e programas de digitalização de suas coleções. Entretanto, no plano financeiro, se vêem às voltas com a falta de recursos e de políticas de investimentos que tornem viáveis tais projetos. Assim, confrontam um duplo desafio: gerir um patrimônio tradicional e um patrimônio digital em meio à falta de recursos financeiros, humanos e tecnológicos.
Nesse quesito (ou em mais um quesito), as desvantagens econômica e tecnológica das nações em desenvolvimento serão facilmente perceptíveis. Fato que se pode observar pelo índice de crescimento das coleções patrimoniais digitalizadas em países como a França, os Estados Unidos, o Canadá e a Inglaterra. Não é difícil compreender a concentração do crescimento das bibliotecas digitais na Europa e na América do Norte, bem como o uso da Internet, que permite fluxos de informação cada vez mais dinâmicos e modernos.
Bibliotecas, museus e arquivos, historicamente, são considerados setores tradicionais, cuja inovação não parecer ser “a ordem do dia” das áreas políticas e econômicas no Brasil. Paradoxalmente, o setor informacional tem sido o mais sensível ao desenvolvimento tecnológico, necessitando de inovações e investimentos constantes. Assim, uma política de desenvolvimento de coleções digitais, para assumir de modo competente o papel de difusão cultural e transmissão do saber, necessita de processos de evolução tecnológica constantes e de esforços governamentais e institucionais para gerar projetos de interesse comum no que tange à preservação, salvaguarda, acesso e democratização da memória e do patrimônio coletivo. Fato que requer esforços de cooperação e harmonização de objetivos, para favorecer a troca de experiências, a força política e a obtenção de recursos. Não consigo imaginar um universo de cultura digital sem democratizar saberes e acesso à informação e, menos ainda, sem a presença de bibliotecas, museus e arquivos, fontes inesgotáveis de registro da diversidade humana.
Por Yara Guasque
A criação atual em arte e tecnologia e a formação de um público específico no Brasil nos faz focar o paralelismo existente entre as bases de produção material ¾ que fazem emergir a situação econômica-social e o histórico da industrialização do país ¾ e as resoluções estéticas ditadas pela necessidade de se voltar às massas excluídas da cidadania, que adquiriram recentemente o estatuto de consumidores em potencial e que passam a induzir a criação de novos formatos artísticos.
Frente à nossa dificuldade de país periférico de acesso a bens culturais, junto aos limitados recursos e as precárias condições de experimentação, as estratégias adotadas da cultura digital refletem mais o marketing das corporações do que uma real modificação das estruturas de acesso.
Com a globalização o processo de terceirização que acabou por incluir a Zona Franca de Manaus como parte da produção das câmeras videográficas, por exemplo, não representa positivamente a pretensa transferência tecnológica (GUASQUE ARAUJO, GUADAGNINI, FACHINELLO). Como nos colocam LUGO; SAMPSON e LOSSADA (2006), o modelo aplicado com a privatização da indústria de telecomunicações na América Latina trouxe uma entrada significativa de capital para os setores de mídia, telecomunicações e computação e propiciou um rápido crescimento, embora não tenha beneficiado a inovação da produção tecnológica local. Mesmo as novíssimas indústrias de games, que atuam nos países em desenvolvimento, pouco refletem as raízes da cultura local por estarem atreladas à uma produção voltada a atender o perfil cultural do consumidor norte-americano.
Então como falar em diversidade?
A questão colocada é se as massas excluídas da cidadania, que adquiriram recentemente o estatuto de consumidores em potencial, ditarão ou assimilarão os novos formatos e se ainda é pertinente a diferenciação entre alta e baixa cultura.
GUASQUE ARAUJO, Yara R.; GUADAGNINI, Silvia; FACHINELLO, Sandra Reis. "Parâmetros para o entendimento das mídias emergentes e a formação de um público especializado no Brasil". Texto ainda não publicado.
LUGO, Jairo; SAMPSON, Tony; LOSSADA, Merlyn. "Novas indústrias culturais da América Latina ainda jogam velhos jogos Da República de Bananas a Donkey Kong". In: BARRETO, Ricardo; PERISSINOTO, Paula. (Orgs). FILE: festival Internacional de Linguagem Eletrônica. São Paulo: FILE, 2006, p. 164- 179.
Por Daniela Silva
Nossos rostos não aparecem nas capas de revista. Não nos reconhecemos no sotaque dos locutores de rádio, nem na lourice meiga dos atores de tevê. A música que consumimos pouco tem a ver com aquela que fazemos. Nunca fomos parecidos com as ilustrações das cartilhas da escola. Nossa língua não freqüenta os livros, os palcos, os plenários. Somos constantemente treinados a acreditar que o conhecimento efetivo é aquele que se distancia da sabedoria popular.Por Nelson Pretto
Calma. A frase do título é apenas a metade de uma idéia um pouco maior. De fato, não queremos a internet nas escolas, mas sim, as escolas na internet. Percebe a diferença? Essa nossa frase virou o lema do nosso grupo de pesquisa Educação, Comunicação e Tecnologias (http://www.gec.faced.ufba.br) desde o final do século passado. Parece que em tempo de web 2.0 não custa resgatá-la. E o incrível é que, a web tem pouco mais de 15 anos e, desde o começo já diziamos: tem que ter espaço para que todos possam se colocar na rede. Tem que cair na rede. A diversidade de culturas, povos, jeitos de ser, pensar e agir precisam estar representadas e se constituirem a essência da internet. Sempre acreditamos que a relação da educação com a cultura, com a ciência e a tecnologia são fundamentais mas ainda estamos frente a poucas transformações no próprio sistema educacional. Mas, felizmente, tem muita coisa acontecendo na busca de transformação dessa realidade, e muitas delas estão sendo implantadas e conduzidas por professores e professoras atuantes e animados, lutando contra todas as faltas de condições e apoios conhecidos. Para nós, para viabilizar essas ações precisamos intensificar a apropriação das TIC enquanto elementos de cultura e não apenas como aparatos tecnológicos que ilustram ou facilitam os processos educacionais. Esses equipamentos, e todos os sistemas a eles associados, são constituidores de culturas e, exatamente por isso, demandam olharmos a educação numa perspectiva plural, que demanda novos vetores de desenvolvimento. Ou seja, temos que afastar a idéia de que educação, cultura, ciência e tecnologia podem ser pensados enquanto mecanismos de transmissão de informações. Isso implica, portanto, pensar em um processo de articulação entre todas essas áreas. No campo das tecnologias, uma ação que se tem mostrado de grande importância é uma maior aproximação com os movimentos do software livre e das possibilidades trazidas pelas tecnologias livres, ao resgatar, para o ambiente da escola, a perspectiva de colaboração. Associado a isso, os movimentos de democratização das produções, através das chamadas licenças criativas (creative commons), intensificam uma idéia que nos é muito cara: a possibilidade de uma intensa criação. Esses são movimentos que buscam fazer circular as informações, de se produzir e re-produzir permanentemente, remixando tudo, re-criando em cima do já criado. Acredito, a partir desses elementos, podemos também pensar também nos processos denominados de inclusão digital, afastando-se, assim, da perspectiva limitada do chamado treinamento para o mercado de trabalho. Temos defendido uma outra perspectiva de inclusão, que supere a dramática dicotomia: para o filho do rico, todas as condições, em um quarto conectado, com computadores de alto processamento, conectados em banda larga, suporte 0800 e, o mais importante, a liberdade quase total para se fazer o que desejar; para o filho do pobre, acesso através dos telecentros ou infocentros, com aulas de informática para o ensinamento de planilhas, processadores de texto ou coisas do tipo, geralmente de forma muito intediante e com softwares proprietários. Gastamos muito dinheiro com isso e pouco se modifica nessa realidade, uma vez que essas políticas de inclusão terminam sendo impregnadas por uma exagerada pedagogização dos processos, fazendo com que as distâncias entre aqueles que tem acesso e os que não tem, aumentem cada vez mais, reforçando a estratificação já existente em nossa sociedade.Por Lídia Eugenia Cavalcante
Por outro lado, o excesso de categorias de análise, metodologicamente, nos leva a uma mistura de variáveis que, muitas vezes, nos faz perder o foco e dificulta a construção de um efetivo posicionamento. Podemos correr o risco de nos “enroscar como gatos em novelos de lã” e fica difícil encontrar o “fio da meada”. Assim, para esse momento, vou me concentrar em participar do debate no âmbito das minhas experiências profissionais. Isto é, no papel de educadora, bibliotecária e pesquisadora.
Numa tentativa de não perder o “fio da meada” da relação entre diversidade e cultura digital, faremos uma reflexão do ponto de vista das práticas de leitura e democratização do conhecimento no universo digital.
O surgimento dos suportes virtuais com seus hipertextos, considerados como “novos” suportes do registro do conhecimento, também apresentam novidades com relação às práticas de leitura, sejam elas físicas ou sociais. Mudam a forma de acesso, conteúdo, veracidade, paginação, visualização, estímulo, processo de interação e transmissão, mediação, pertinência, descobertas e concepção. Nasce daí uma certa ruptura com as formas tradicionais do livro impresso. O leitor segue percursos interativos de leitura, acessa meta-texto, imagens e sons por meio de links, que o convida para muitas viagens interativas. É também continuamente convidado a se tornar “autor” a cada vez que ele relaciona elementos de informação. Não se trata de uma ruptura definitiva entre impresso e digital, já que o texto impresso também permite leituras não lineares, intertextualidade e interatividade, que constroem o vasto conjunto de informações adquiridas pelo leitor. Entre impresso e digital ocorre, na realidade, um forte processo de multiplicação de possibilidades de leituras.
As áreas do conhecimento, de um modo geral, têm transitado por uma forte evolução cientifica, tecnológica e multicultural, que implica algo além do saber acadêmico ou livresco, para o uso do “aprendizado ao longo da vida”, criando uma relação entre informação, educação, conhecimento cientifico e diversidade.
Foi justamente no universo contemporâneo que o mundo se abriu para a emergência de um pensamento complexo, de saberes tão bem apresentados por Edgar Morin, ao descrever a diversidade e a complexidade humanas. No curso das últimas décadas do século passado, observamos radical transformação na socialização histórica e política com relação ao conhecimento e à informação, sobretudo no que se relaciona com o advento de uma sociedade pautada nas inovações culturais, científicas e tecnológicas. O campo informacional, por exemplo, se manifesta para abrigar discussões opostas no centro destas reflexões: como pensar a informação em um contexto de diversidade e complexidade, especialmente se considerarmos a ambiência de espaços geográficos e socialmente interativos?
A sociedade da informação não requer dos indivíduos apenas o acesso à tecnologia para crescer no mundo do trabalho. Com ela aumenta consideravelmente a diversidade cultural e os processos de interação/integração entre os sujeitos, gerando um desafio que é a promoção de vias de desenvolvimento a partir da adoção de formas de pensamento, que se voltam para processos de partilha e troca.
O desenvolvimento econômico e em ciência e tecnologia deve vir acompanhado do contexto cultural e social. Neste sentido, a educação possui papel primordial para unir competências individuais e coletivas por meio de uma linguagem interdisciplinar que, em uma pesquisa, considerará o objeto estudado sob diferentes aspectos, especialidades e teorias. Um exemplo claro para esta afirmação pode ser observado no próprio campo das dimensões epistemológicas que regem os estudos em torno da área tecnológica. Esse fenômeno tem sido observado por especialistas das ciências da informação, historiadores, antropólogos, sociólogos, filósofos e físicos, apenas para citar alguns, com abordagens enriquecidas pelas competências de cada área, levando à riqueza do conhecimento. É como se observássemos um objeto sob diferentes perspectivas e ângulos distintos.
Por Raphael Prado
Qualidade do humor à parte, o fato é que a mídia não pôde ignorar o vídeo quando a abrangência, na web, fez lembrar a luta do Digg.com contra a publicação do código que quebra a criptografia do HD-DVD. Da Mônica Bergamo e Fernando Rodrigues (sim, o colunista político), na Folha de S.Paulo, a Zeca Camargo, em seu blog no G1, passando pelos portais Terra e UOL, todos deram a notícia. Alguns conversaram com a atriz.
Mas o curioso está em como grafaram a palavra repetida diversas vezes na música. Para o grupo Folha/UOL, trata-se de "c...", padrão também seguido pelo Terra. Diziam, portanto, que o vídeo era "Vai tomar no c...". Zeca Camargo, mais "antenado", desde os tempos de VJ da MTV, não teve medo. Ainda postou o vídeo e viu seus comentários quase triplicarem. Mas a chamada na capa do G1 (que durou muito tempo, aliás; o que sinaliza "boa audiência"), com a impressão de que o espaço era insuficiente para mais, foi "Vai tomar..."
Se o vídeo é mesmo um fenômeno midiático – da nova mídia, claro -, se está nas caixas de e-mail de todos que têm uma caixa de e-mail, se já foi visto pelas crianças de 7 anos que não lêem o jornal – e, portanto, não se preocupam se ele grafa "c..." ou "cu" -, qual a explicação para essa auto-censura? Para quê noticiar algo que, mesmo sem o link, pode ser encontrado em 0,14 segundos no Google (dei-me ao trabalho de fazer o teste), se o pudor da mídia vanguardista não permite expressar o que ele, o vídeo, expressa?
Foi-se o tempo, felizmente, dos leitores de jornal que usavam cartolas, passeavam pelo Anhangabaú
Por Tiago Soares
Um dia, à beira do oceano, alguém jogou ao mar uma mensagem na garrafa.
Esse alguém não estava só.
Adolescentes românticas, maníacos por filmes de terror, economistas amadores e de ofício, escribas profissionais, gente de todos os feitios e tamanhos -- eram muitos os que andavam jogando garrafas ao mar naqueles tempos.
Algumas garrafas nunca chegavam a ter seu conteúdo lido por quem quer que fosse. Outras caíam em mãos interessadas, inspiravam as massas, pautavam telejornais. Alguns, ofendidos ou críticos ao conteúdo de certas garrafas, lançavam ao mar também as suas, na esperança de que suas idéias fossem lidas por gente com os mesmos pontos de vista.
Num certo momento, eram tantas, tantas as garrafas que os destinatários antes acidentais podiam escolher as que mais lhes interessassem. Chegavam mesmo a construir comunidades ao redor de idéias desengarrafadas.
Até que os fabricantes de garrafas tiveram uma sacada. E começaram a fazer exigências para os que quisessem enfiar idéias dentro de seus recipientes e lançá-los ao mar. Alguns pediam certos direitos sobre o que suas garrafas carregassem no oceano. Outros demandavam que as mensagens fossem escritas apenas num papel timbrado disponibilizado por anunciantes.
Houve até quem passasse a cobrar taxas para o usufruto marítimo de vasilhames.
Depois disso, a coisa toda ficou um pouco confusa.
Bom, a analogia pode não ser exatamente perfeita, mas ferramentas de publicação como blogs, wikis, listas de discussão, são, cada qual à sua maneira, como as garrafas para as idéias dos seres do ciberespaço. Vasilhames feitos de camadas de códigos, servidores, banda. Lançadas ao mar da WWW, navegando correntes de hiperlinks.
É fato que essas novas interfaces tecnológicas trouxeram poder de expressão inédito ao público. Nunca foram tantos os grupos e idéias a circularem no debate global. Nunca a máquina de consenso da grande mídia corporativa esteve tão fragilizada frente ao contraditório, tão exposta à desmistificação de seus mecanismos.
Softwares de publicação online cada vez mais poderosos são disponibilizados a custo baixo ou zero. Grupos que partilham dos mesmos interesses organizam-se em comunidades no ciberespaço, potencializando a difusão e o alcance de novos conteúdos alternativos.
Não é exagero dizer que tendemos para um cenário no qual, à vista do usuário, nivelam-se a credibilidade e alcance do(s) blog(s) independente(s) e do grande portal de mídia (afinal, o trabalho para se acessar tanto um site quanto o outro é, via de regra, o mesmo).
Esse novo universo, indubitavelmente promissor para a multiplicação de culturas e idéias, não é, porém, totalmente livre. Um exemplo: enquanto a Wikipédia disponibiliza seu conteúdo colaborativo por uma licença livre (Gnu Free Documentation Licence - GFDL), o popular portal de relacionamentos MySpace.com já enfrentou manifestações de usuários que afirmam ter tido seu trabalho censurado pelos administradores do site.
Vale lembrar que o MySpace.com foi comprado em julho de 2005 pela News Corp, a gigante de mídia que comanda a Fox. E que a censura que os responsáveis pelo site teriam promovido sobre o conteúdo de usuários seria causada por motivos comerciais – todas mensagens deletadas citariam informações de sítios rivais.
Ao mesmo tempo em que disponibilizam ferramentas para uma expansão imediata de culturas e idéias no ciberespaço, conglomerados como a News Corp, donas dos servidores e dos softwares através do quais se expressam milhões de pessoas, pairam com a espada de Dâmocles sobre a cabeça de seus usuários.
O futuro dessa eminência de grandes grupos econômicos sobre estruturas de comunicação baseadas na web é ainda incerto. Mas não seria desvario pensar em hipóteses como censura, apropriação de trabalho intelectual, ou exigência de contrapartida financeira para a continuidade de serviços hoje gratuitos, entre outras coisas.
Até onde pode ir o poder das corporações de mídia e internet sobre o conteúdo gerado por seus usuários? Como resistir?
Questão delicada, essa.
Mas algo ou alguém há de zelar pelo direito de todos jogarem suas garrafas ao mar. E a resposta pode bem estar nas adoção e no uso de tecnologias livres e abertas.
Por Sylvio Rocha
Como a câmera de película, como um pincel, como o violino, o digital é uma ferramenta. Uma ferramenta nova e cheia de possibilidades. O artista escolhe a ferramenta que melhor convier para se expressar. A linguagem não vem da ferramenta, ela vem do artista.
Quando George Eastman lançou a kodak, a primeira câmera fotográfica portátil em 1888, fez todo americano virar um fotógrafo em potencial. “Você aperta o botão e nós fazemos o resto” dizia o slogan. Com isso, levou a fotografia para dentro dos lares e da vida das pessoas. Ele popularizou a fotografia tornando-a acessível. O trabalho laborioso e científico do fazer fotográfico ganhara uma outra dimensão, foi a massificação de uma ferramenta.
As câmeras digitais fotográficas de hoje fazem tudo. Gravam som, imagem, fotografam e até falam. Elas acompanham a vida em toda a sua extensão.
Nas idas ao dentista e até na intimidade com a namorada ela está lá, presente e disparando.
Para os Gregos, a visão era considerada o maior dos sentidos. Hoje em dia, a linguagem visual é muito forte: no mundo de fast food, de altos níveis de poluição e da velocidade exacerbada, seguramente o sentido que mais utilizamos é o da visão, o nosso fraco órgão sensitivo. Vivemos na era da imagem.
Com o digital, o fazer ficou mais fácil e seguramente, com o passar do tempo ficará cada vez mais. A cultura digital aproximou-nos de ferramentas de criação fantásticas, que ampliam nossa capacidade de produção, facilitam o trabalho e possibilitam uma pluralidade de obras.
As câmeras estão aí sendo colocadas à prova para todos que quiserem se aventurar no mundo do vídeo. Existem trabalhos excelentes sendo realizados nesse suporte e festivais que estimulam as criações. A possibilidade de uma pessoa anônima, num quarto pequeno com uma câmera e um computador realizar um filme é incrível. A escrita do áudio-visual será a linguagem das novas gerações.
O mundo do digital acabou com o problema da distribuição e da exibição das artes reprodutíveis. O artista anônimo consegue divulgar seu trabalho pelo mundo; sua obra pode ser visitada, comentada e se ele permitir, até modificada por outras pessoas. O diálogo voltou.
Claro que Eastman não conseguiu fazer com que todos fôssemos transformados em artistas. Todos já passamos tardes chatíssimas na casa de um amigo ou de uma tia, ao lado de um projetor de slides vendo fotos feias e sem interesse algum, de um lugar que seria melhor conhecer pessoalmente do que ver projetado numa parede branca. Devemos essa chatice a ele. Mas seguramente a muitos ele encorajou e estimulou indiretamente. A socialização da ferramenta possibilitou a descoberta de suas capacidades, de seus limites e de seus artistas.
A pluralização das obras é válida, resta-nos saber o quê degustar desse vasto universo digital. Como tudo na vida.
Por Edgard Piccino
Quando falamos em diversidade muito se fala sobre tolerância. Seria este o melhor foco para a discussão?Por Leo Germani
Existe um grande mal entendido nos recorrentes discursos sobre descentralização atualmente. Existe também uma idéia errada da noção de liberdade atribuída aos movimentos de “cultura livre” e “software livre”. As novas tecnologias, a “libertação” do conhecimento e a descentralização dos processos não trazem praticidade, agilidade, conforto, segurança, felicidade, harmonia e bem-estar para nosso dia a dia. Ao contrário, o que fazem é apenas nos dar mais responsabilidades e, por que não dizer, trabalho.Por André Lemos
Recombinar, copiar, apropriar, mesclar elementos os mais diversos não é nenhuma novidade no campo da cultura. Toda cultura é, antes de tudo, híbrida; formação de hábitos, costumes e processos sócio-técnico-semióticos que se dão sempre a partir de acolhimento de diferenças e no trato com outras culturas. A re-combinação de diversos
elementos, sejam eles produtivos, religiosos ou artísticos é sempre um traço constitutivo de toda formação cultural. Por outro lado, toda tentativa de fechamento sobre si acarreta empobrecimento, homogeneidade e morte. A cultura necessita, para se manter vibrante, forte e dinâmica, aceitar e ser, de alguma forma, permeável a outras formas culturais. Esse processo está em marcha desde as culturas mais “primitivas”, até a cultura contemporânea, a cibercultura. Assim, não é a recombinação em si a grande novidade, mas a forma, a velocidade e o alcance global desse movimento. As novas tecnologias de comunicação e informação serão vetores de agregação social, de vínculo comunicacional e de recombinações de informações as mais diversas sobre formatos variados, podendo ser textos, imagens fixa e animada e sons. A cultura “pós-massiva” das redes, em expansão com sites, blogs, wikis, softwares livres, redes de relacionamento, troca de fotos, vídeos e música em diversos sistemas mostra muito bem esse movimento de recombinação cultural em um território eletrônico em crescimento planetário. A cibercultura é importante porque ela é, em sua própria essência, diversa, multimodal, multivocal. Ela permite a liberação da emissão, a conexão de pessoas reconfigurando a indústria cultural massiva.
Por André Lemos
A cibercultura instaura uma estrutura midiática ímpar (estrutura com funções “pós-massivas”) na história da humanidade onde, pela primeira vez, qualquer indivíduo pode produzir e publicar informação em tempo real, sob diversos formatos e modulações, adicionar e colaborar em rede com outros, reconfigurando a indústria cultural (“massiva”). Os exemplos são numerosos, planetários e em crescimento geométrico: blogs, podcasts, sistemas peer to peer, software livres, wikis, softwares sociais, a arte eletrônica... Trata-se de uma crescente troca de informação e processos de compartilhamento de diversos elementos da cultura a partir das possibilidades abertas pelas tecnologias eletrônico-digitais e pelas redes telemáticas contemporâneas. Por isso ela é uma cultura "remix", do compartilhamento, das possibilidade de cooperação e de combinação de informações (bits) sobre diversos formatos. O atual desenvolvimento do que se está chamando de Web 2.0 nada mais é do que o surgimento de novas ferramentas digitais que permitem a participação, o compartilhamento, a troca e, assim, o crescimento da cultura, da ciência, das relações sociais. Sempre que podemos emitir livremente e em contato com outros, essa ação é forte em conseqüências. É o que estamos vivendo hoje com a cibercultura. Uma remixagem radical da cultura do espetáculo e da massificação.Por Oona Castro
A cultura digital transformou radicalmente o mundo dos negócios: não se trata apenas de ter levado ao plano virtual as relações de troca ou contratos antes estabelecidos. As mudanças recentes não só conferiram novo ritmo e características a transações e negociações, como também têm possibilitado a reinvenção da maneira de fazer business, de criar, de produzir, de distribuir etc.Por Paulo Lima
A discussão sobre financiamento do que a gente vem chamando de indústrias criativas e conteúdos na chamada sociedade da informação e do conhecimento, segue na região. Os interessados no tema podiam jogar seus pitacos numa pesquisa em linha que tá em http://www.elac2007.info/?da=4962. O Elac 2007 é o plano implementação de estratégias para a sociedade da informação e do conhecimento na América Latina e Caribe. É facilitado pela CEPAL. Para quem não acompanha a CEPAL hoje é um espaço em disputa. O Presidente é um ex-ministro da economia do Menen, José Luis Machinea e hoje em dia está muito distante do tempo do Celso Furtado, mesmo do tempo do Cardoso... De toda forma é melhor ocupar o espaço do que deixar rolar. Podem participar todas aquelas pessoas envolvidas com as Indústrias de Conteúdos de nossa região, sejam do setor público, academia ou sociedade civil. Dentro destas se incluem as seguintes indústrias: editorial, cinema,televisão, criação musical, produção musical independente, discográfica, conteúdos para celulares, conteúdos para Web, etc.Por Sebastião Squirra
Os recursos de conexão e interatividade presentes no que chamam de "cultura digital" estão permitindo – como nunca na história – o acesso, o manuseio, a estocagem e o desfrute de todas as formas de manifestação do conhecimento conquistado pela sociedade. Aí incluídos, aqueles científicos e artísticos. Acumulado durante o longo período de organização da história humana e com a amigabilidade dos instrumentos tecnológicos atuais, todo o conhecimento está disponível e sendo fortemente dinamizado pelos recursos da comunicação digital moderna. De fato, antes o conhecimento estava nos livros estocados nas bibliotecas, acessíveis a partir do deslocamento pessoal até os arquivos codificados existentes em inamistosos e específicos prédios. Hoje, o acesso à obra é possível com o uso de um computador e uma conexão, a partir de qualquer lugar. A arte existia e estava organizada nos museus, sendo que, para conhecê-la, precisava visitar pessoalmente ou comprar uma obra onde tal peça estive impressa. Hoje, isto tudo está facilitado e é de acesso comum. O conhecimento se organiza em múltiplas camadas, sendo estas armazenadas em processos distintos e com contornos que foram claramente delimitados com o passar dos anos. Todavia, entendo que a "cultura" digital é, ela mesma, fortemente delineada pela "ciência" tecnológica, como apresentado anteriormente. Assim, parece mais convincente aceitar que ao se aproximarem a tecnologia e o mundo digital (de fato, este não vive sem aquela), provocou-se uma extraordinária multiplicação do acesso ao conhecimento científico e artístico, favorecendo uma profunda melhoria na vida geral. Quer dizer, acesso ao maior banco de dados possível de ser consultado, que é a própria história do ser humano, seu passado, presente, futuro e a todas os inúmeros formatos da sua produção. Sejam estes nos territórios eminentemente científicos, artísticos ou existenciais. Finalmente, concluo lembrando que nos últimos séculos, a tecnologia facilitou a vida (vem mesmo "permitindo" a vida), aproximando o homem da sua história, da espiritualidade e, sobretudo, da sua criatividade. Mas, poderá também, se não for bem dosada, afastá-lo disto tudo, de si mesmo.Por Raphael Prado
As possibilidades participativas abertas pela internet na elaboração de conteúdo não enfrentam apenas a dificuldade econômica imposta por grandes corporações que querem manter o "status quo", resistindo às evoluções que lhes tirariam lucro. Nem precisam lidar apenas com o turbilhão de novidades vindos de todos os lados, como um engavetamento de vários veículos num acidente. Não.Por Walter Lima
As manifestações populares tradicionais brasileiras encontraram na tecnologia digital das redes uma forte aliada para a sua preservação e divulgação. Com a possibilidade de armazenamento e acesso a ativos digitais como áudio, imagem e vídeos, essas manifestações espantaram os fantasmas do desaparecimento e do esquecimento.Por Marsal Alves Branco
Os games e comunidades virtuais alternativas oferecem novas possibilidades de apreensão e expressão de identidades e relacionamentos. Possibilidades essas que não são antagônicos com outros tipos "mais tradicionais", mas que, acrescentando àqueles, os enriquecem e complexificam.Por Sebastião Squirra
Em princípio contextualizante, constato que se entende pouco as características, pertinências e aplicações dos infindáveis instrumentos tecnológicos que a invenção humana coloca à disposição da sociedade. Por isso, pode-se afirmar que em determinadas partes do globo (sobretudo nos países com pouca cultura tecnológica, normalmente os pobres) os instrumentos e equipamentos oriundos das tecnologias – sobretudo as avançadas, onde se sobressaem as digitais – são manuseados aleatoriamente, evidenciando uso “cego” (sem formas de conhecimento aprofundado e contextualizado), com alta aplicação da intuição e com a experimentação ousada através de impulsos livres. É o princípio do “aperta para ver o que acontece”.
Por outro lado, é possível perceber que os aspectos distintos das manifestações culturais vêm recebendo historicamente muito mais atenção, sendo melhor entendidos, aplicados e explorados.
Primeiramente, é interessante lembrar que não existem formas “milagrosas” na transmissão do conhecimento, partindo do princípio único de que isto se dará a partir da existência dos recursos tecnológicos. Quer dizer, políticas sociais devem já estar presentes, como por exemplo: é necessário alfabetizar massivamente os contingentes sociais excluídos para que, de forma clara, estes consigam entender os códigos que cimentam a cultura e sua transmissão (que, neste cenário, não mais se dá oralmente, como no passado). Em seguida, é importante que se faça a “alfabetização tecnológica”, pois o mundo com os aplicativos da modernidade são complexos (as redes, os bancos de dados etc); requerem abstração conceitual (afinal, como entender a virtualidade?); dedicação para sua compreensão e exploração racional (quantos usam os manuais?) mas, sobretudo, tempo livre (na jornada de muitas horas, poucos têm disposição para o contato com coisas fora do cotidiano) e alguma disponibilidade financeira (comprar as máquinas, pagar os sistemas etc).
Mas é possível reconhecer que, com todos estes predicados elencados, quando acessíveis, os produtos tecnológicos realizam ação de melhora e incremento da percepção humana a partir do contato com a cultura e a manifestação inédita e de aplicação “complementar” ao dia-a-dia. Assim, concluo que os seres humanos, de uma forma imediata ou temporalmente sutil, tornam-se mais “completos” a partir da exposição ao conhecimento viabilizado pelas tecnologias, que o contrário. Ainda entendo que, a essência da ação da tecnologia é sua atuação como suporte das manifestações culturais, restando a estas, a excelência na abordagem dos conteúdos e suas contextualizações epistemológicas.
Por Hernani Dimantas
A nossa idéia não é matar propriedade de idéias e autoria. Pelo menos não como um objetivo. Creio que essa descontrução está acontecendo independente da nossa atuação. Estamos apenas contribuindo para a construção de um outro conceito de autoria e propriedade. Onde a colaboração passa a ter um papel mais importante do que a catedral. O conhecimento tende a ser livre. E para esse conhecimento fluir é necessário abrir outros caminhos. O metareciclagem está focado nessas experimentações, na ruptura do velho paradigma e principalmente, na possibilidade de outras produções. Colaboração é processo, trata-se de fazer acontecer independentemente do retorno financeiro a curto prazo. É esta a grande novidade. A metodologia de trabalho é simples e virtual, ou seja, qualquer pessoa com um computador conectado à rede e tem a possibilidade de participardo espaço informacional. Numa multidão hiperconectada o conhecimento livre tende a se expandir. A prática do conhecimento livre traz a reboque uma série de novos paradigmas que dialogam em tempo real com os enunciados que até agora deram sustentação filosófica à humanidade. Estamos presenciando mudanças drásticas nos debates sobre propriedade intelectual, liberdade de expressão, nas práticas de comunicação. Estamos apenas no início de uma revolução não televisionada.Neste contexto, a metareciclagem é uma conversação em rede focada no trabalho imaterial, um tipo de interconexão que acontece em tempo real, uma conversação engajada com uma expectativa existencial otimista em relação às possibilidades de mudanças e de revoluções. A metareciclagem privilegia o diálogo.Por Marcos Dantas
Por definição, na linguagem digital, só existe a alternativa entre 1 e o 0 (zero). Trata-se de de uma taxa muito limitada de diversidade... Preocupa-me mais a diversidade cultural, na medida em que contribua para o enriquecimento social geral e uma visão universal, por isto necessariamente plural, da humanidade. Neste sentido, a política pública tem que ser ativa no sentido de prover, diretamente ou indiretamente, os meios técnicos universais de acesso à informação e de comunicação do conhecimento, e passiva no sentido de não intervir contrariamente à liberdade de expressão, salvo, claro, nos casos aberrantes (abuso sexual, pregação de violência, racismo de qualquer tipo etc.). A política pública também precisa ser ativa (e muito ativa) no sentido de prover educação universal: sem acesso a padrões superiores de educação, ao domínio das línguas de cultura, das ferramentas científico-matemáticas, bem como amplo conhecimento das formas e técnicas de diversas manifestações artísticas (música, pintura, literatura, teatro, cinema), as múltiplas possibilidades de expressão cultural acabam não interagindo entre si, não evoluindo, fechando-se em guetos culturalmente pobres e estranhos uns aos outros.Por Stefanie Carlan da Silveira
Acredito que a relação entre cultura digital e diversidade deve ser bem trabalhada para que as manifestações presentes na rede não fiquem restritas a um determinado grupo social. O ponto de ligação entre os dois conceitos está justamente no fato de que a cultura digital é mais aberta à participação, configurando reconstruções midiáticas nunca antes possíveis. Assim, a diversidade deve ser levada em conta quando se percebe que ampliar o domínio dos processos tecnológicos faz com que mais pessoas se apropriem da Internet e a utilizem conforme os seus interesses e objetivos. Isto não significa dizer que a cultura digital é dar voz a quem não tinha. Todos temos voz, no sentido de que toda pessoa tem algo a contribuir e acrescentar ao debate da sociedade e é esta contribuição que tem a divulgação facilitada através do digital. A possibilidade de intervenção existente na web é um fenômeno que vai mudar a cara dos meios e dos processos de comunicação existentes. No entanto, é preciso ter claro em mente que as barreiras burocráticas e mercantis devem ser derrubadas para permitir o avanço das manifestações diversas da cultura digital.Por Marcos Dantas
Na medida em que as tecnologias digitais favorecem a interatividade, a questão central é assegurar a todos - pessoas ou grupos - o acesso aos meios que lhes permitam expressar seus sentimentos, idéias ou projetos. Ou seja, a questão central reside na universalização e em políticas universalizantes. Se for dada a cada comunidade a possibilidade de se exprimir em uma rede universal, está dada a ela a condição inicial, na realidade sócio-econômica atual, para expressar a sua particularidade cultural e política. Penso que, hoje, o governo deveria implementar uma real política para universalizar a banda larga no Brasil através de empresas concessionárias de telecomunicações (as atuais ou outras que o venham a ser), já que a estas empresas outorgou-se o mandato público de assegurar a universalização. Noutras palavras, não tem mais sentido prosseguir-se com políticas para universalizar apenas a telefonia fixa (banda-estreita), mas se deve avançar para universalizar a banda-larga com ou sem-fio.
Por Felipe Fonseca
Um ambiente aberto de troca de conhecimento, mesmo com a ênfase no questionamento do papel tradicional do autor, não necessariamente é a ausência de autores. Os conceitos de flexibilização do direito autoral propõem que todos podem ser autores, questionando aquele mito renascentista do autor iluminado que conversa com a musa, tem o sopro divino ou um pacto com o diabo. Tratando a criação como acessível a todas as pessoas, na verdade o que a gente propõe é a universalização do direito e da consciência da possibilidade de criação. Não queremos acabar com os autores. Queremos que as pessoas percam o medo de criar. Queremos que as pessoas se apropriem do conhecimento e da cultura como o que são: construções coletivas, dinamizadores de relacionamentos entre pessoas, criadores de identidade, motores da inovação. Se para mostrar isso precisamos em determinado momento de uma idéia sem autor ou de uma idéia com milhões de autores ou de uma idéia com um autor que não existe (quem escreveu a Ilíada mesmo? e a Bíblia?), que seja. O que não podemos é dar mais atenção à legislação ou ao mercado do que ao impulso criativo.
Por Marcos Dantas
Não sei se existe propriamente uma "cultura digital". Existem cultura e culturas com base em unidades culturais mínimas que, através dos significantes e significados linguísticos, organizam a relação entre grupos e comunidades consigo mesmas e com os ambientes sócio-naturais à volta.Por Irineu Franco Perpetuo A expansão da internet e das redes informacionais chegou em um momentodelicado para a divulgação das expansão das expressões eruditas na música. A vida de concertos concentrava-se apenas nos grandes centros; os discos,importados, raros e caríssimos, estavam disponíveis apenas em meia dúzia delojas especializadas das maiores cidades; e a publicação e distribuição de partituras havia sido reduzida à beira da inexistência. Some-se a isso aescassez de bibliotecas em geral (e de acervos musicais para consulta emparticular) no país, e a falta de discotecas públicas (locais em que se podem ouvir e retirar discos) para se ter uma idéia dos gargalos que osmeios tradicionais de difusão de cultura impunham à expansão das expressõeseruditas da música no Brasil.A Internet e as redes informacionais chegaram para oferecer possibilidades que mal começamos a explorar, mas que já fazem a diferença paracompositores, intérpretes e aficionados, reduzindo sesivelmente nossadependência dos caprichos de gravadoras, editoras ou agente de concertos. Aweb nos permite ter acesso instantâneo aos grandes mestres do passado, bemcomo aos talentos emergentes; facilita que se conheçam e difundam asprincipais criações da História da Música, bem como as obras que estão, hoje, escrevendo essa mesma História. É claro que a utilização destaspossibilidades será ampliada ou restringida na proporção direta em que seamplia ou se cerceia a liberdade de troca de informação em rede. Seria ironicamente triste se um conceito engessado e ultrapassado de propriedadeintelectual, cristalizado sob a forma dinossáurica do copyright, acabassepor bloquear as estradas que a tecnologia digital está a nos abrir.
Por Magaly Prado
A adoção do padrão Iboc (In Band on Channel) para o rádio digital noBrasil permite que os mesmos radiodifusores que possuem concessão (mesmoque por tempo determinado por lei) de freqüências de AM e FM permaneçamcom essas concessões. Ou seja, novos radiodifusores ficam de fora daabertura de novas bandas que o sistema digital permitiria e, claro,incitaria uma boa chacoalhada no dial com a democratização desse meio decomunicação.Por enquanto, algumas redes de rádios: AMs como a Bandeirantes, FMs comoa CBN, estão testando o funcionamento técnico do sistema Iboc (apenas aRadiobrás, sediada em Brasília, está interessada no DRM, padrãoeuropeu). O grande problema até então sem solução, é o delay de cerca de6 segundos quando o sinal sai do analógico e vira digital. Mesmo porque,a grande justificativa dos radiodifusores em adotar o Iboc é exatamentea de que com ele podem operar nos dois sinais simultaneamente até quetodos possam trocar seus receptores (o que pode levar anos, seconsiderarmos o preço em torno de U$ 300). Fora isso, outros entravescomo as rádios piratas bloqueando testes de alcance, no caso das \FMs, oumesmo locais onde simplesmente o sinal apaga, provocam dores de cabeçanos engenheiros.Ao pensarmos no conteúdo (o ponto mais interessante), a possibilidade defatiar a banda em 2 ou até mesmo em mais rádios (3 ou 4 só no caso derádios de falação do que em musicais, por conta da perda de qualidadetécnica na compressão) vai propiciar novas rádios diferenciadas,segmentadas. Por exemplo: a rádio Bandeirantes AM finalmente poderáemplacar o projeto de uma emissora 24h esportiva em um dos canais,deixando no primeiro, a tradicional RB (carro-chefe do grupo). Em rádiosmusicais, a divisão de canais pode contemplar novidades da músicaemergente em um e flash back em outro, e por aí vai. Afinal, existemtrocentos projetos de rádios nas gavetas, nem sempre com forte apelopopular, ao contrário, cada vez mais hipersegmentados, como a própriatendência que é tão óbvia em nos demonstrar a diversidade culturalpossível.Bom, não vou entrar aqui em detalhes do que o rádio digital pode nosoferecer como leituras no visor do aparelho como notícias, letras demúsicas, informações de artistas, mapas de trânsito e toda a sorte deimagens em fotos e em vídeos extrapolando o áudio, ok? Deixo para umpróximo texto.O mais importante no momento é saber se teremos ainda tempo de nosmobilizarmos para pelo menos uma discussão mais profunda do padrão a seradotado para não continuarmos nesse esquema fechado, nas mãos de poucos"donos" que historicamente monopolizam as emissoras no dial convencional.Por Gilson Schwartz
Acredito que existe uma economia própria da cibercultura tão intensamente que até inventei uma nova "ciência" para dar conta das características da "nova economia", denominando-a "Iconomia". Ela é tema de uma disciplina, na USP, que estamos oferecendo para alunos de engenharia, economia, administração e contabilidade, ciência da computação, comunicações e artes.Por Giuseppe Cocco Vou saquear a reflexão de alguém e doá-la. Digamos que vou "samplear".
Com efeito, me parece que a melhor resposta a essa questão foi dada, em uma entrevista recente, pelo antropólogo Eduardo Viveiros de Castro (Azougue n11 - Cultura e Pensamento - 2007): "O Criative Commons está tentando consagrar do ponto de vista jurídico o processo de hibridação". É exatamente isso. A relação entre cultura digital e diversidade é a de que a cultura digital abre e multiplica, em todos os níveis, o processo de mestiçagem, atualizando o projeto antropofágico, "o saque positivo, o saque como instrumento de criação. Eu sampleio e dou (...)". No ambiente digital, a criação aparece como sendo – sem ambigüidades – sempre uma cooperação e uma projeção no futuro de algo que já existe. A diversidade é pois intrínseca à cultura digital. Ao mesmo tempo, a produção dessa diversidade é completamente relacional, reticular: uma diferenciação.
Por Hernani Dimantas
MetaReciclagem é principalmente uma idéia. Uma idéia sobre a reapropriação de tecnologia objetivando a transformação social. Metareciclagem é sobre reciclar idéias. No contexto daquilo que chamamos cultura digital (eu particularmente prefiro cultura do remix), reciclar, modificar, transformar, copiar e colar são as variáveis que dão o substrato para essa cultura. O MetaReciclagem mais do que um projeto é uma metodologia. Todo esse processo que é 'ametareciclagem' nos remete à idéia de inquietude potencializada.Potência de querer transformar, de engajamento no espaço informacional. De apropriação e replicação das relações tranformadoras. Atuamos na arte, na política pública, na cultura... Estamos construindo um modelo de transformação social. Não se trata de um invento, de uma criação. Somos parte de um movimento colaborativo imenso. De uma imensidão de comunidades de desenvolvedores de softwares. De blogueiros, de linkadões espalhados pelo mundo com objetivos semelhantes na produção colaborativa. Muita gente ronda pelos bastidores cibernéticos.Todo esse processo começa a criar rizomas. Um modelo começa a emergir das entranhas da rede. Gosto de pensar que o paradoxo se torna paradigma no ritmo de uma cultura de remix. O conhecimento começa a se libertar das instituições. E, faz da rede um repositório colaborativo.Por Paulo Lima
A diversidade cultural é – e em relação a isso não pairam dúvidas – uma das maiores riquezas da humanidade e seu respeito não é só um direito dos povos mas também, num marco de diálogo e cooperação, uma condição para se avançar para a paz e convivência mundiais. A Declaração, em seus 12 artigos e 20 pontos para a construção de um plano de ação, faz um belo e útil diagnóstico dos perigos e dos rumos que a mundialização apresenta. Não só no campo das culturas, mas também expõe de maneira clara e objetiva a tensão principal: o paradoxo na relação entre o cultural e o econômico.O tema central, a Diversidade Cultural, entendida como um direito fundamental da humanidade, regulamentada em acordo internacional, se choca frontalmente com os interesses comerciais em jogo e manejados por alguns países desenvolvidos. Nunca é demais esclarecer as coisas.
Apesar das imensas promessas que contém, a globalização ameaça a diversidade cultural. É verdade que ela facilita a circulação de bens e serviços culturais e favorece a redução dos custos de produção. Os produtos culturais assumem um lugar crescente na criação de riquezas e de emprego no mundo. O alargamento dos mercados abre perspectivas novas para os criadores de todas as origens, e o progresso das tecnologias da informação e da comunicação constitui uma oportunidade para o conjunto das culturas e das línguas, nomeadamente as das minorias. No entanto, o desenvolvimento e a liberalização dos intercâmbios internacionais, em conjunto com a convergência das tecnologias da informação e da comunicação, provocam a concentração das indústrias culturais e o aparecimento de empresas dominantes. Estas evoluções constituem uma ameaça de uniformização das culturas e de marginalização dos criadores e põem em perigo o pluralismo cultural, incluindo o linguístico. Neste quadro, torna-se urgente garantir a preservação da diversidade cultural enquanto fonte de criatividade e fator de coesão social e de desenvolvimento econômico. As políticas de apoio e de promoção cultural devem fazer com que todas as culturas tenham voz e opiniões no contexto da globalização.
É igualmente imperativo que o debate sobre a diversidade cultural não se limite ao confronto de interesses entre países tradicionalmente produtores de bens e serviços culturais. A este respeito há que reconhecer a situação especial dos países em desenvolvimento, que necessitam de uma atenção contínua ao se pretender reforçar a sua capacidade no domínio do desenvolvimento cultural, permitir-lhes desenvolver o potencial econômico da sua produção cultural e dar-lhes acesso a bens e seviços culturais que correspondam à sua própria cultura, condições essenciais para um verdadeiro diálogo entre as culturas do mundo.
Por Ana Brambilla
Enquanto alguns grupos vêem o ambiente digital como um produto ou facilitador da standardização de valores e padrões culturais por meio da globalização, é preciso reforçar a idéia e a aplicação do pensamento em rede para manter as diferenças e, mais do que isso, estimular suas manifestações.Podemos utilizar o grupo de e-mails para debater temas que ainda não foram publicados aqui. Me comprometo a postar resumo diário das discussões.
Por Irineu Franco Perpetuo
No livro O Museu Imaginário, publicado em 1947, o escritor francês André Malraux celebra um fato que, para nós, hoje parece banal, mas que, naquela época, era uma grande inovação técnica: o livro de arte, que oferece a qualquer um, seja ele estudante ou simplesmente um leigo interessado, o acesso a uma gama de obras maior do que o acervo de qualquer museu – e jamaisPor Gilson Schwartz
A diversidade cultural e, de modo geral, a democratização do acesso e das oportunidades de comunicação, criação e organização são a pedra de toque de um sistema livre, da defesa da liberdade de expressão e de melhoria nos padrões de governança na internet. Ao mesmo tempo, uma defesa absolutista da liberdade (por paradoxal que seja) leva a situações de desregulamentação completa que, nas atuais circunstâncias, tendem a favorecer os atores já consolidados econômica e culturalmente. O desafio é encontrar um meio-termo entre liberdade e regulação, defesa da diversidade e contenção dos monopólios, pluralismo com garantias democráticas.Por Cláudio Prado
Por Cláudio Prado
O Digital é um fenômeno Cultural e creio o melhor denominador da era que estamos vivendo. Ele contém um componente político/anárquico atávico. Anárquico no sentido de eliminar a necessidade de poder central, de eliminar potencialmente os intermediários que não agregam valor. Neste sentido, um índio da Amazônia, que faz cestas maravilhosas, pode encontrar pela internet, um cidadão em Viena que quer uma cesta dele. Desta forma, pode comprar do índio, por digamos 20 euros, o que hoje custa numa butique de Viena 200 euros. O índio, desta forma, estará ganhando 100 vezes o que ganha hoje quando vende para um atravessador que enche um caminhão de cestas para levar para São Paulo e que acaba numa butique de Viena pelos 200 euros.Por Sérgio Amadeu da Silveira
Este é um texto, versão beta, para ser levado ao "Seminário Internacional sobre Diversidade Cultural: práticas e perspectivas", organizado pelo Ministério da Cultura em parceria com a Organização dos Estados Americanos, que ocorrerá no final de junho, em Brasília. Este seminário tratará de discutir e indicar proposições para implementar a Convenção sobre a Proteção e a Promoção da Diversidade das Expressões Culturais, da UNESCO, aprovada em 20 de outubro de 2005. A convenção da Unesco reconheceu a necessidade de adotar medidas para proteger a diversidade das expressões culturais e enfatizou também a relação estratégica entre cultura e desenvolvimento sustentável. As manifestações e as expressões livres e libertadoras da cultura digital constituem recursos indispensáveis e essenciais para assegurar a diversidade geral das expressões culturais de nossas sociedades. Reunindo ciência e cultura, antes separadas pela dinâmica das sociedades industriais, centrada na digitalização crescente de toda a produção simbólica da humanidade, forjada na relação ambivalente entre o espaço e o ciberespaço, na alta velocidade das redes informacionais, no ideal de interatividade e de liberdade recombinante, nas práticas de simulação, na obra inacabada e em inteligências coletivas, a cultura digital é uma realidade de uma mudança de era. Como toda mudança, seu sentido está em disputa, sua aparência caótica não pode esconder seu sistema, mas seus processos, cada vez mais auto-organizados e emergentes, horizontalizados, formados como descontinuídades articuladas, podem ser assumidos pelas comunidades locais, em seu caminho de virtualização, para ampliar sua fala, seus costumes e seus interesses. A cultura digital é a cultura da contemporaneidade. Como bem lembrou o Ministro-hacker Gilberto Gil, em 2004, em uma aula magna na USP, "cultura digital é um conceito novo. Parte da idéia de que a revolução das tecnologias digitais é, em essência, cultural. O que está implicado aqui é que o uso de tecnologia digital muda os comportamentos. O uso pleno da Internet e do software livre cria fantásticas possibilidades de democratizar os acessos à informação e ao conhecimento, maximizar os potenciais dos bens e serviços culturais, amplificar os valores que formam o nosso repertório comum e, portanto, a nossa cultura, e potencializar também a produção cultural, criando inclusive novas formas de arte." CULTURA DIGITAL, CIBERCULTURA E CULTURA DAS REDES A maior construção da cultura digital é a Internet que "nasceu da improvável intersecção da big science, da pesquisa militar e da cultura libertária." (CASTELLS) Deixando evidente que desde o início, "o remix é a verdadeira natureza do digital" (GIBSON). O digital é a meta-linguagem da cultura pós-industrial que avança no interior das redes informacionais e para fora delas, do ciberespaço para a atualização em novas sociabilidades. Por isso, a cultura digital é também a cibercultura e representa o novo estágio da cultura de rede. A cibercultura então pode ser compreendida como "a forma sociocultural que emerge da relação simbiótica entre a sociedade, a cultura e as novas tecnologias de base micro-eletrônica que surgiram com a convergência das telecomunicações com a informática na década de 70." (LEMOS) Ela também é "o movimento histórico, a conexão dialética, entre sujeito humano e suas expressões tecnológicas, através da qual transformamos o mundo e, assim, o nosso próprio modo de ser interior e material em dada direção (cibernética)". (RÜDIGER). A Convenção sobre a Proteção e a Promoção da Diversidade das Expressões Culturais (Convenção da Diversidade) definiu que "expressões culturais são aquelas que resultam da criatividade de indivíduos, grupos e sociedades e que possuem conteúdo cultural". Assim, pensaremos neste texto as expressões culturais da cibercultura e sua relação com a diversidade em geral. Todos os nove objetivos da Convenção da Diversidade, relatados a seguir, têm relação direta com o desenvolvimento atual da cultura digital. São objetivos definidos pela Convenção:Aqui serão postadas as opiniões de ativistas e pesquisadores sobre a cultura digital e sua relação com a diversidade. Também será reformulada a versão beta do documento "Diversidade e Cultura Digital", escrito pelo curador e publicado acima, que conterá propostas para o incentivo da cultura digital no país e da pesquisa sobre o tema.
Sérgio Amadeu da Silveira é o curador da desconferência. Sociólogo e doutor em Ciência Política. Professor da pós-graduação da Faculdade Cásper Líbero. Foi presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (2003-2005) e membro do Comitê Gestor da Internet no Brasil. Autor de diversas publicações, entre elas "Software Livre: a luta pela liberdade do conhecimento". Coordena a Rede Livre de Compartilhamento da Cultura Digital.
Bianca Santana
Cláudio Prado é coordenador de Políticas Digitais do Ministério da Cultura. (© da foto: José Alberto)
Irineu Franco Perpetuo é jornalista, colaborador da Rádio e TV Cultura, do jornal Folha de S.Paulo, da revista Bravo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona). É autor de "Cyro Pereira - Maestro" (DBAEditora, 2005), e co-autor, com Alexandre Pavan, de "Populares & Eruditos"(Editora Invenção, 2001). Traduziu, diretamente do russo, "PequenasTragédias", de Púchkin (Editora Globo, 2006).
Ana Brambilla é jornalista, mestre em comunicação e editora assistente de internet na Editora Abril. Atua como cidadã repórter do noticiário sul-coreano OhmyNews, pesquisa e trabalha em projetos de jornalismo colaborativo.
Paulo Lima
Gilson Schwartz é líder do grupo de pesquisa "Cidade do Conhecimento", do Depto. de Cinema, Rádio e TV da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (http://www.cidade.usp.br/). Assina o blog "Iconomia" na revista Época Negócios (http://www.iconomia.globolog
Hernani Dimantas é coordenador do LIDEC - Laboratório de Inclusão Digital e Educação Comunitária, da Escola do Futuro - USP; mestre em comunicação e semiótica pela PUC / SP, faz doutorado na ECA - USP, em ciência da comunicação; articulador do MetaReciclagem; autor do livro Marketing Hacker - a revolução dos mercados.
Giuseppe Cocco é cientista político, doutor
Magaly Prado é radiomaker e jornalista. Na Faculdade de ComunicaçãoCásper Líbero, onde fez pós-graduação em Comunicação Jornalística, éprofessora de Produção e Direção de Rádio, no curso de Rádio e TV, e pesquisa sobre webradio no CIP - Centro Interdisciplinar de Pesquisa. Colabora no projeto Audicidades, da Cidade do Conhecimento, da USP. Publicou "Produção de Rádio - Um Manual Prático" pela editoraCampus/Elsevier. Escreve no UOL em formato blog a coluna Notícias sobre Rádio.
Marcos Dantas é professor do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio, doutor em Engenharia de Produção pela COPPE-UFRJ, ex-secretário de Educação a Distância do MEC, ex-membro do Conselho Consultivo da ANATEL. Autor, entre outras obras, de A lógica do capital-informação (Ed. Contraponto, 2002, 2ª ed).
Felipe Fonseca é pesquisador e articulador de projetos relacionados com produção colaborativa, mídia independente, software livre e apropriação crítica de tecnologia. Foi um dos fundadores do projeto MetaReciclagem e faz parte da equipe estratégica da ação Cultura Digital no MinC
Stefanie Carlan da Silveira é jornalista, pós-graduanda em Comunicação e Projetos de Mídia no Centro Universitário Franciscano. Pesquisou a produção de conteúdo colaborativo em redes digitais e contribuiu com o mapeamento do jornalismo on-line brasileiro na Universidade Federal de
Santa Maria.
Natália Garcia é graduanda em Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero. Formada no curso de Educação Democrática da escola Lumiar em 2002. Foi voluntária por três anos da ONG Aprendiz no projeto Oldnet – adolescentes do ensino médio que ensinam idosos a usarem o computador. Participa de um projeto de jornalismo gastronômico multimídia cuja proposta é abordar o tema de forma menos elitizada da que é feita nas revistas e jornais brasileiros. Assim como Jean Anthelme Brillat Savarin, Alexandre Dumas e Leonardo Da Vince, acredita que gastronomia é cultura, mas muito mais rica é a cultura em volta dela.
Sebastião Squirra concluiu o doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo em 1992. Atualmente é Professor da Universidade Metodista de São Paulo. Publicou 6 livros, 7 capítulos de livros, 16 artigos em periódicos especializados. Participou de 7 eventos no exterior e 58 no Brasil. Orientou 14 dissertações de mestrado e 3 teses de doutorado, além de ter orientado 10 trabalhos de conclusão de curso, tendo interagido com 17 colaboradores em co-autorias de trabalhos autorias de trabalhos científicos. Atua na área de Comunicação, com ênfase em Jornalismo Eletrônico. Sua produção científica, tecnológica e artístico-cultural focaliza principalmente: Comunicação eletrônica, Ciberespaço, Telejornalismo, Sociedade da Informação.
Marsal Alves Branco é formado em Publicidade e Propaganda pela Urcamp; tem mestrado em Comunicação pela Unisinos, na linha de Processos Midiático e é doutorando em Comunicação também pela Unisinos, onde pesquisa games. É professor pelo Centro Universitário Feevale nos cursos de Comunicação e Design, e pela Ulbra, pelos cursos de Comunicação e Fotografia. É atual coordenador do Núcleo de Publicidade e Propaganda da Feevale e professor pesquisador integrante do Grupo de Pesquisa de Comunicação e Cultura.
Walter Lima é doutor em Jornalismo Digital pela ECA/USP e pós-doutorando em Tecnologia e Comunicação. Jornalista, é pós-graduado em Consultoria em Internet. É também Pesquisador do Grupo de Pesquisa Comunicação e as Tecnologias Digitais (Comtec/Umesp) e professor do Programa de Mestrado da Cásper Líbero.
Raphael Prado é jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, de São Paulo. Já trabalhou em todas as formas de mídia "tradicional": impresso, radiofônico, e televisivo. Hoje é repórter do site Terra Magazine.
Oona Castro coordena o projeto Open Business, em parceria com o Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV) do Rio de Janeiro. É bacharel em Comunicação/ Jornalismo e fez pós-graduação em Propriedade Intelectual na FGV. Trabalhou em instituições como VisitBritain, British Council, Secretaria Municipal de Administração Pública da Cidade de São Paulo, Coordenação Municipal do Governo Eletrônico (E-gov) de São Paulo e Signus Editora. É sócia-fundadora do Intevozes - Coletivo Brasil de Comunicação Social, e colaborou com programas de inclusão digital.
André Lemos é Doutor em Sociologia pela Université René Descartes, Paris V, Sorbonne. Professor Associado do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas e do DECOM da FACOM/UFBa. Pesquisador 1 do CNPq.
Leo Germani é formado em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação e Filosofia da PUC-SP (2003). Cursou 5 semestres do curso de Rádio e Televisão da Faculdade de Comunicação da FAAP. Atualmente, está na coordenação do projeto LabLivre Cachoeirinha, no Centro Cultura da Juventude, Vila Nova Cachoeirinha, São Paulo. Este projeto é uma parceria articulada em 2004 entre Prefeitura e Ministério da Cultura. Também é coordenador do curso “Projeto I – Open Source” para alunos do 3o ano de Design Digital da faculdade Artivisive do Instituto Europeu de Design.
Edgard Piccino foi coordenador do Projeto TeleCEU da Equipe Pedagógica dos Telecentros da Prefeitura de São Paulo. Atualmente é Assessor do Diretor Presidente do ITI / Casa Civil da Presidência da República, e Secretário Executivo do Projeto Casa Brasil.
Sylvio Rocha é documentarista. Estuda História e formou-se em Cinema. Sua produtora, a Confraria, realiza inúmeros trabalhos ligando história oral e cinema. Como professor, já incentivou várias pessoas a trabalharem com a escrita do áudio-visual. Seu último filme, Somos Todos Sacys discute o embate entre a civilização e a floresta. Resignifica o mito nos dias de hoje.
Tiago Soares é bacharel em Comunicação Social pela Unesp, com especialização em Marketing pelo Sydney International College (Austrália). Pesquisador atuante da cibercultura, é envolvido em iniciativas e debates sobre comunicação e novas tecnologias livres, tendo trabalhado junto a instituições como o Fórum Social Mundial, Fórum Internacional de Software Livre e Observatorio para la CiberSociedad (Espanha), entre outros. É um dos coordenadores da ONG Rede Livre de Compartilhamento da Cultura Digital – Rede Livre.
Lídia Eugenia Cavalcante tem pós-doutorado em Ciências da Informação pela Université de Montreal – Canadá, doutorado em Educação pela Universidade Federal do Ceará e mestrado
Nelson Pretto é professor adjunto e diretor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia. Licenciado em Física e Mestre em Educação também pela UFBA. Doutor pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, com um estágio no Centro de Televisão Universitária da Universidade de Milão/Itália.
Daniela Silva é estudante de jornalismo da Cásper Líbero, onde participa do Grupo de Pesquisa e Estudos da Comunicação, Tecnologia e Cultura da Rede. É repórter do site Planeta Sustentável. Foi aluna-bolsista de Jornalismo Multimídia e outras disciplinas na Universidade do Texas em Austin, e monitora de pesquisa e educação a distância do Knight Center for The Journalism in The Americas.
Yara Guasque (Yara Rondon Guasque Araujo) é artista multimídia e professora do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da UDESC. Graduada em Licenciatura em Artes Plásticas pela FAAP; mestre em Literatura pela UFSC e doutora pelo programa de Comunicação e Semiótica da PUCSP; líder desde 2003 do grupo de pesquisa do CNPq Telepresença em ambientes imersivos, participativos e interativos. Coordenou entre os anos 1999 a 2001 o Perforum Desterro que investigava performances de telepresença; foi pesquisadora visitante entre os anos 2001 e 2002 no Media Interface and Network Design do departamento de Media, Estudos Informacionais e Telecomunicação da Universidade Estadual de Michigan, MSU, EUA; coordenou entre os anos de 2004 a 2006 do grupo Interações Telemáticas (www.udesc.br/perforum); e coordenou e participou em 2006 da exposição de instalações interativas Emparedados (www.ceart.udesc.br/emparedados).
Fernando S. Trevisan é empresário, trabalha com desenvolvimento de sistemas e web-sites desde 1996 e vive com o nariz enfiado nas diversas questões que circundam a rede - desde as bugigangas até ferramentas colaborativas, Barcamps, política e novos meios de negócios.
Pedro Paranaguá é líder de Projetos do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV Direito Rio e gestor dos cursos on line de Direito da FGV Online/Direito Rio. Professor do curso de pós-graduação lato sensu em propriedade intelectual da FGV DIREITO RIO, bem como do GVlaw, FGV-SP. Professor convidado da UFRJ e da UERJ. Mestre (mérito) em Direito da Propriedade Intelectual pela Universidade de Londres, Queen Mary, Reino Unido. Representante da FGV na Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), da ONU. Trabalhou por 3 anos no escritório de advocacia Gusmão e Labrunie. Autor da dissertação de mestrado “The Development Agenda for WIPO: another stillbirth? A battle between access to knowledge and enclosure” (2005); , do capítulo “Software Livre como Alternativa de Desenvolvimento e de Negócio: em busca da soberania nacional”, no livro “Propriedade Intelectual: estudos em homenagem à Professora Maristela Basso” (Juruá/2005), e do capítulo “Patenteabilidade de Métodos de Fazer Negócio Implementados por Software” no livro “Aspectos Polêmicos da Propriedade Intelectual” (Lumen Juris/2004), entre outros."
Quando anunciou seu suicídio, em 1999, o perigoso terrorista cultural Vitoriamario era uma rede subversiva (e muito divertida) composta por algumascentenas de pessoas, em sua maioria anarquistas, e isso só no Brasil. Ao esvaziarem o “condivíduo” - ou “nome múltiplo” - os veteranos do movimento deixavam uma reputação estabelecida e uma máscara vazia para ser adotada pelanova geração. Durante seus treze anos de atividade Vitoriamario produziu romances, teses,ensaios e livros-reportagem (um deles, uma denúncia contra o uso da caça aospedófilos como pretexto para o autoritarismo na Internet), muito dessematerial publicado e/ou disperso pela Web; expôs algumas figuras importantes da mídia brasileira ao ridículo - por exemplo, fazendo um programa de TV nos moldes do Linha Direta lançar uma busca internacional por uma pessoadesaparecida inexistente; ou enviando a emissoras de televisão trechos do que seria o vídeo de uma missa satânica mas que, quando finalmente exibido em sua totalidade, revelou-se uma alegre tarantela. Vitoriamario tinha uma boa noçãode “fair-play”: muitas de suas fraudes continham pistas (a assinatura V.M. em suas “denúncias graves”, por exemplo) que poderiam levar à descoberta, antesdo ridículo. Infelizmente, alguns vícios recorrentes da mídia - a queda pelo sensacionalismo, a tentação moralista - acabaram impedindo que as pistas fossem percebidas a tempo. O objetivo desse "condivíduo"? Além de umas boas risadas, fazer “guerrilhapsíquica” ou, citando o movimento Critical Art Ensemble, “criar choquessemióticos que contribuam para a negação da cultura autoritária”. Em outras palavras, dar às pessoas uma oportunidade de olhar para o mundo com outros olhos. E, agora, anos depois de “morrer” em praça pública, Vitoriamario é exportado do Brasil. Não na prática, ainda - não se sabe que alguém já tenha enviado um vídeo falso ao Jornal da CNN ou engabelado a Times - mas por meio de um site: exatamente, Apodrece e vira adubo, composto por ensaios em que Vitoriamario explica um pouco do que faz, e o porquê. Se não o site todo, ao menos boa parte, A Arte da Comunicação-Guerrilha, deveria ser leitura obrigatória em redações de imprensa e escolas de Comunicação; é um belo guia para aprevenção de vexames. Apodrece e vira adubo é apenas uma das formas de manifestação. SegundoVitoriamario, o objetivo é apresentar o debate atual em torno “do que talvez possa ser definido como ACORDE!”. Afirma também que pretende atrair mais gente para a festa, um escopo amplo. Um dos temas de que o site pretendetratar no futuro é a nova moeda vitoriamario, objeto de livre troca - escambomonetário - manifestação orgiátisca frente a globalização (ou "por uma globalização vitoriamario"). Há diversos manifestos e textos teóricos sobre como montar uma máquina de fazer moedas (caça níquel ao revés) eficiente. Alguns vitoriamarios, mais radicais, defendem a ética da depredação depropriedade, pública e privada, durante passeatas ("toda propriedade é um roubo", etc). Nesse mesmo texto, A note on anarchist tactics since Superagui,surge a idéia de que Vitoriamario deve tratar a mídia “do mesmo jeito que a polícia o faz” - isto é, a tapa, o que dá ao jornalista a perspectiva deapanhar dos dois lados. Outros textos, no entanto, lembram que vitoriamario não é um movimento em si, mas uma tática, que pode ser adotada por manifestantes violentos ou pacíficos, e citam uma manifestação vitoriamario contra a pena de morte, nosEUA, em 1999. Apodrece e Vira Adubo ainda pretende publicar uma coletânea de textos vitoriamarios - movimento que basicamente desistiu da política, da guerrilha e dos sindicatos e decidiu transformar o mundo a partir da mídia e da cultura. "Tomar a Conrad" é uma das metas lançadas em um ManifestoVitoriamario . O coletivo se pauta por uma série de “resoluções”. Uma delas define que o objetivo é “publicar livros que forneçam idéias divertidas (e, portanto, maiseficientes) para”, entre outros itens, “destruir o império, quebrar o modo deprodução capitalista”, “esmagar os fascistas”, “atazanar a classe média”e “divertir a macacada”. Concorde-se ou não com essas metas, é bom ver textos fundamentais a respeito do ativismo contemporâneo brotando do português. Textos como os de vitoriamario vêm tendo impacto cada vez maior nasideologias do underground e da Web - entre hackers e artistas alternativos, por exemplo - há anos. Talvez seja até uma surpresa para muita gente saber que existe debate teórico, dissenso e organização por trás de ações vitoriamario, o fato é que agora com Apodrece e vira adubo todos finalmente podem saber do que vitoriamario está falando.
Juliano Spyer (juliano@vivasp.com) é especialista em mídia social e projetos colaborativos na Web. Autor do livro 'Conectado' com lançamento previsto para agosto de 2007 pela Jorge Zahar Editora, e responsável pelos projetos LeiaLivro.com.br e VivaSP.com, mantém o blog Coletivo.com
Rafael Evangelista é jornalista e doutorando em antropologia (Unicamp). Entre seus temas de pesquisa estão ciência e sociedade, percepção pública da ciência, internet, jornalismo, comunidades virtuais, movimentos sociais e software livre. É editor da revista eletrônica ComCiência e colunista do site Dicas-L (seção Zona de Combate).
Fábio Malini é jornalista e professor adjunto do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Espírito Santo. É Doutor em comunicação e Cultura. E estuda os impactos da Internet na produção jornalística, em especial a simbiose entre jornalismo cidadão e jornalismo profissional. Participa da Rede Universidade Nômade. É também blogueiro: http://www.fabiomalini.wordpre
Alfredo Manevy é cineasta e Secretário de Políticas Culturais do MinC.