23 de mai de 2007

A mensagem, a garrafa e seus donos

Por Tiago Soares

Um dia, à beira do oceano, alguém jogou ao mar uma mensagem na garrafa.

Esse alguém não estava só.

Adolescentes românticas, maníacos por filmes de terror, economistas amadores e de ofício, escribas profissionais, gente de todos os feitios e tamanhos -- eram muitos os que andavam jogando garrafas ao mar naqueles tempos.

Algumas garrafas nunca chegavam a ter seu conteúdo lido por quem quer que fosse. Outras caíam em mãos interessadas, inspiravam as massas, pautavam telejornais. Alguns, ofendidos ou críticos ao conteúdo de certas garrafas, lançavam ao mar também as suas, na esperança de que suas idéias fossem lidas por gente com os mesmos pontos de vista.

Num certo momento, eram tantas, tantas as garrafas que os destinatários antes acidentais podiam escolher as que mais lhes interessassem. Chegavam mesmo a construir comunidades ao redor de idéias desengarrafadas.

Até que os fabricantes de garrafas tiveram uma sacada. E começaram a fazer exigências para os que quisessem enfiar idéias dentro de seus recipientes e lançá-los ao mar. Alguns pediam certos direitos sobre o que suas garrafas carregassem no oceano. Outros demandavam que as mensagens fossem escritas apenas num papel timbrado disponibilizado por anunciantes.

Houve até quem passasse a cobrar taxas para o usufruto marítimo de vasilhames.

Depois disso, a coisa toda ficou um pouco confusa.

Bom, a analogia pode não ser exatamente perfeita, mas ferramentas de publicação como blogs, wikis, listas de discussão, são, cada qual à sua maneira, como as garrafas para as idéias dos seres do ciberespaço. Vasilhames feitos de camadas de códigos, servidores, banda. Lançadas ao mar da WWW, navegando correntes de hiperlinks.

É fato que essas novas interfaces tecnológicas trouxeram poder de expressão inédito ao público. Nunca foram tantos os grupos e idéias a circularem no debate global. Nunca a máquina de consenso da grande mídia corporativa esteve tão fragilizada frente ao contraditório, tão exposta à desmistificação de seus mecanismos.

Softwares de publicação online cada vez mais poderosos são disponibilizados a custo baixo ou zero. Grupos que partilham dos mesmos interesses organizam-se em comunidades no ciberespaço, potencializando a difusão e o alcance de novos conteúdos alternativos.

Não é exagero dizer que tendemos para um cenário no qual, à vista do usuário, nivelam-se a credibilidade e alcance do(s) blog(s) independente(s) e do grande portal de mídia (afinal, o trabalho para se acessar tanto um site quanto o outro é, via de regra, o mesmo).

Esse novo universo, indubitavelmente promissor para a multiplicação de culturas e idéias, não é, porém, totalmente livre. Um exemplo: enquanto a Wikipédia disponibiliza seu conteúdo colaborativo por uma licença livre (Gnu Free Documentation Licence - GFDL), o popular portal de relacionamentos MySpace.com já enfrentou manifestações de usuários que afirmam ter tido seu trabalho censurado pelos administradores do site.

Vale lembrar que o MySpace.com foi comprado em julho de 2005 pela News Corp, a gigante de mídia que comanda a Fox. E que a censura que os responsáveis pelo site teriam promovido sobre o conteúdo de usuários seria causada por motivos comerciais – todas mensagens deletadas citariam informações de sítios rivais.

Ao mesmo tempo em que disponibilizam ferramentas para uma expansão imediata de culturas e idéias no ciberespaço, conglomerados como a News Corp, donas dos servidores e dos softwares através do quais se expressam milhões de pessoas, pairam com a espada de Dâmocles sobre a cabeça de seus usuários.

O futuro dessa eminência de grandes grupos econômicos sobre estruturas de comunicação baseadas na web é ainda incerto. Mas não seria desvario pensar em hipóteses como censura, apropriação de trabalho intelectual, ou exigência de contrapartida financeira para a continuidade de serviços hoje gratuitos, entre outras coisas.

Até onde pode ir o poder das corporações de mídia e internet sobre o conteúdo gerado por seus usuários? Como resistir?

Questão delicada, essa.

Mas algo ou alguém há de zelar pelo direito de todos jogarem suas garrafas ao mar. E a resposta pode bem estar nas adoção e no uso de tecnologias livres e abertas.

4 comentários:

novaes disse...

http://www.tvlivre.org/node/51

Jose Murilo disse...

Esta é uma boa e pertinente provocação. Não há dúvida que bloggers, flickrs e youtubes desempenharam (e ainda desempenham) papéis fundamentais na socialização das possibilidades de publicação na web. Mas até onde podemos contar com esta 'boa vontade' das mega-corporações de mídia? E o Google, será que ainda escapa de ser considerado 'evil'? (Dizem que despois da aquisição do FeedBurner, não) Portanto, concordo que a adoção de tecnologias livres e abertas são o caminho. Nada contra o aproveitamento estratégico do 'free ride' proporcionado pelo capital especulativo na busca de se adaptar à lógica da web, mas há que se ter consciência e visão de futuro.

Tiago Soares disse...

Opa!

"Nada contra o aproveitamento estratégico do 'free ride' proporcionado pelo capital especulativo na busca de se adaptar à lógica da web, mas há que se ter consciência e visão de futuro."

Grande José Murilo. É exatamente o que eu tento dizer no texto. Com um monte de palavras a mais, e com umas analogias descalibradas. Mas o ponto é esse aí.

Grande abraço!

Anônimo disse...

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