Por Nelson Pretto
Calma. A frase do título é apenas a metade de uma idéia um pouco maior. De fato, não queremos a internet nas escolas, mas sim, as escolas na internet. Percebe a diferença? Essa nossa frase virou o lema do nosso grupo de pesquisa Educação, Comunicação e Tecnologias (
http://www.gec.faced.ufba.br) desde o final do século passado. Parece que em tempo de web 2.0 não custa resgatá-la. E o incrível é que, a web tem pouco mais de 15 anos e, desde o começo já diziamos: tem que ter espaço para que todos possam se colocar na rede. Tem que cair na rede. A diversidade de culturas, povos, jeitos de ser, pensar e agir precisam estar representadas e se constituirem a essência da internet. Sempre acreditamos que a relação da educação com a cultura, com a ciência e a tecnologia são fundamentais mas ainda estamos frente a poucas transformações no próprio sistema educacional. Mas, felizmente, tem muita coisa acontecendo na busca de transformação dessa realidade, e muitas delas estão sendo implantadas e conduzidas por professores e professoras atuantes e animados, lutando contra todas as faltas de condições e apoios conhecidos. Para nós, para viabilizar essas ações precisamos intensificar a apropriação das TIC enquanto elementos de cultura e não apenas como aparatos tecnológicos que ilustram ou facilitam os processos educacionais. Esses equipamentos, e todos os sistemas a eles associados, são constituidores de culturas e, exatamente por isso, demandam olharmos a educação numa perspectiva plural, que demanda novos vetores de desenvolvimento. Ou seja, temos que afastar a idéia de que educação, cultura, ciência e tecnologia podem ser pensados enquanto mecanismos de transmissão de informações. Isso implica, portanto, pensar em um processo de articulação entre todas essas áreas. No campo das tecnologias, uma ação que se tem mostrado de grande importância é uma maior aproximação com os movimentos do software livre e das possibilidades trazidas pelas tecnologias livres, ao resgatar, para o ambiente da escola, a perspectiva de colaboração. Associado a isso, os movimentos de democratização das produções, através das chamadas licenças criativas (creative commons), intensificam uma idéia que nos é muito cara: a possibilidade de uma intensa criação. Esses são movimentos que buscam fazer circular as informações, de se produzir e re-produzir permanentemente, remixando tudo, re-criando em cima do já criado. Acredito, a partir desses elementos, podemos também pensar também nos processos denominados de inclusão digital, afastando-se, assim, da perspectiva limitada do chamado treinamento para o mercado de trabalho. Temos defendido uma outra perspectiva de inclusão, que supere a dramática dicotomia: para o filho do rico, todas as condições, em um quarto conectado, com computadores de alto processamento, conectados em banda larga, suporte 0800 e, o mais importante, a liberdade quase total para se fazer o que desejar; para o filho do pobre, acesso através dos telecentros ou infocentros, com aulas de informática para o ensinamento de planilhas, processadores de texto ou coisas do tipo, geralmente de forma muito intediante e com softwares proprietários. Gastamos muito dinheiro com isso e pouco se modifica nessa realidade, uma vez que essas políticas de inclusão terminam sendo impregnadas por uma exagerada pedagogização dos processos, fazendo com que as distâncias entre aqueles que tem acesso e os que não tem, aumentem cada vez mais, reforçando a estratificação já existente em nossa sociedade.
Outro aspecto associado à educação que merece ser destacado é a alfabetização. Penso que não devemos pensá-la de forma isolada e muito menos apenas na idéia da alfabetização digital, se é que conseguimos entender o que isso significa. Creio ser imperativo, aqui também, pensar em alfabetizações, com a perspectiva plural de novo presente, fortalecendo-se, com isso, todo o sistema educacional, formal e não-formal. O que propugnamos é que professores e alunos deixem de ser meros atores do processo educacional e passem a ser considerados - cada um individualmente e enquanto grupos - autores do processo. Para tal, o que estamos pensando em nosso grupo de pesquisa [
www.gec.faced.ufba.br] é que precisamos superar a idéia de montagem de portais de serviços que distribuem informação, produzidas por especialistas e de forma centralizada, para consumidores localizados nas escolas. Pensamos que se torna necessário constituir comunidades virtuais de aprendizagem, articulando toda a rede, com escolas, professores, alunos e comunidade atuando de forma intensa e permanente visando a incorporação de todas as manifestações de cada uma das regiões e, promovendo o diálogo dessas manifestações com as oriundas de outras regiões, da alta cultura e da ciência, mas sempre em processos horizontalizados. Estamos construindo essas reflexões, sempre inspirados no nosso querido professor Felippe Serpa [
http://www.faced.ufba.br/rascunho_digital/] , que propunha-nos pensar em pedagogias da diferença em oposição às tradicionais pedagogias da assimilação. Pedagogias que tenham o diferente como fundante, não nos colocando como referência a identidade, mas ao próprio diferente. Busca-se, com isso, o enaltecimento da diferença, sendo ela produtora de alteridades, como nos propôs em conversa pessoal o professor Wladimir Garcia da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Santa Catarina. As expressões que passam a fazer parte do vocabulário dos educadores, assim, são fluxo, rede e movimento, em lugar das já conhecidas linearidade, currículo fechado, currículo distribuído, treinamento, entre tantas outras. A montagem de um sistema fortalecido como esse, significa fortalecer o sistema como um todo, através das redes colaborativas, centradas na generosidade, na cooperação e no trabalho colaborativo.
Acredito que investir fortemente na formação de professores, nas condições de trabalho e salário, são condições básicas para a mudança que se espera do sistema. O professor tem que ser valorizado enquanto elemento que possa articular essas diversas instâncias na produção do conhecimento e as diferenças trazidas pelos seus alunos. Assim, e somente assim, com o professor retomando o seu papel de liderança científica, cultural, ética, a escola pode assumir a condição de se constituir num efetivo espaço coletivo de culturas e conhecimentos, oferecendo aos filhos dos pobres aquilo que os filhos dos ricos têm em casa, como já foi dito pelo educador baiano Anísio Teixeira, na década de 50 do século passado. Este é, seguramente, um dos desafios fenomenais que temos pela frente, e aqui, todo cuidado é pouco pois os resultados não são imediatos. Mas esses, podem ser importantes passos para a construção de um planeta solidário e sustentável.