24 de mai de 2007

Práticas de leitura e democratização do conhecimento

Por Lídia Eugenia Cavalcante

Creio que uma das múltiplas possibilidades de se discutir diversidade é a partir de nossas próprias experiências pessoais e coletivas. Nesse sentido, sinto-me privilegiada. Olho a diversidade e vivo a diversidade intensamente como mulher, mãe, educadora, bibliotecária, pesquisadora, funcionária pública, brasileira, cidadã... ufa! Dá até uma certa “canseira”... A contemporaneidade nos trouxe essa faceta de assumirmos vários papéis, ao mesmo tempo, na sociedade. Isto certamente tem ocorrido com uma boa parte das mulheres brasileiras, que assumem muitos papéis cotidianamente, por obrigação ou prazer. Como podemos viver tão intensamente a diversidade feminina...

Por outro lado, o excesso de categorias de análise, metodologicamente, nos leva a uma mistura de variáveis que, muitas vezes, nos faz perder o foco e dificulta a construção de um efetivo posicionamento. Podemos correr o risco de nos “enroscar como gatos em novelos de lã” e fica difícil encontrar o “fio da meada”. Assim, para esse momento, vou me concentrar em participar do debate no âmbito das minhas experiências profissionais. Isto é, no papel de educadora, bibliotecária e pesquisadora.

Numa tentativa de não perder o “fio da meada” da relação entre diversidade e cultura digital, faremos uma reflexão do ponto de vista das práticas de leitura e democratização do conhecimento no universo digital.

O surgimento dos suportes virtuais com seus hipertextos, considerados como “novos” suportes do registro do conhecimento, também apresentam novidades com relação às práticas de leitura, sejam elas físicas ou sociais. Mudam a forma de acesso, conteúdo, veracidade, paginação, visualização, estímulo, processo de interação e transmissão, mediação, pertinência, descobertas e concepção. Nasce daí uma certa ruptura com as formas tradicionais do livro impresso. O leitor segue percursos interativos de leitura, acessa meta-texto, imagens e sons por meio de links, que o convida para muitas viagens interativas. É também continuamente convidado a se tornar “autor” a cada vez que ele relaciona elementos de informação. Não se trata de uma ruptura definitiva entre impresso e digital, já que o texto impresso também permite leituras não lineares, intertextualidade e interatividade, que constroem o vasto conjunto de informações adquiridas pelo leitor. Entre impresso e digital ocorre, na realidade, um forte processo de multiplicação de possibilidades de leituras.

As áreas do conhecimento, de um modo geral, têm transitado por uma forte evolução cientifica, tecnológica e multicultural, que implica algo além do saber acadêmico ou livresco, para o uso do “aprendizado ao longo da vida”, criando uma relação entre informação, educação, conhecimento cientifico e diversidade.

Foi justamente no universo contemporâneo que o mundo se abriu para a emergência de um pensamento complexo, de saberes tão bem apresentados por Edgar Morin, ao descrever a diversidade e a complexidade humanas. No curso das últimas décadas do século passado, observamos radical transformação na socialização histórica e política com relação ao conhecimento e à informação, sobretudo no que se relaciona com o advento de uma sociedade pautada nas inovações culturais, científicas e tecnológicas. O campo informacional, por exemplo, se manifesta para abrigar discussões opostas no centro destas reflexões: como pensar a informação em um contexto de diversidade e complexidade, especialmente se considerarmos a ambiência de espaços geográficos e socialmente interativos?

A sociedade da informação não requer dos indivíduos apenas o acesso à tecnologia para crescer no mundo do trabalho. Com ela aumenta consideravelmente a diversidade cultural e os processos de interação/integração entre os sujeitos, gerando um desafio que é a promoção de vias de desenvolvimento a partir da adoção de formas de pensamento, que se voltam para processos de partilha e troca.

O desenvolvimento econômico e em ciência e tecnologia deve vir acompanhado do contexto cultural e social. Neste sentido, a educação possui papel primordial para unir competências individuais e coletivas por meio de uma linguagem interdisciplinar que, em uma pesquisa, considerará o objeto estudado sob diferentes aspectos, especialidades e teorias. Um exemplo claro para esta afirmação pode ser observado no próprio campo das dimensões epistemológicas que regem os estudos em torno da área tecnológica. Esse fenômeno tem sido observado por especialistas das ciências da informação, historiadores, antropólogos, sociólogos, filósofos e físicos, apenas para citar alguns, com abordagens enriquecidas pelas competências de cada área, levando à riqueza do conhecimento. É como se observássemos um objeto sob diferentes perspectivas e ângulos distintos.

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