15 de mai de 2007

Desafios do jornalismo

Por Raphael Prado

As possibilidades participativas abertas pela internet na elaboração de conteúdo não enfrentam apenas a dificuldade econômica imposta por grandes corporações que querem manter o "status quo", resistindo às evoluções que lhes tirariam lucro. Nem precisam lidar apenas com o turbilhão de novidades vindos de todos os lados, como um engavetamento de vários veículos num acidente. Não.
A comunicação colaborativa enfrenta ainda jornalistas jurássicos. Saudosistas da redação de Nelson Rodrigues, decorada com o ventilador girando devagar apenas para espalhar a fumaça dos cigarros, eles ainda andam de terno num tempo em que o Google tem salas de reunião com pufes. Ainda acham charmoso o chefe gritando pelos corredores, cobrando dos repórteres que saiam para morder cachorros.
Esses dinossauros, que podem pagar para que alguém responda seus e-mails ou que se orgulham da ignorância tecnológica, sentem calafrios, do alto de seu pedestal egocêntrico, com a idéia de ter seu espaço dividido com um "mortal qualquer". Eles se arrepiam com a capacidade de produção de conteúdo – que ele pré-julga sem credibilidade – e relega essa informação à escura do grande portal. Felizmente, novas formas são inventadas a cada momento para que esse material seja amplamente divulgado. Com um simples clique. E felizmente, os tiranossauros de mãos atrofiadas para segurar o mouse, como seus ascendentes longínquos, entram em processo de extinção.

4 comentários:

Ceila Santos disse...

Sem dúvida, a seleção natural começou. Mas mesmo na grande mídia vejo muitos projetos colaborativos sendo iniciados e de forma bastante profissional. Acho que a turma da velha-guarda vem olhando sim de forma mais agradável para a nova forma de apresentar a informação com a chegada da banda larga. O problema são os donos do dinheiro. a partir disso, os anunciantes também vislumbram oportunidades de abrirem seus próprios canais, o que exige um novo modelo de negócio para imprensa como um todo. E principalmente para as inciativas de comunidades e redes sociais que não estão debaixo do guarda-chuva da grande mídia. isso transforma o status quo e se há alguém que possa contribuir com as iniciativas de redes sociais e canais de comunidades, gerenciados por novos jornalistas, só vejo um agente: o governo. isso sim também deveria ser pensado como política nacional!

"A" turma disse...

Aqui no ES, parece que estamos avançando por caminhos bastante interessantes. Além de um movimento mais organizado de monitoramento das atividades/concessões de comunicação (ou seja, através de uma participação mais direta na constituição de uma opinião pública a respeito do uso que atualmente é feito das redes de comunicação).

Como diz a Ceila, é preciso um novo modelo de negócio. Ou um "novo" modelo de modo de produção. Afinal, a idéia de que as redes e os canais de comunicação dependem dos "donos do dinheiro" e dos anunciantes está diretamente relacionada com o modo de produção em que essa indústria se sustenta (e em que se sustentam diversas categorias de trabalhadores).

Eu estou envolvido profissionalmente com dois espaços/ambientes de trabalho, um marcado pela relação comunitária (o PdC Salvamar, em Guarapari-ES) e outro pela relação educacional (a Sec. Mun. de Educação de Cariacica-ES). Em ambos, estamos começando a desenvolver projetos de popularização não apenas do acesso à informação ou de difusão de produções culturais. Estamos criando oficinas de Introdução à Redação Jornalística para trabalhadores da Educação e para moradores.

A única maneira de furarmos o "muro" das majors de conteúdo é gerar veículos que "roubem" seus leitores. Pessoalmente, eu sempre me encantei e surpreendi com o fato de que países bem menores que o Brasil tenham/tivessem 50, 100 vezes mais publicações do que a gente. Certamente, são realidades distintas, e distintas justificativas históricas. Mas a História fala sobre o passado, não sobre o futuro...

Eu, se puder, "roubarei" leitores todos os dias no(s) meu(s) trabalho(s), ajudarei a criar colaboradores, articulistas, ensaístas, repórteres (trabalho especificamente com a área editorial...), que hão de crescer e multiplicar como Gremlins (ia dizer "vírus", mas até hoje parece que a metáfora virótica meio que desencantou, não, FF?) :-)

Hasta,

Orlando Lopes

Edu disse...

O discurso de jornalismo colaborativo, blogs e tudo o mais é muito bonito e interessante. Mas, respondam com sinceridade: quantos blogs ou veículos alternativos no Brasil vcs conhecem que se sustentam de alguma forma?

A grande maioria ou vive de merrecas do Adsense - o sistema de anúncios do Google - ou ainda trata o "seu veículo" como algo paralelo, a exemplo do que fazem os programadores feras em Linux. Li "O mundo é plano", de Thomas Friedman. Confesso que não passei de um determinado trecho em que ele trata da mesmice americana. Mas uma colocação deixou-me bastante intrigado. O movimento do Linux e seus milhares de progradores espalhados pelo mundo chega a ser poético, mas quem paga a conta no final.

A maior parte deles - raras exceções daqueles contratados pelas IBMs da vida, ou seja, empresas que têm interesse nessa plataforma - trabalha por diversão, fora do seu cotidiano e vínculo empregatício. E mais uma vez questiono: quem paga a conta? Pergunte a eles do que se sustentariam caso largassem o emprego formal e fossem apenas desenvolver Linux?

Os grandes portais da internet abraçaram a idéia do jornalismo colaborativo apenas como forma de "fazer alguém trabalhar para você de graça", e nada mais. Não estão interessados nem dispostos a perder receita.

E tem mais. Essa história de "modelo de negócios" - que inclusive uso muito como argumento em meu trabalho - está ficando tão furada quanto a "cultura". Lembro quando comecei a escrever sobre tecnologia, todas as vezes que não conseguiam identificar uma razão para a não adoção de determinada tecnologia a desculpa era sempre a mesma: "não há cultura".

Pô, quem encontrar o tal modelo de negócios vai ser o próximo Google e pronto! É isso.

Edu disse...

Esqueci-me de dois detalhes importantes: quantos blogs ou mídias alternativas vocês conhecem que têm uma quantidade representativa de leitores/espectadores?

A visão dos marketeiros e das pessoas que definem verbas de patrocínio e tudo o mais é que está comprometida com o passado. Lembro de ter entrevistado uma diretora de marketing e comunicação de uma grande operadora de celular, jovem e bastante inteligente diga-se de passagem, que foi bem clara: "na dúvida e na correria diária, o pessoal acaba fazendo o mesmo de sempre".

Mais uma: quantas empresas vocês conhecem que estão dispostas a investir nesse tipo de meio - que não seja da própria empresa (ex. empresas que criam seus próprios blogs, etc)?